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Almoçámos na Casa das Francesinhas e sim, estava tudo bem Zé Carlos

Provámos as francesinhas do novo Miminhos da Fátima e não ficámos impressionados. Ainda assim, estão no bom caminho.
A equipa manteve-se e tem mais um elemento (Foto: João Sousa)

É seguro dizer que a chegada à Casa das Francesinhas — agora batizada de Miminhos da Fátima, depois da visita da equipa do “Pesadelo na Cozinha — é tudo menos convencional. A transformação exterior, à parte da mudança do painel que exibe o nome, não existiu. E não fôssemos nós numa missão de experimentar os cozinhados de Fátima, certamente que hesitaríamos arriscar a entrada num espaço de vidros fumados onde é quase impossível espreitar o interior. Arriscámos.

Os primeiros passos dados no interior da sala fazem esquecer o cenário confuso da entrada, entre néons laranja e vista para a desarrumada arrecadação no exterior, onde Ljubomir descobriu as arcas frigoríficas. Adiante: ambiente muito menos frio do que Stanisic encontrou, decoração agradável à primeira vista e uma receção fulminante. “Boa tarde”, disse Zé Carlos, irrompendo do balcão.

Na sala havia apenas duas mesas ocupadas, às 12h45. O cenário viria a compor-se, embora longe de encher. Ao todo, foram servidos cerca de 20 clientes neste almoço de dia de semana.

Zé Carlos não desiludiu: em dois minutos chegou à mesa o couvert, uma tábua de xisto com salpicão saboroso, um pires de azeitonas saborosas e uma cesta de pão fresco, estaladiço. Nem sinal do patê de Fátima que, confessou-nos mais tarde, o chef não gostou. Em falta estava também a manteiga de chouriço que surgia na carta oficial, mas nunca chegou à mesa. “Hoje não fizemos”, explicou mais tarde a proprietária. Pela primeira amostra, a velha Casa das Francesinhas parecia ter mesmo ficado para trás.

O lifting decorativo, já sabemos, é quase sempre minimalista, seja por questões de orçamento ou de tempo. Assim, é natural que uma inspeção mais atenta revele algumas falhas: seja a pintura das paredes limitada à sala, ainda se consegue ver as paredes laranja antigas nas outras divisões; e o papel de parede a imitar azulejo que nem sempre esconde o granito das paredes. A verdade é que feitas as contas finais, está tudo muito mais acolhedor, simpático e confortável. Não é uma sala moderna, é certo, mas nunca quis sê-lo.

Quem quiser ver o interior, tem mesmo que entrar (Foto: João Sousa)

Zé Carlos agora tem companhia. Um jovem e novo empregado toma o seu posto atrás do balcão, deixando o marido de Fátima encarregue daquilo de que gosta: circular entre as mesas, levar pratos para trás e para a frente e trocar impressões com os clientes. E antes que perguntem: sim, também nos perguntou se estava tudo bem.

À mesa, levou uma carta diferente da que Ljubomir deixou. Essa ficou no balcão. Recebemos uma versão com os pratos do dia — mas ficámos sem saber se foi escrita por Zé Carlos. Se foi, bem, não havia nada a temer: a letra era perfeitamente legível. Com preços um pouco acima da média (o mais barato eram as tiras de entrecosto com grelos por 8,5€), surgiam quatro pratos e as famosas francesinhas que, ao que parece, não tiveram o mesmo destino do antigo nome da casa.

Colocámos um desafio a Zé e Fátima: o nosso fotógrafo era vegetariano e não havia, à partida, uma solução na carta. “Não há problema. Se vai pedir francesinha, temos uma com vegetais”, responde. Problema resolvido. Saem duas francesinhas, uma de vitela, outra de vegetais. Para trás ficaram pratos como arrroz de tentáculos — não sabemos se eram aqueles congelados que confundiram Ljubomir — com gambas, a vitela à Lafões e a chanfana de cabra. Saberíamos mais tarde que este último foi a solução de Fátima para a falha da produção, que não chegou a dar o contacto do fornecedor de javali, de forma a que pudesse ter a matéria-prima para confecionar o prato criado pelo chef.

A espera não foi longa — a articulação entre sala e cozinha parece estar mais afinada e tudo chegou bem quente à mesa em pouco mais de dez minutos — e deu tempo para reparar noutros pormenores. Desapareceram as toalhas coloridas e natalícias, mantiveram-se as louças cinzentas e até um pequeno aro decorativo à volta dos guardanapos de papel. Mais kitsch era quase impossível.

