NiTfm live

Televisão

“Aos Olhos da Justiça”: a vida real dos homens mais injustiçados da Netflix

A série estreou no final de maio e tem sido um fenómeno de audiências (com consequências práticas na realidade).
A série estreou a 31 de maio.

Trisha Meili estava a correr no Central Park, em Nova Iorque, como acontecia tantas outras vezes. Só que naquela noite de primavera de 1989 foi brutalmente atacada e violada.

Algum tempo depois, foi encontrada entre os arbustos do parque. Perdera 75 por cento do sangue, tinha duas fraturas cranianas, hipotermia e restos de sémen nas partes íntimas. Desfigurada, Trisha Meili só foi reconhecida por um anel que usava. Não vestia nada além de um top de treino. Trabalhava no mercado financeiro e, quando recuperou a consciência, não se lembrava de nada.

Nessa mesma noite, véspera de um feriado escolar, vários outros crimes foram cometidos no parque, incluindo assédios e agressões contra ciclistas e corredores. Por causa de atos de vandalismo, muitos adolescentes foram detidos.

Cinco deles, com idades entre 14 e 16 anos, estavam prestes a ser libertados quando a polícia descobriu o corpo de Meili. Um detetive mandou retê-los e os quatro afro-americanos e um hispânico tornaram-se nos principais suspeitos. Ficaram conhecidos como os “central park five”.

Kevin Richardson, Yusef Salaam, Raymond Santana, Antron McCray e Korey Wise foram interrogados separadamente durante quase 30 horas, sem poderem comer, beber ou dormir. Como nunca tinham passado por uma situação semelhante nem tinham cadastro policial. Eles não sabiam sequer que podiam exigir a presença de um advogado.

Os adultos disseram-lhes que, se colaborassem, poderiam ir para casa. Exaustos e coagidos, os jovens confessaram o crime e quatro deles admitiram em vídeo que tinham estado assistido à violação. Apesar de se incriminarem uns aos outros, nenhum soube descrever a vítima nem o local do ataque.

Recentemente, numa entrevista ao canal de televisão “CBS New York“, Yusef Salaam disse que ouviu a polícia espancar Korey Wise na sala ao lado do local onde ele aguardava para ser interrogado. A mãe de Salaam interrompeu o testemunho antes que o filho assinasse a confissão, mas ainda assim um detetive foi autorizado a testemunhar que o adolescente admitiu a sua participação no crime.

Os cinco foram considerados culpados, apesar de não haver nenhuma prova de ADN que os colocasse na cena do crime. As análises mostraram que o cabelo e o sémen encontrados no corpo da vítima não pertenciam a nenhum deles. Ainda sim, a justiça considerou que havia um sexto suspeito envolvido no caso e decidiu mantê-los presos.

Em 1990, os jovens foram divididos em dois julgamentos. Salaam, McCray e Santana foram acusados de violação e de agressão; Richardson de tentativa de assassinato, violação e roubo; e Wise foi condenado por agressão, abuso sexual e desordem. Enquanto quatro deles ficaram encarcerados durante sete anos, Wise, que na altura tinha 16 anos, recebeu uma pena de adulto.

Só em 2002 é que o verdadeiro culpado, um violador em série, se chegou à frente e confessou o que tinha feito. Um simples teste de ADN comprovou-o e ilibou os cinco jovens (agora já bem adultos). A cidade de Nova Iorque foi obrigada a indemnizá-los.

A pressão na opinião pública foi um dos principais fatores para a necessidade de procurar culpados — e de forma rápida — naquele caso. O atual presidente dos EUA, Donald Trump, foi um dos principais instigadores daquele movimento social. Ainda nos anos 80, comprou uma página inteira de jornal para apelar à pena de morte para os cinco jovens.

A série de televisão que conta toda esta história (e de forma fiel à realidade) chama-se “Aos Olhos da Justiça”, é uma produção da Netflix e foi realizada por Ava DuVernay, que criou “Selma: A Marcha da Liberdade” e o documentário “A 13.ª Emenda”, entre outros projetos que têm como grande tema a discriminação racial nos EUA.

Estreou a 31 de maio e tem quatro episódios. Desde que foi lançada que tem sido a série mais vista na plataforma de streaming. É intensa, revoltante e provocadora — por isso mesmo é que tem levado o tema de volta à opinião pública. Questionado por repórteres esta terça-feira, 18 de junho, Donald Trump não pediu desculpa aos jovens pelo que fez naquela altura e disse que ainda tinha dúvidas sobre a veracidade da inocência do grupo.

A procuradora Elizabeth Lederer, que liderou a acusação e que na série é interpretada por Vera Farmiga, deixou esta semana o seu emprego como professora na Universidade de Direito de Columbia. Tudo por causa de um protesto de uma organização de estudantes negros da faculdade, que lançou uma petição para que a instituição despedisse Lederer.

Carregue na galeria para ler a comparação da NiT entre as pessoas reais e os atores que as interpretaram nesta produção da Netflix.