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Crítica: “Anatomia de Grey” quer salvar Amelia mas nós dispensamos

Não é um tumor no cérebro que justifica todos os comportamentos da personagem mais irritante da série.

Amelia passa de médica a paciente.
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Médicos que nunca querem contar que estão doentes, colegas que lutam com a decisão de revelar tudo ou não, cirurgias de vida ou morte. Já vimos isto dezenas de vezes em “Anatomia de Grey”, temos aceitado tudo e chorado muito mas agora basta. Amelia Shepherd tem um tumor gigante no cérebro, o único responsável pelas suas atitudes sem nexo, e nós não queremos saber. A personagem pode até sobreviver à operação que aí vem mas nem assim terá salvação para nós, espectadores.

“Go Big or Go Home” — o terceiro episódio da 14.ª temporada, transmitido esta quarta-feira, 11 de outubro, pela Fox Life — dá a notícia aos amigos e familiares mas, felizmente, também tem outras coisas. Miranda Bailey contribui com momentos de humor, Richard Webber diz sempre as palavras certas e Meredith tem o mesmo problema de sempre: resiste até ao último segundo para ser feliz. O bom, o mau e o que nos faz revirar os olhos está aqui.

Shonda, tens três segundos para acabar com isto

Como é que se justificam as atitudes irracionais e infantis de uma personagem para a qual o público tem cada vez menos paciência? Shonda Rhimes diz que é com um enorme tumor no cérebro. Só que a história do assustador tumor já é velha e já aconteceu a uma personagem, Izzie Stevens, de quem gostávamos bem mais. As aparições de Amelia Shepherd na história têm sido tão repetitivas, enfadonhas e desgastantes, que nem sequer é possível ter pena dela. Lamento, por mais que não goste de ver a série matar as personagens principais, não vou acender velinhas a sete santos para que ela se salve da muitíssimo complicada e perigosa cirurgia. A única coisa boa nisto tudo é o aparecimento do neurocirurgião Tom Koracick, interpretado pelo ator Greg Germann. Apesar de todos os seus papéis serem parecidos (“Ally McBeal”, “Amigos de Faculdade”), destacam sempre uma ironia e desajustamento social hilariantes.

Aquelas personagens que nos apaixonam e nos abandonam em apenas um episódio

Um dos pacientes desta semana é o terapeuta de Meredith Grey, Walter Carr. Foi ele que a ajudou a ultrapassar a morte de Derek. A médica fica preocupada com o internamento dele mas rapidamente percebe que ele está preso a uma cama e que tem muito tempo livre para ouvir as suas lamúrias. O homem passa por exames, quase morre, não tem qualquer familiar ou amigo com ele e nos poucos segundos em que fala dele próprio revela que é viúvo, apesar de ainda usar aliança. É de partir o coração, não é? De vez em quando, “Anatomia de Grey” apresenta-nos personagens que mexem logo connosco e esta é uma delas. Felizmente não teve o destino da maioria — costumam morrer para tudo ser ainda mais trágico e avassalador — mas não é expectável que apareça nos próximos capítulos.

Mulher, sê feliz por amor de Deus

Meredith, Meredith, o que havemos de fazer contigo? Passou o episódio inteirinho de mau humor e irritada com o mundo. Obviamente que o motivo é só um, Nathan Riggs. Primeiro não quer falar com ele, muito menos olhar-lhe para a cara, mas no final lá lhe explica que está zangada por ele não estar a aproveitar o sonho de ambos (que os respetivos companheiros mortos regressassem). Ora se Riggs não vai atrás de Megan Hunt, é burro. Mas burro só se for por estar apaixonado pela mulher mais complicada à face da terra, Meredith Grey, obviamente. Ela não quer triângulos amorosos, ela não quer ficar com o noivo da morta que afinal está viva, ela não quer parar de dizer que perdeu o amor da sua vida. Já sabemos isso tudo mas Riggs não vai a lado nenhum e seria melhor para todos ela admitir que também gosta dele já.

Onde anda Teddy?

Então não era o grande regresso da temporada? Andou dois episódios a consolar Owen Hunt, a chocar com Amelia Shepherd, a dizer ao rapaz que ficava com ele mas só depois de ele deixar a mulher e agora desapareceu como D. Sebastião numa manhã de nevoeiro?

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