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A mulher de João desmaiou e foi levada para o hospital por causa de Ljubomir

O Restaurante do Caipirinha, na Figueira da Foz, esteve em destaque no episódio deste domingo de "Pesadelo na Cozinha".
João não gostava da ideia de entrar no programa.

Depois do Solmar Canas, nas Caldas da Rainha, e d’O Histórico, na Marinha Grande, houve outro restaurante da zona centro do País em destaque na terceira temporada de “Pesadelo na Cozinha”, programa da TVI conduzido pelo chef Ljubomir Stanisic. O Restaurante do Caipirinha, na Figueira da Foz, foi o espaço escolhido para o episódio deste domingo, 19 de janeiro.

João, de 58 anos, é o responsável pelo negócio há quase quatro anos. É brasileiro e trabalha com a mulher, Rosalina, um dos filhos, Wesley, e uma empregada de mesa, Chris, no Restaurante do Caipirinha. 

O problema que assola todos os espaços em dificuldades é, claro, a falta de clientes — algo que, neste caso, também pode ser explicado com a sazonalidade. A Figueira da Foz é uma cidade que recebe muitos turistas durante o verão, mas está demasiado vazia no inverno, o que se torna difícil para a quantidade de restaurantes que existem por ali.

João explica à NiT que não se inscreveu para participar em “Pesadelo na Cozinha”. Conhecia o formato porque o filho (aquele que não trabalha no espaço) é um enorme fã e não perde um episódio — e João nem sequer punha a hipótese de entrar no programa, mesmo que o filho o tenha sugerido. Foi a equipa da Shine Iberia Portugal, a produtora do formato, que contactou João, tal como tinha acontecido, aliás, com o caso da Casa Azul, em Cacela Velha, no Algarve.

“Não os chamei, eles ligaram-me. Diziam que iam fazer uma reforma nisto e eu disse que não. Que iam fazer publicidade do meu restaurante, mas eu disse que não. ‘Mas por que não?’ Porque a SIC veio cá e cobravam-me dois mil euros para passar [um spot publicitário] duas vezes por dia, acho que só durante cinco dias”, conta João à NiT.

O responsável pelo Caipirinha diz que na primeira abordagem não percebeu sequer que se tratava de um programa de entretenimento da TVI — pensava que eram anúncios de publicidade que poderiam passar nos intervalos do canal.

“Eles disseram-me que faziam publicidade do restaurante, que havia pouco movimento e para ver se aumentava. Eu disse: não, não pode ser. ‘Nós fazemos de borla.’ Não acredito, só se vocês vierem cá e falarem comigo. Vieram falar comigo, perguntaram: ‘o que é que quer que mude, o que quer que melhoremos? Nós fazemos publicidade na televisão’. Se é assim, então aceito. Andaram a filmar, a falar comigo e com a minha esposa, e depois perguntaram: ‘aceita ou não?’ Aceito. Depois deram-me os papéis para assinar, assinei aquilo tudo, e só na última folha é que vi naquelas letras miúdas — que estava sem óculos — ‘Pesadelo na Cozinha’. Ouch, já estou lixado. Mas pronto, já estava, dei a minha palavra, então vai ficar.”

O espaço foi pintado de azul. Antes, era branco.

Ou seja, até assinar a última página do contrato, João não fazia a mínima ideia de que estava prestes a entrar na terceira temporada de “Pesadelo na Cozinha” — pelos vistos, ninguém avisou o cozinheiro brasileiro.

“Se me tivessem dito, tudo isto tinha ficado pelo caminho, porque eu não queria. Não queria aquilo para a minha cozinha. Somos nós que fazemos e limpamos tudo, a cozinha está à vista. Toda a gente nos pode ver a fazer tudo. Para que é que havia de querer? Mas depois já estava, e deixei continuar…”

Até ao dia em que entrevistámos João, na quarta-feira, 15 de janeiro, o responsável pelo Restaurante do Caipirinha não sabia como é que tinham chegado até ele.

“Antigamente eu tinha muito movimento, e no verão esta sala é pequena [para tanta gente]. Mas no inverno todos os restaurantes da Figueira, ou a maioria deles, são assim, é fraquito. O problema é que depois de ele [Ljubomir] vir cá ficou pior.”

As gravações — e a ida de Rosalina para o hospital

As gravações no Restaurante do Caipirinha aconteceram no início de dezembro. João diz que tudo “correu normalmente”, sem conflitos com o chef, nem grandes dramas. No entanto, vimos as várias críticas que Stanisic fez à atitude e postura do cozinheiro.

