Televisão

Crítica: “Insatiable” é mau que dói

Vimos o primeiro episódio desta estreia para que não tenha de o fazer. É uma das piores séries do ano.

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Antes mesmo da estreia, “Insatiable” criou uma pequena controvérsia devido ao trailer, que levou a que acusassem o novo título da Netflix de “fat shaming”. Depois de superados os insuportáveis 43 minutos e 45 segundos do primeiro episódio, fica a ideia de que isso foi a única coisa remotamente interessante a acontecer com a série. É possível que “Insatiable” encontre o seu público, mas também há muita gente que abranda para ver acidentes de automóvel.

Patty (Debby Ryan) é uma adolescente norte-americana com peso a mais. A sua vida, conforme nos é mostrada no início do episódio, é um inferno. Porque todos os colegas na escola gozam agressivamente com ela, como se a obesidade fosse um fenómeno raro nos EUA.

A falta de subtileza desse bullying é suficiente para revirar os olhos, mas “Insatiable” não perde tempo com realismo, nem detalhes. Passados dez minutos do primeiro episódio, Patty já está magra. Como? Um sem abrigo tenta roubar-lhe um chocolate à porta de uma loja de conveniência, ela dá-lhe um murro e ele devolve a agressão, partindo-lhe o maxilar. E é isso. Como descreve mentalmente uma personagem quando a vê: “Maxilar fraturado, dieta líquida. Ela deve ter perdido 30 quilos.” Não é elegante, inteligente, nem lógico, mas é um momento que cristaliza toda a série.

A outra personagem principal é Bob (Dallas Roberts), um advogado que também gere raparigas em concursos de beleza. Depois de uma destas comprometer a prestação num concurso com uma resposta ignorante a uma pergunta, a mãe da rapariga decide acusar Bob de comportamento impróprio para disfarçar. Bob cai mais ou menos em desgraça, sob suspeita de pedofilia. É uma parte da história que poderia ter ficado por aí, mas as personagens da mãe e filha voltam a aparecer várias vezes ao longo do episódio, decididas a destruir a vida de Bob por razões nebulosas.

Bob e Patty juntam-se quando ele é obrigado a defendê-la pro bono em tribunal. No universo de “Insatiable”, as acusações de pedofilia resolvem-se com cochichos, mas o caso complicado da “rapariga obesa vs sem abrigo” vai imediatamente para tribunal. Enfim. Para vencer o caso, Patty seduz o rapaz da loja de conveniência para ele mentir no testemunho. E, como funciona, ela ganha gosto em ser uma pessoa horrível e decide vingar-se de todos os que gozaram com ela naquelas três curtas cenas do início do episódio. Além disso, Bob convence-a de que consegue fazer dela a próxima Miss América. “Posso ser famosa, como a Drew Barrymore”, diz Patty, “Aí, todos os otários que gozavam comigo vão ter tanta inveja que nem vão conseguir respirar.”

Mas não é só Patty que é uma pessoa detestável. Todos os adultos aqui se comportam como adolescentes obcecados com fama e status. Poderia ser interessante, se “Insatiable” funcionasse como a sátira dos piores impulsos da nossa sociedade que queria tanto ser, mas a série não tem qualidade suficiente para isso e arruina-se a si própria em todos os aspetos.

A começar pelo guião, que é do pior que se tem visto nos últimos tempos. Além de abusar da narração em voz off de Patty e Bob (que já de si parece uma solução de último recurso para salvar a história cheia de buracos), “Insatiable” peca por não ter um pingo de graça. Afinal, esta é uma série que acha que mencionar cancro retal é, por si só, a coisa mais hilariante de 2018. No fundo, “Insatiable” é tão mau e superficial quanto as suas personagens e tão agradável quanto um murro de um sem abrigo. Que, já se sabe, é a melhor dieta.