Uma francesinha e uma ementa em obras

A primeira impressão não foi má. Um espécime de bom tamanho, queijo bem derretido, ovo por cima e um molho vivo, forte, de cor saudável. Faltava saber se o sabor correspondia. A primeira prova foi confusa: o primeiro impacto na boca é doce, demasiado doce. Não sabíamos na altura, mas ficámos a saber depois de ver o programa: um dos clientes fez exatamente a mesma observação e confirmamos, assim, que nada mudou na receita das francesinhas. Quando falámos com Fátima sobre isso, a própria confirmou que o chef não deu qualquer feedback e não só se mantiveram na ementa, como não sofreram qualquer alteração.

Fazer francesinhas fora do Porto é sempre um trabalho inglório. Elas são sempre olhadas com suspeição pelos portuenses e foi esse o caso. Alguns dos receios confirmaram-se: o pão estava pouco torrado e demasiado grosso; faltavam os enchidos e tudo gritava por uma boa salsicha fresca; e o bife estava demasiado passado. Comestível? Sim, mas insuficiente para nos retirar do pensamento que devíamos ter optado pela vitela ou pela chanfana. Nota positiva para as batatas fritas caseiras.

Uma francesinha que não vai ficar na memória (Foto: João Sousa)

Acabamos por pedir a carta deixada pelo chef, que Fátima acusa de ser “muito grande” e de ser “difícil confecionar tudo”. Nestes primeiros dois meses de teste, a cozinheira diz que percebeu que teria que haver vítimas: iriam cair os torresmos “que ninguém procura”, trocados pela posta de vitela que “os clientes gostam muito” e “estão sempre a pedir”. Um dos pratos que ficou intacto foi o bacalhau à lagareiro.

Da carta do chef, o cordon bleu enrolado por Nélson tornou-se num êxito. “É o pedido que tem saído mais”, conta à NiT a cozinheira, que nota que a carta tem um erro: “Não é servido com arroz de míscaros, mas sim com molho de míscaros”. Outros êxitos? As bolinhas de alheira e as pataniscas, que já existiam num formato mais achatado e que agora são feitas segundo a receita de Stanisic. “Acho que ficam mais saborosas e menos gordurosas assim”.

Os doces reacionários

A revolução do chef sérvio chocou com um problema: a vontade dos clientes. E como Miminhos da Fátima se usa a máxima de que os clientes têm sempre razão, os clássicos como o arroz doce, o bolo de bolacha, o pudim e a mousse de chocolate voltaram à ribalta, com direito a uma carta só sua, que rivaliza com a idealizada por Stanisic.

“As pessoas estão muito habituadas a essas sobremesas e estavam sempre a pedi-las quando viram que não estavam na carta. Tivemos que fazer”, conta Fátima.

Não é uma cena de crime. São pêras bêbedas

Isso não significa que a influência do chef tenha sido apagada. As três opções de Stanisic mantiveram-se, com destaque para os marmelos assados com castanha em calda de vinho do Porto. “É uma sobremesa diferente das outras e muito agradável”, nota.

Acabámos por atacar as pêras bêbedas. Mais uma vez, serviço fulminante de Zé Carlos. Porém, na chegada à mesa, aconteceu uma situação inversa à da francesinha: o sabor acabou por ser mais compensador do que o aspeto. As pêras ainda não estavam no ponto de comer à colher, por isso teve de ser mesmo à facada — embora o sabor tradicional estivesse todo lá, da doçura do vinho ao travo de canela.

Miminhos q.b.

O Miminhos da Fátima ocupa um honroso lugar naquela classe de espaços tão tipicamente portugueses, ali entre a tasca e o modernaço. A transformação tornou-o num espaço acolhedor e simpático, onde as lâmpadas vintage convivem com os frigoríficos/vitrine e a louça moderna competem com o emaranhado colorido de garrafas e caixas de chá nas estantes do bar.

Sem ser um desastre, cumpre o objetivo com a atenção e serviço rápido que se pede num restaurante deste género. O preço, a rondar os 10€ a 12€ por pessoa numa refeição com pratos, é um pouco acima da média para um espaço no interior do País. E ficou a faltar uma prova mais aprofundada dos restantes pratos da carta, aqueles que Fátima gosta mesmo de fazer.

Ainda assim, a verdade é que Fátima e Zé Carlos foram uma espécie de alunos quase perfeitos de Ljubomir. Nota-se que têm vontade de aprender e de tentar fazer melhor. É evidente que o esforço está lá — isso é o mais importante. E cá por nós, não nos chateia nada que Zé Carlos continue a passar pelas mesas a perguntar se está tudo bem. Estava tudo bom, Zé.