Televisão

Crítica: “Anatomia de Grey” está em velocidade de cruzeiro (esperemos que por pouco tempo)

Não é caso para odiarmos a série mas também não é bom. Acontecem muitas coisas, embora nenhuma realmente importante para a história.

Eles vão deixar de ser amiguinhos por causa de um concurso.
60

Os médicos de Grey Sloan Memorial são os melhores do país, os mais bonitos, arrojados e por aí fora. Já sabemos esta lenga-lenga de cor mas para desanuviar da intensidade de um episódio inteiramente dedicado a Bailey ou só porque é preciso encher uma hora de televisão com alguma coisa, “Harder, Better, Faster, Stronger” — transmitido pela Fox Life esta quarta-feira, 14 de fevereiro —, faz só e simplesmente isso: lembrar-nos dessa lenga-lenga que já conhecemos (e adoramos, isso não está em causa) há 14 temporadas. 

A série está em velocidade de cruzeiro, segue a sua rota de forma estabilizada. Muitas coisas estão a acontecer ao mesmo tempo, embora nenhuma absolutamente importante ou inesperada para fazer avançar a história. Os médicos estão todos a competir num aliciante concurso que irá atribuir uns quantos milhões à ideia mais inovadora. A única cena realmente boa no meio disto tudo é uma versão ressacada e exasperada de April, que aparece no hospital após mais uma noite de muito pecado (cinco Ave Marias para ti, Kepner) com o interno e inventa em três segundos meia dúzia de regras para a competição que tem de dirigir — eu, que geralmente sou da equipa anti-Kepner, era bem capaz de mudar de opinião se a visse mais vezes neste registo.

Voltemos aos projetos megalómanos (claro) que estes cirurgiões que não vão deixar hipóteses a mais nenhum de outro hospital (claro) estão a desenvolver. Jackson Avery está muito empolgado com pele em spray mas a mãe aparece, apresenta-lhe outra médica que quer ser cobaia de uma vaginoplastia inovadora e o rapaz vacila. Richard Webber aproveita aulas de salsa para surpreender a mulher para passar algum tempo com a filha, Maggie — finalmente, porque mal os temos visto juntos —, e apresenta-lhe uma caneta capaz de detetar com um simples toque se um tecido tem ou não cancro. Para ela, tudo aquilo lhe recorda uma varinha mágica da infância e os momentos entre os dois são os poucos capazes de nos arrancar alguns suspiros esta semana. Arizona Robbins quer descobrir porque é que a taxa de mortes em mulheres que acabam de ser mães é tão elevada nos Estados Unidos, Alex Karev e Amelia Shepherd estão empenhados numa complexa cirurgia que pode partir um tumor numa frequência específica (ou qualquer coisa do género, é difícil de acompanhar, a história de Kimmy já é emotiva por si só).

Já para Meredith Grey, que agora carrega o rótulo de grande vencedora de um conceituadíssimo Harper Avery, as ideias estão difíceis de aparecer. Quando surge uma antiga paciente, que está a produzir quase de forma mágica mini-baços, faz-se luz — mais na cabeça de Jo Wilson do que na de Grey mas ok. Está encontrada a ideia para entrar na corrida e Jo, finalmente livre do marido violento que acabou vegetal a distribuir órgãos por aqui e por ali, já não precisa de ter medo de publicar o seu verdadeiro nome. Pequeno problemazinho que pode acabar com o projeto ainda antes do mesmo começar: Meredith não tem a patente de um indispensável polímero. Seriously? Seriously.

Depois das declarações de amor da semana passada, Ben está completamente ausente da história de Bailey, que passa o episódio na cama a desenvolver uma engenhoca. A única piada aqui tudo é a corrida para cá e para lá do pobre interno Glasses (Óculos).

O que já não tem graça nenhuma e só serve para revirar os olhos ou bocejar (no meu caso até acontecem os dois em simultâneo) é este pseudo-clima entre DeLuca e Sam e a outra DeLuca, Carina, que nunca mais apanha o raio do avião de volta para Itália. A sério, Arizona Robbins — tal como Miranda Bailey — também já passou por suficiente para merecer um bocadinho mais de protagonismo e carinho na escolha da sua narrativa. Bora lá, guionistas de “Anatomia de Grey”, ainda restam 12 capítulos até ao final desta temporada.