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Teatro e exposições

Último live de “Como é que o Bicho Mexe”: Coliseu, rabos e 170 mil espectadores

Albano Jerónimo despiu-se nas ruas de Lisboa, Ronaldo apareceu de surpresa e Bruno Nogueira despediu-se a cantar.
Está a preparar uma segunda temporada.

O último live de “Como é que o Bicho Mexe” começou com o rapper Dillaz a tocar uns acordes numa rua algures em Cascais esta sexta-feira, 15 de maio. Depois de passar dois meses a fazer emissões em direto a partir de casa no seu Instagram, Bruno Nogueira estava pronto para se despedir da melhor maneira dos milhares de portugueses que se juntaram para assistir ao programa todas as noites por volta das 23 horas.

O humorista, que tinha apelado aos seguidores para que pusessem luzes de Natal às janelas como uma espécie de comunhão pelo último episódio, entrou no carro com um Nuno Markl de máscara e ao volante para visitarem as casas iluminadas — mas nada faria prever o desfecho épico da noite.

Rapidamente encontraram centenas de janelas com luzes coloridas a piscar, de onde os habitantes saíam a acenar assim que percebiam que Bruno Nogueira lhes tinha ido fazer uma visita. Entre muitos berros e festa, a palavra “obrigado” foi a que mais vezes repetiram. Nos primeiros minutos do último episódio, “Como é que o Bicho Mexe” já ultrapassava os 100 mil espetadores.

Na Marginal, por onde seguiram caminho, encontraram vários fãs que, entretanto, esperavam no passeio para lhes acenar, e os carros que passavam por eles a buzinar multiplicaram-se para criar uma espécie de cortejo que os seguia para todo o lado. “Não posso desabar agora”, disse Bruno Nogueira, enquanto tentava não chorar. Parecia, como disse Salvador Martinha o “autocarro da seleção”. Pelo caminho, uma das surpresas da noite aconteceu quando Cristiano Ronaldo se juntou ao live para desejar boa sorte a um Bruno Nogueira já completamente chocado com o desenrolar da noite — e as audiências ultrapassaram nesta altura os 150 mil.

Jessica Athayde no típico quarto de luzes apagadas, Mariana Cabral e o andaime natalício, Nuno Lopes emocionado, Beatriz Gosta a dançar numa rotunda, Inês Aires Pereira vestida de Mãe Natal e João Quadros, que decidiu enfeitar o pénis com fitas de Natal, foram alguns dos amigos a quem ligou ao longo do percurso. Quando chegou a vez de Albano Jerónimo, o ator explicou que tinha prometido que, quando atingissem os 100 mil espetadores, mostrava o rabo em direto. E antes que Bruno tivesse tempo de reagir, o ator despiu-se no meio das ruas de Lisboa enquanto gritava algo completamente incompreensível.

João Manzarra e Ljubomir Stanisic, com máscaras de cavalo e de tronco nu, encenaram um momento íntimo num sofá. Nesta altura, o humorista já pouco dizia. “Desculpem não estar a falar tanto, estou a fazer o meu melhor”, repetia ao som das buzinadelas e aplausos que encontrava pelo caminho. Num semáforo, um condutor de mota perguntou-lhe pela janela se ele se lembrava de ter perdido os documentos todos há 15 anos e explicou: “Fui eu que os encontrei e fui entregar à polícia”.

O cenário completamente surreal continuou pelas ruas de Lisboa. O humorista foi acompanhado por uma procissão cada vez maior, que chegou a provocar caos no trânsito da A5, e cruzou-se com pessoas ajoelhadas no meio das ruas em homenagem ao programa, outros com luzes de Natal na cabeça, dezenas de janelas enfeitadas com gente à sua espera e a palavra “obrigado” repetida vezes sem conta. No meio da emoção, Nuno Markl afirmou que este era um dos melhores dias da sua vida: no “top três”, ao lado do nascimento do filho e do momento em que perdera a virgindade.

Em plena Avenida da Liberdade, uma carrinha do INEM apitou-lhes. Pelo megafone de segurança, saíram as palavras “és o maior, Bruno”. Cal Lockwood, o locutor da pequena estação de rádio no Polo Norte, também apareceu no Instagram para agradecer ao programa, com uma bandeira portuguesa pendurada na parede e luzes natalícias. Depois, juntaram-se o jogador de futebol Bruno Fernandes e Vhils, que protagonizou um dos momentos mais emocionantes da “série” no 25 de Abril. Mas já vamos a isso.