“A única coisa de que não gostei muito, e ele também não gostou, é que nós usamos congelados. Por exemplo, para fazer arroz de marisco. Porque se vais à lota para comprar marisco, aquilo só aguenta três ou quatro dias no frio, e depois o camarão fica com a cabeça preta. Não pode passar daquilo. E eu vendo arroz de marisco duas ou três vezes por semana, se compro assim vai sempre para o lixo. Ou então não vendo. As pessoas podem ir para a picanha, para um bife, para a espetada de lulas, e o marisco fica guardado, guardado e não tem hipótese. O hambúrguer costumo comprar fresco, mas nesse dia calhou, como não tinha nada e estava com pressa, comprar uma embalagem de congelados. Foi isso que estragou tudo.” Como vimos no programa, Ljubomir não gostou nada dos hambúrgueres congelados do Caipirinha. João garante que foi um dia de azar, uma situação excecional que não correu bem. 

Stanisic também criticou constantemente o tamanho da ementa, acusando-a de ser demasiado grande, a “recordista nacional”. “Disse que tinha 71 pratos, mas são 32. Ele estava a contar com as ementas inglesas e francesas e juntou tudo [risos]. Mas eu vou diminuir a ementa. Ele deu-me algumas dicas para trocar alguns pratos, só que para eu mudar preciso de dinheiro.”

Ainda assim, João garante que, quando tiver a possibilidade, vai tirar cerca de dez pratos da sua carta e introduzir duas ou três receitas deixadas por Ljubomir. “Mas as pessoas estão habituadas a comer caril de gambas, picanha, bife da vazia, espetada de lula, arroz de marisco, tudo isso sai muito sempre. As pessoas estão habituadas, por isso não se pode tirar da ementa. Há pessoas que vêm cá há três anos, se chegam aqui e não há, até podem comer outra coisa, mas depois… já não voltam.”

João diz que Stanisic não quis tirar nenhum prato em específico, simplesmente achou que era boa ideia reduzir a ementa, tal como fez em vários restaurantes que participaram no programa. O responsável pelo Caipirinha revela à NiT que vai acrescentar à carta a moqueca de peixe, e o frango no churrasco tem corrido bem. “Ele deu-me a ideia de o fazer fechado, mas eu faço-o aberto e as pessoas já se habituaram a ele daquela forma.”

João está há quase quatro anos no espaço.

Quanto à higiene, um dos tópicos obrigatórios em qualquer capítulo de “Pesadelo na Cozinha”, João garante que ninguém falou sobre isso durante as gravações, até porque estava tudo limpo. “Ele perguntou se eu tinha trocado o chão. Eu não tinha trocado o chão, nós é que o lavamos muitas vezes. Na cozinha há sítios nas redes que ficam amarelos da gordura, mas é tudo limpinho. Estava e está impecável.”

Houve um episódio complicado com Rosalina durante as filmagens, como vimos no programa, em que a ajudante de cozinha se sentiu mal. “Dou-me bem com toda a gente, não sou de sangue a correr nas veias. A minha esposa é que não, ela ficou stressada com o que ele dizia, ele estava chateado, disse que a cozinha era uma merda. É o hábito dele e ela ficou um pouco nervosa e foi parar ao hospital.”

O cozinheiro acrescenta: “Desmaiou na cozinha, o chef é que a acudiu, sentou-a na cadeira, depois esteve a massajar-lhe o pulso a ver se ela voltava e ficava bem. O chef deu-lhe água com açúcar e ela foi para o hospital, mandou levarem-na lá. Fiquei lá com ela das 19h30 até à meia-noite. Se eu não a tivesse levado, a médica disse que ela poderia ter tido um AVC, porque a tensão subiu muito. O chef estava a ralhar comigo ao pé do fogão, ela não pôde deixar saltar cá para fora — porque eu também lhe tinha pedido para não ralhar e manter a calma. Com os nervos aquilo não teve hipótese.”

O responsável pelo Caipirinha conta ainda que os palavrões e as repreensões de Stanisic não o chocaram muito. “Eu já tive gente pior, fui empregado durante 40 anos, tinha chefes no Brasil que davam pontapés nos tabuleiros, nas grades de cerveja. E eu, enquanto não me estivessem a chutar a mim, estava tudo bem. Já estava habituado.”

No entanto, Stanisic esperava reações mais fortes de João. “Ele é que ficava um pouquinho. ‘Então, João? O que é que estou a fazer aqui? Não está a valer de nada porque não me está a prestar atenção’. Eu estava a prestar atenção, sim, mas é o meu jeito, guardo só para mim.”

Ao contrário do que a sua aparente calma possa transmitir, a semana de gravações foi complicada. Quase não fizeram dinheiro, muito por culpa do facto de terem  fechado o espaço durante dois dias para as remodelações. “Tiraram-nos de cá na quarta-feira à tarde, só nos deixaram entrar na sexta-feira. Até nos pagaram o hotel, mas não pagaram a comida, tive que gastar tudo do meu bolso e sem faturar nada. Voltei praticamente sem dinheiro, de segunda a sexta-feira das gravações não vendi quase nada. E muita gente voltou para trás, viam que estavam a filmar e não queriam aparecer. Desse dia para cá é que o negócio piorou mais.”

