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Cuidado com os “factos” apresentados no polémico documentário vegan da Netflix

"The Game Changers" foi lançado recentemente, mas apresenta vários dados que não são tão verdadeiros como são apresentados.
Arnold Schwarzenegger é produtor e um dos entrevistados.

Chama-se “The Game Changers” e é um documentário produzido por James Cameron sobre os benefícios da alimentação vegan ou vegetariana — o filme prefere o termo “plant-based diet”, ou, em português, “dieta baseada em plantas” — que estreou em 2018 mas que tem dado que falar agora, porque chegou à Netflix a 16 de outubro. Foi realizado por Louie Psihoyos.

O ex-lutador da UFC James Wilks conduz a narrativa do documentário ao contar a própria história — explicando que deixou de comer carne e produtos oriundos de animais (como leite ou ovos) e passou a ter uma dieta vegan.

Arnold Schwarzenegger, Jackie Chan ou Lewis Hamilton são outras das estrelas que falam dos benefícios pessoais que tiveram desde que passaram a comer mais vegetais e menos carne — e de como isso influenciou a sua performance física, seja nas provas de alta competição ou simplesmente nos movimentos nas gravações de um filme.

A narrativa do documentário pressupõe que o consumo de animais pode causar vários problemas à saúde: desde limitar a capacidade atlética até a problemas arteriais, passando por doenças graves (como cancro) ou até mesmo uma morte precoce.

A questão é que “The Game Changers” está a tornar-se bastante polémico, por causa da argumentação que usa que é apresentada como científica — ou dados que são mostrados como factos —, mas que acaba por não ser bem assim.

Muitos especialistas na área do fitness, como personal trainers, têm criticado o documentário depois de o terem visto. É o caso de Max Lugavere, que escreveu o bestseller “Genius Foods”.

“Não ouviram? Há um novo documentário na Netflix que defende uma dieta exclusivamente baseada em plantas para a performance atlética e a saúde, fazendo alegações negativas sobre qualquer tipo de consumo de carne. Infelizmente, é ciência com base numa agenda, uma narrativa que só olha para alguns factos. Não quer dizer que não haja algumas verdades no documentário, mas eu não o recomendaria”, comentou o personal trainer no Instagram.

Outro exemplo é o do PT e autor americano James Smith, que critica alguns dados específicos que são apresentados em “The Game Changers”. Smith refuta o facto de que o consumo de sumo de beterraba possa aumentar a capacidade de levantar pesos (quando se está deitado) em 19 por cento.

Além disso, o personal trainer defende que uma sandes de manteiga de amendoim não tem mais nem melhores proteínas do que três ovos cozidos, como é dito no documentário.

Pelas redes sociais tem havido comentários de apoio, de que é um filme de que tem de ser visto, mas muitos especialistas alegam que a informação apresentada não é a mais correta — sendo que ao longo da hora e meia de filme Wilkins vai citando inúmeros estudos e cientistas, inclusive vários que são entrevistados.

A revista especializada “Men’s Health” diz que “The Game Changers” “só apresenta um lado dos factos, muitas vezes de fontes controversas, grandes conclusões a partir de pequenos estudos e têm declarações que são enganadoras”.

Como exemplo, a revista explica que Wilks começa o filme com o conceito de que os gladiadores romanos não comiam carne e que eram, ainda assim, muito fortes. Mesmo que possam existir alguns dados sobre isso, a “Men’s Health” diz que o estudo que é citado não é, na verdade, um estudo — mas antes um texto numa publicação de arqueologia.

Há uma parte do filme em que James Wilks alega que o leite de vaca pode aumentar o estrogénio e diminuir a testosterona nos homens. O estudo de 2010 que é referido, publicado no jornal científico “Pediatrics International”, foi feito só usando o leite de vacas grávidas. A amostra foi apenas de 18 pessoas (sete homens, cinco mulheres e seis crianças), e concluiu que o leite diminuiu a testosterona de forma temporária. Ou seja, é uma grande extrapolação se se disser que o leite de vaca reduz definitivamente a testosterona, tendo em conta a pequena amostra e as circunstâncias.

A “Men’s Health” também diz que o filme explica que muitas substâncias só presentes na comida animal estão associadas a várias doenças, em particular o cancro — só que, segundo a revista, ainda não há estudos científicos suficientes sobre a maior parte dessas substâncias para se poder fazer afirmações com tanta certeza e determinação.

No documentário são conduzidos dois testes — ambos com resultados favoráveis á alimentação vegan. A primeira experiência são análises ao sangue, a segunda é para testar as diferenças entre ereções quando se come carne ou vegetais. Para tal, três atletas comem burritos de carne, e burritos de vegetais, para as diferenças imediatas (no dia a seguir) poderem ser analisadas.

O problema é que estas pequenas investigações não têm em conta tantos outros fatores, como o stress, a fadiga muscular, o treino, a hidratação, o consumo de álcool ou tabaco, o estado emocional ou as predisposições genéticas, entre outros.

Outras publicações especializadas têm escrutinado em detalhe as alegações levantadas por “The Game Changers”, sendo que muitas delas estão a ser postas em causa. O Tactic Method e a plataforma Medium têm outros artigos aprofundados sobre o assunto.