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O que aconteceu a Trisha Meili, a corredora atacada em “Aos Olhos da Justiça”

A minissérie acompanha os cinco adolescentes injustamente acusados de violação mas não revela como está agora a mulher.
Não abandonou a corrida.

Tal como fazia pelo menos quatro vezes por semana, a 19 de abril de 1989, Patricia Meili, 28 anos, saiu para uma corrida pelo Central Park, em Nova Iorque (EUA), após um dia de trabalho em Wall Street. Acordou de um coma profundo 12 dias depois sem se lembrar de um único minuto do ataque brutal de que tinha sido vítima.

Por essa altura ela ainda não sabia mas aquele dia de abril tinha-lhe mudado a vida para sempre — e também a o destino dos cinco jovens que foram acusados injustamente de violação e tentativa de homicídio e condenados mesmo sem haver nenhuma prova de ADN que os colocasse na cena do crime.

A história real foi transformada na minissérie “Aos Olhos da Justiça” da Netflix, que revela não só a vulnerabilidade do sistema judicial como o racismo na cidade de Nova Iorque e explora o que realmente aconteceu aos adolescentes do caso conhecido como “The Central Park Five”.

Contudo, os quatro episódios não estão centrados na tragédia vivida pela primeira vítima do caso, Trisha (como costuma ser tratada) Meili. O cirurgião Bob Kurtz foi quem tratou a jovem assim que ela chegou ao hospital. Estava ao lado dela quando acordou, dias depois do ataque. “Ela abriu os olhos, olhou à sua volta, viu as flores e disse: ‘Caramba, o que é que se passa? Porque é que Frank Sinatra me enviou flores?'”, recordou o médico ao canal “ABC News” a 23 de maio de 2019.

Meili foi encontrada inconsciente entre os arbustos do Central Park. Tinha perdido 75 por cento do sangue do corpo, tinha inúmeras fraturas cranianas, hipotermia e restos de sémen nas partes íntimas. Desfigurada, só foi reconhecida graças a um anel que usava. Não vestia nada além de um top de treino.

A corredora do Central Park, como ficou conhecida, trabalhava na área financeira, no Banco Salomon Brothers. No dia do ataque, foi para casa num quarteirão de East Side, em Manhattan, às 20 horas. trocou de roupa e seguiu para fazer os exercícios de rotina.

Além de admirar a beleza do parque, Trisha gostava de ver os arranha-céus e as luzes da cidade de Nova Iorque. “Eu amava a liberdade de estar no parque e correr dava-me uma sensação de vitalidade”, disse em entrevista à “ABC News” dada também em maio deste ano.

Nessa época, a corredora sofria de distúrbios alimentares e o exercício tornou-se uma compulsão. “Definitivamente, chegou a um ponto em que isso já não era saudável. Eu precisava de correr ou de me exercitar de alguma forma todos os dias e não me importava do dia ou da hora. Só sabia que tinha de fazer isso”, contou à revista “Shape” em agosto de 2018.

Naquela noite, Trisha não terminou o treino. Há momentos em que deseja lembrar-se do que aconteceu. Se restasse algo na sua memória — que nunca recuperou —, poderia ter ajudado a evitar toda a controvérsia durante as investigações. Ainda assim, a amnésia também a salvou de um trauma emocional maior: “Como não me lembro, não tenho flashbacks ou pesadelos e, por isso, sinto-me muito abençoada”, disse.

Além da lesão cerebral, Trisha Meili também teve disfunções físicas e cognitivas. Passou sete semanas em recuperação nos cuidados intensivos e começou a perceber a gravidade de seus ferimentos quando teve dificuldade em andar. “O meu corpo estava pesado e o movimento era lento, como se eu estivesse a passar por lama ou algo assim.”

Em 1994, na maratona de Nova Iorque.

Mudou-se para o Hospital Gaylord, no estado do Connecticut (EUA), para trabalhar na sua reabilitação. Durante sete meses fez fisioterapia, terapia da fala e terapia ocupacional. Como sabiam que Trisha adorava correr, os médicos apresentaram-na à Achilles International — uma organização dedicada a ajudar pessoas com todos os tipos de deficiências a participarem em eventos regulares de corrida.

Na instituição conheceu um grupo de corredores como ela, todos com deficiências físicas e com um objetivo em comum: completar um circuito de 400 metros em redor do hospital. Três meses após o ataque, num dia quente de agosto de 1989, Meili fez o percurso ao lado do seu fisioterapeuta e mais cinco membros da Achilles International.

Quando cruzou a linha da meta, foi inundada por uma sensação de realização esmagadora. “Pela primeira vez desde o ataque, senti uma onda de esperança e foi muito divertido. (…) Isto deu-me a sensação de que eu não estava sozinha, que não fiz nada de errado e não fui culpada pelo que tinha acontecido comigo. Naquele momento, deixei de ser vítima e tornei-me uma sobrevivente.”

Cinco anos depois, em 1994, Trisha Meili caminhou ao longo do percurso da Maratona de Nova Iorque e no ano seguinte conseguiu correr todo o trajeto. Em 2003, decidiu revelar a sua identidade e lançou o livro “I Am the Central Park Jogger: a Story of Hope and Possibility” (“Eu sou a corredora de Central Park: uma história de esperança e sobrevivência”) com a pretensão de incentivar os sobreviventes a aceitarem que não são culpados deste tipo de agressões.

Lançou o livro “I Am the Central Park Jogger: A Story of Hope and Possibility”.

Apesar de todo drama pessoal, Trisha é agora casada e mora nos subúrbios do Connecticut (EUA), onde colabora com uma organização sem fins lucrativos. Tornou-se oradora e trabalha para o concelho de Gaylord, onde foi tratada. É lá que motiva e ajuda a fortalecer os sobreviventes de agressões sexuais.

Já os cinco jovens responsabilizados pelo ataque foram divididos em dois julgamentos. Salaam, McCray e Santana foram acusados de violação e de agressão; Richardson de tentativa de assassinato, violação e roubo; e Wise foi condenado por agressão, abuso sexual e desordem. Enquanto quatro deles ficaram encarcerados durante sete anos, Wise recebeu uma pena de adulto, já que na altura tinha 16 anos.

Só em 2002 é que o verdadeiro culpado, um violador em série, confessou que tinha sido ele o culpado pelo ataque a Trisha Meili. Um simples teste de ADN comprovou-o e ilibou os cinco jovens (agora já adultos). A cidade de Nova Iorque foi obrigada a indemnizá-los.

Desde que estreou, a 31 de maio, que a minissérie “Aos Olhos da Justiça” tem sido um fenómeno na Netflix — e Portugal não é exceção. O que também está disponível na plataforma de streaming — e que pode ser uma boa sugestão para todos os que gostaram da série, mesmo que seja revoltante e angustiante — é a entrevista que Oprah Winfrey fez aos condenados, ao elenco, a elementos da produção e a Ava DuVernay, realizadora do projeto. 

Chama-se “Oprah Winfrey Presents: When They See Us Now” e é um conteúdo de uma hora. Descubra quais são os momentos mais impressionantes da entrevista no artigo da NiT.