As contas do Restaurante do Caipirinha pioraram desde as gravações

João diz que os clientes deixaram de aparecer depois da intervenção de “Pesadelo na Cozinha”. Ter participado no programa terá passado uma má imagem entre os moradores da Figueira da Foz, ainda que o episódio só tenha sido transmitido neste domingo. Segundo o dono, alguns dos clientes que tinham marcado jantares grandes de grupo, ligaram para cancelar. 

“Já passou um mês e meio desde que ele veio cá e há dias em que não há ninguém. Costumava vender 30, 25 frangos de churrasco. Hoje por acaso vendi 16. Nos outros dias… A maioria do pessoal até está curioso, quer saber, ligam-me muito: ‘Ouvi dizer que o vosso restaurante é uma merda, tudo cagado, tudo sujo’. Eu: ‘Você já veio ao meu restaurante?’ ‘Não, mas disseram-me, colocaram no Facebook’. ‘Então vem ver’. As pessoas estavam a cancelar os eventos. Falam sem saber, há muita gente à volta que também tem dor de cotovelo. Na semana passada andei terça, quarta, quinta e sexta-feira para vender um prato. E eu antes vendia 30 ao almoço e 30 ao jantar.”

A cozinha, como se vê, está realmente limpa.

O responsável pelo Caipirinha explica que a carrinha de “Pesadelo na Cozinha” estava parada à frente do restaurante, viam-se as câmaras, e os comentários começaram a circular porque “toda a gente se conhece na Figueira”.

E acrescenta: “O programa deu-me má imagem por enquanto. Agora vamos ver, depois de o programa passar, espero que dê o retorno. Se não for assim, vou ter que fechar depois de quase quatro anos. Eu fazia muitos eventos, no final do ano costumo fazer cinco ou seis, desta vez fiz um. Daqui a um mês e meio costumo fazer eventos para cento e tal pessoas das tunas, que vêm de todo o País. Espero que corra bem e que isto vá para a frente. Se melhorar, tudo bem. Se continuar como está, como é que se consegue manter uma casa deste tamanho? Só a luz são 985 euros. Com este movimento não consigo. Tenho de pagar a segurança social, a renda, os empregados, não consigo pagar tudo.”

João diz que os únicos dias em que trabalhou bem nas últimas semanas foram a 31 de dezembro e 1 de janeiro. “Porque vem toda a gente para a Figueira [da Foz] e aí a sala ficou pequena para eles. Estiveram cá umas 110 pessoas.”

Um dos principais problemas, que também tem sido criticado pelos clientes, é a iluminação da sala. O restaurante era branco e foi pintado de azul escuro, o que acabou por escurecer a sala — mesmo com mais luzes, não consegue ter luminosidade suficiente.

“O pessoal também está a reclamar porque, apesar de estarmos com as luzes todas acesas, está muito escuro. Isto tinha muita luz e agora estou a gastar o dobro. Como é que vou resolver? Agora não tenho dinheiro para isto.” Os vidros laterais também estão fumados, em preto, para não se ver para o interior.

Antes de vir para Portugal, João já trabalhava na área da restauração no Brasil

João é natural do estado do Rio de Janeiro e tem quatro filhos — os dois filhos estão em Portugal, as duas filhas no Brasil, onde João vai pelo menos uma vez por ano. Portanto, os sete netos estão divididos entre os dois países.

No Brasil trabalhou em vários espaços e fez durante muito tempo catering em eventos grandes, para 1500 ou duas mil pessoas, fossem casamentos ou bailes de finalistas. Era o gerente responsável por muitos desses eventos e tinha 150 empregados nalgumas ocasiões. Está em Portugal há praticamente 20 anos.

“Apareceu um primo meu lá a chamar um amigo dele [para ir trabalhar para Portugal]. Na altura fiquei desempregado, perguntaram se eu queria ir, eu disse que sim, eles disseram que cá me pagavam. Vim para cá com 30 reais, eram uns 4€. Se quisesse voltar para casa não tinha hipótese.”

Esteve durante 14 anos na Quinta das Rolas, em Quiaios, freguesia da Figueira da Foz. Era o cozinheiro, mas depois começou também a gerir o hotel e o centro hípico do espaço. Há quatro anos, quiserem fechar a unidade e alugá-la a outra gerência. “Encontrei este espaço aqui e pensei que ia trabalhar para mim, não ia trabalhar mais para os outros. Montei isto. Graças a Deus deu certo, já vai para quatro anos, agora vamos ver.”

O Caipirinha tem um forno a lenha para fazer pizzas.