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“Casados à Primeira Vista”: estudo diz que ver trash TV faz baixar o QI

É a conclusão de uma investigação norueguesa. A NiT falou com o professor Øystein Hernæs, um dos especialistas.
O programa está na segunda temporada.

Ver trash TV pode diminuir o QI. É a conclusão de uma investigação norueguesa do Centro Ragnar Frisch para a Investigação Económica, publicada em 2018 na revista científica “Human Resources”.

Ao longo das últimas décadas, desde que a televisão por cabo começou a crescer no país nórdico e os reality shows ultrapassaram os programas da televisão pública e outros formatos mais educativos — como documentários ou noticiários — houve um decréscimo na inteligência dos homens.

O professor Øystein Hernæs, o principal responsável pela investigação, teve a vantagem de a televisão por cabo ter sido introduzida na Noruega em 1981 — mas só foi alargada a cada região do País de forma gradual ao longo do tempo.

Desta forma, foi possível estudar os efeitos da televisão por cabo e dos respetivos reality shows em cada região — já que se sabia o exato momento em que cada zona do país teve acesso a esses formatos.

Além disso, há um serviço nacional na Noruega em que os homens têm de fazer um teste de QI. Por isso, foi possível medir as diferenças entre regiões e descobrir qual é entre a relação entre os vários possíveis fatores.

O que se confirmou é que nas zonas do país que começaram a ter televisão por cabo, o QI dos homens começou a descer 0,08 pontos todos os anos. Além disso, subiu a taxa de abandono escolar, o que pode também justificar a queda do QI, já que tudo estará relacionado.

“Descobrimos que maior exposição à televisão comercial reduz as capacidades cognitivas e diminui a taxa de sucesso escolar dos rapazes”, conta à NiT o professor Øystein Hernæs. “Os efeitos parecem ter a ver com o consumo de televisão leve, que afasta as pessoas de atividades mais estimulantes ao nível cognitivo.”

Para este estudo, não foram consideradas as famílias que se mudaram para cada região quando a expansão da televisão por cabo já estava a acontecer. E, na verdade, o estudo concluiu que este efeito negativo tinha a ver com a falta de outras atividades — e não só com a trash tv em si.

“Não concluímos que ver entretenimento leve na televisão fosse prejudicial em si mesmo. Era negativo porque levava a que as pessoas passassem menos tempo a fazer outras atividades mais exigentes, como ler.”

Ou seja, a televisão por cabo — e os programas menos educativos — foi associada à falta de atividades mais estimulantes para a inteligência, o que fez com que o QI diminuísse. “Não encontrámos efeito no abandono escolar para as raparigas. Neste período, a leitura foi mais reduzida nos homens do que nas mulheres, e isso pode ajudar a explicar.”

Falando de um exemplo concreto, que é familiar aos portugueses, o professor Øystein Hernæs considera que “Casados à Primeira Vista” “não é educacional” e que se pode introduzir na categoria de entretenimento leve — a tal trash tv que, de forma indireta, pode ter o efeito de diminuir o QI. Na própria Noruega existe uma versão deste formato por isso Hernæs conhece o programa.

Hernæs diz que não recebeu quaisquer críticas ao estudo e que “os resultados pareceram plausíveis para as pessoas” de quem receberam feedback.

Apesar de o estudo ter sido conduzido na Noruega, o professor defende que os efeitos podem ser os mesmos noutros países.

Em Itália, uma investigação semelhante — que também acompanhou as mudanças televisivas — explica que os programas de entretenimento leve foram criando uma linguagem simples (muitas vezes com exibicionismo e frases polémicas à mistura) que alteraram a perceção das pessoas em relação a várias coisas, incluindo resultou numa maior abertura face aos partidos populistas.