Televisão

Crítica: os Pearson têm muita roupa suja para lavar em “This Is Us”

A série está de volta e acabaram-se as boas maneiras. Há ressentimentos, gritos e nossa nova paixão deste ano chama-se Miguel.

Pazes feitas entre os "Big 3".
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Kevin está vivo, fora da prisão e novamente com bom aspeto. Respiremos de alívio. Encontramo-lo em reabilitação — porque é aí que os famosos pagam pela porcaria que fazem, repara Beth e muito bem — e tudo começa de forma pacífica, com a família a aparecer para mostrar apoio. Só que passaram as férias de Natal, acumularam-se umas quantas mágoas e os Pearson regressam com muita roupa suja para lavar em público.

“The Fifth Wheel”, o 11.º episódio — transmitido esta quinta-feira, 11 de janeiro, na Fox Life — deu início à segunda parte desta segunda temporada e trouxe coisas nunca antes vistas em “This Is Us”: gritaria e acusações. De resto, tudo igual: cena sim, cena não provocam nos espectadores uma choradeira, ora discreta e inaudível, ora daquelas intercaladas com soluços. Vamos lá então outra vez para mais uma voltinha nesta montanha-russa de emoções.

Jack (ou o fantasma de Jack)

Sou só eu ou basta a personagem aparecer no ecrã (bolas, basta ser pronunciado o nome) para surgir também uma vontade incontrolável de chorar? É que sabemos que o homem vai morrer quase desde o início e essa informação paira sobre a história como um fantasma. Dá vontade de gritar para o ecrã: “não sejas parvo, Kevin, pede desculpa ao teu pai” ou “Kate, dá-lhe um último abraço mais apertado.”

Fim das cordialidades

Aparece fresco e cheio de charme, como sempre. Tudo não passa de mais uma faceta de ator, como sempre. Toca a andar para uma sessão com uma terapeuta (sim, é aquela atriz que fazia de mãe de Meredith em “Anatomia de Grey”) para deitar tudo cá para fora. Pensavam que ia ser tudo beijos e abraços porque os Pearson são todos uns fofinhos, não era? Porém, muitos espectadores estavam certamente, no final daquela terapia, como Kate: a chorar a um canto, sem conseguir dizer uma palavra. Era necessária aquela explosão, que até acabou demasiado depressa. Foi duro, foi violento mas até podia ter sido mais.

Deixem o Kevin falar, pá

Toda a gente assume que sabe porque é que Kevin chegou àquele ponto — eles sabem lá, não viram o rapaz a gritar desesperado no jardim da tipa do liceu. E o colar que era de Jack, meu Deus? Ainda estou para aqui a pensar nisso. Kate até acha que o irmão é um drogadito por causa do trauma da morte do pai. A frustração de Kevin cresce quando ele percebe que ninguém reparava quando ele era miúdo e que todos continuam a ignorar o mesmo agora. Nós, espectadores, percebemos bem do que ele está a falar mas, se não fossem os flashbacks na história, também acharíamos que estava a exagerar. Mais uma vez, neste episódio há um exemplo claro disso. Na cabana, Jack está focado no problema de peso de Kate e Rebecca preocupada em fazer Randall sentir-se bem com os seus novos óculos, que desaparecem entretanto. Quem é imediatamente acusado? O desgraçado do Kevin, claro. Kate era a menina do papá, Randall e Rebecca encaixavam-se na perfeição. No meio disto tudo sobrava Kevin. Afinal, era o miúdo giro da escola, tinha uma carreira promissora de futebol americano pela frente, porque é que alguém haveria de se preocupar com ele? Kevin fala (ou tenta) e ninguém ouve nada. Ele acusa a mãe, Randall defende a mãe, Rebecca grita, Kate chora.

E mais desta Rebecca, não há?

Kevin não é o filho favorito de ninguém e ele só quer que Rebecca admita que sempre gostou mais de Randall. “Era só mais fácil”, explode ela no melhor momento do episódio. Deste lado sentimos o murro (ou dezenas deles) que a admissão provoca. E não acaba por aqui: “Ele [Randall] não me abandonou e saiu de casa depois da morte do pai.” Quando Rebecca se passa, 30 mil sentimentos passa pela minha cabeça. “Mas o que é isto, tu não gritas”, “até que enfim, esse murro na mesa devia ter sido dado há anos”, “alguém abrace esta mulher depressa”. Se a Rebecca do passado é uma personagem muito ativa e cheia de conflitos, da versão do presente pouco sabemos. Aparece esporadicamente, fala de forma pausada e contida e essa está longe de ser a Rebecca que conhecemos e adoramos.