A viagem terminou no Coliseu de Lisboa e Bruno Nogueira, claramente preocupado com as enchentes de fãs em loucura que se poderiam juntar à porta, pediu a quem o seguia para se manter afastado. “Mantenham-se em segurança”, repetiu. Na casa de banho da sala de espetáculos, Salvador Sobral esperava o humorista para um concerto surpresa e, à saída, Nelson Évora ensaiou o aquecimento para um triplo salto no meio do corredor.

O humorista passou então por uma audiência completamente vazia da sala de espetáculos enquanto se dirigiu até ao palco, uma visão arrepiante ao som de “Silent Night”, que Filipe Melo, o “Pipão” que terminava todos os lives ao piano, tocou sozinho. Não havia ninguém na plateia, mas estavam 170 mil pessoas a ver a final de “Como é que o Bicho Mexe” no Coliseu. Dos bastidores, saíram todos aqueles que o acompanharam ao longo dos dois meses — e a quem ligou pelo caminho. Bruno pediu-lhes para se sentarem no chão enquanto cantava “Vendaval”, de Tony de Matos, a atuação especial que preparou para os seguidores. “Não gosto de despedidas”, disse no fim. Sem mais demoras, desligou a emissão com um “até já”.

Os melhores momentos

Ao longo destes dois meses, foram muitos os momentos marcantes de “Como é que o Bicho Mexe”. Talvez o maior de todos tenha sido aquele em que o artista português Alexandre Farto, mais conhecido por Vhils, esculpiu Zeca Afonso numa parede, ao som de “Grândola, Vila Morena”, emocionando Bruno Nogueira e milhares de pessoas que assistiam em direto em véspera de 25 de Abril.

Na mesma noite, o ator Nuno Lopes cantou “E Depois do Adeus”, o original de Paulo de Carvalho e uma das senhas da revolução de 1974, dedicado aos seus pais, a quem agradeceu por terem “ficado do lado certo da história”.

Aos 91 anos, Eunice Muñoz foi a convidada mais velha — e, possivelmente, mais chocante — a juntar-se aos lives. Foi depois do humorista ter elogiado uma atuação da atriz no Teatro Nacional que esta começou a enviar comentários para o direto: “Estou a tentar ligar-te e não me ligas nenhuma”, escreveu. Não faltou muito para que Bruno Nogueira se apercebesse da situação e a juntasse ao programa, entre risos e uma expressão, no mínimo, surpreendida.

João Manzarra, um convidado habitual dos lives, protagonizou outro momento viral quando apareceu a 21 de abril com o cabelo todo rapado, menos num tufo em linha reta a fazer uma espécie de continuação das patilhas, mas por cima da cabeça — era um Santo António dos tempos modernos. Mas este desvario do apresentador foi desmistificado pouco tempo depois, quando revelou nas redes sociais o processo de maquilhagem profissional que o tornou possível. Afinal, Manzarra não tinha cortado o cabelo.

A pianista Maria João Pires juntou-se também aos lives, uma das convidadas mais improváveis de todas as emissões, apesar de Bruno Nogueira ter cedo provado que o inesperado seria a norma deste programa. Ao piano, a artista tocou “Claire de Lune” para mais de 53 mil pessoas e João Quadros comentou que “assim se faz história”.

A popularidade dos lives atraiu a atenção de muitas marcas e patrocínios, mas o humorista confessou não se sentir confortável em “lucrar” à custa da situação triste e particular que lançou o programa. Em alternativa, decidiu usar o espaço para ajudar causas solidárias. Entre as várias que apoiou, bateu recordes com os 11 mil euros conseguidos para a CASA – Centro de Apoio ao Sem Abrigo, durante um live no final de abril.

Além das incríveis atuações de karaoke com luzes psicadélicas, Nuno Markl foi responsável por mudar a vida — ou pelo menos a quarentena — do locutor de uma pequena rádio no Polo Norte. Durante um live, o radialista pediu a todos aqueles que estavam a acompanhar e emissão para seguirem a Alô Arctic Outpost e o seu locutor, Cal Lockwood, nas redes sociais. O fluxo súbito de ouvintes portugueses foi tanto que o servidor caiu e o sistema teve de ser reforçado. A pequena estação no Ártico ganhou 40 mil seguidores em apenas um dia.

Foi um belo programa. Até já, Bruno Nogueira.