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Cantona chega à Netflix para vingar os desempregados de todo mundo — à cabeçada

Em "Recursos Desumanos", o ex-futebolista interpreta um homem que só quer um emprego. Mas a vida não é assim tão simples.
Cantona vai combater o desemprego à cabeçada
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No dia em que foi ilibado de uma pena de prisão, depois de ter pontapeado e agredido um adepto, Eric Cantona marchou até à conferência de imprensa, sentou-se, olhou para as câmaras com aquele olhar temível que só ele sabe fazer, e disse: “Quando as gaivotas perseguem a traineira, é porque acreditam que as sardinhas vão ser lançadas ao mar”.

O enfant terrible, lendário número sete e homem das golas ao alto, é hoje muito mais do que um futebolista reformado, é também um aperfeiçoador de metáforas. Foi precisamente no ano da famosa patada de kung-fu entregue com carinho a um adepto do Crystal Palace que o francês fazia a estreia no cinema. 25 anos depois, Cantona é o protagonista da nova série da Netflix que é uma espécie de best of cantoniano: cabeçadas, mau feitio e metáforas confusas.

“Recursos Desumanos” começa com um afirmação ousada: inspirado numa história verídica. É uma meia-verdade. A série francesa de apenas seis episódios baseia-se na obra policial “Cadres Noirs” de Pierre Lemaitre, que por sua vez roubou inspiração a um caso bizarro que envolveu um tal de Philippe Santini, diretor do departamento de publicidade da France Télévisions, que aproveitou um seminário com doze funcionários para simular um sequestro.

Nove ex-militares encapuzados e armados invadiram a sala e durante mais de uma hora mantiveram-nos sob pressão, amarrados e de cabeça tapada. O diretor comercial teve mesmo que ser evacuado em estado de choque. Afinal, tudo não passava de um teste para avaliar a sua resistência ao stress. As semelhanças com a realidade terminam aqui.

Delambre tem um fusível curto, tal como Cantona

De volta à ficção, Cantona é a estrela de “Recursos Humanos”, embora uma que não brilhe muito para além das qualidades que já lhe conhecemos. É, aliás, o cenário da primeiríssima cena que se repetirá ao longo dos episódios, que abrem sempre com um plano aproximado de um Cantona feroz, sério e de olhar penetrante — e um monólogo que conduz a história.

“Nunca fui violento”, explica a personagem, Alain Delambre, de camisola de manga cava, cabeça rapada, barba de rufia e tatuagem. A história acompanha a espiral descendente de um funcionário de recursos humanos, desempregado há seis anos e em sérias dificuldades financeiras. Desesperado, acaba por recorrer a um complicado (e ilegal) esquema na tentativa de escapar à miséria em que se encontra.

Sem emprego, sem dinheiro, em estado depressivo que trouxe consigo uma disfunção erétil. O cenário dificilmente poderia ser pior, pelo menos até que Delambre assume o seu espírito de Cantona e, tal como o antigo craque do Manchester United, desata a distribuir cabeçadas, o golpe que roubou o estrelato à patada.

Ao longo de seis episódios, “Recursos Desumanos” sofre de um problema fatal: não sabe se é um thriller prisional ou um drama de um anti-herói à moda de “Breaking Bad” e “Ozark”. Sabe, pelo menos, que a sua temática principal é a da luta de uma vítima de uma sociedade capitalista e de um modelo empresarial cruel.

Do outro lado está um vilão saído de uma folha de Excel: Alexandre Dorfmann, sujeito oleoso e símbolo de um neoliberalismo impiedoso, CEO da empresa de aeronáutica Exxay, que comanda lá do alto do seu covil numa das torres de La Défense, o distrito financeiro parisiense.

Os twists e guinadas do argumento são ocasionalmente bem intencionadas, embora raramente justificadas, isto quando não caem na patetice de dar super-poderes informáticos a um desempregado desgrenhado.

“Recursos Desumanos” não é um desastre. Eric Cantona não é um desperdício de talento, embora se sinta sempre mais confortável a atuar no seu pequeno T2 cheio de infiltrações, onde o raio de expressões faciais oscila apenas entre o triste e o zangado.

Os seis episódios podem ser um bom escape para todos os que passaram os anos 90 a deliciar-se com as fintas, delírios e as já famosas metáforas do francês. Ao fim de quase seis horas, ele vai explicar-lhe porque é que “a violência é como o álcool e o sexo” ou porque é que “a ira é como o dinheiro”. Todo os outros podem passar à frente: é que as sardinhas que saem desta traineira não são lá muito apetitosas.