NiTfm live

Teatro e exposições

Mariana Monteiro: “A televisão pode ser um rótulo, pode dar uma ideia errada”

A atriz é uma das protagonistas na versão de “Romeu e Julieta” de John Romão, que estreia esta sexta-feira em Lisboa.
A atriz de 31 anos quer apostar no teatro e cinema.

Mariana Monteiro e João Cachola estão parados e inclinados — suspensos nalgum tipo de dispositivo que está coberto pelos respetivos figurinos. Dali não saem até ao fim da peça, que se prolonga durante 1h30. O texto é o clássico de “Romeu e Julieta”, mas esse é o elemento do espetáculo mais próximo da base original, criada por William Shakespeare.

Esta encenação e versão alternativa do português John Romão — que estreia esta sexta-feira, 14 de fevereiro, na sala principal do Teatro D. Maria II, em Lisboa — usa os efeitos de luz e outras manobras de palco para tornar as cenas mais dinâmicas, embora os atores estejam permanentemente imóveis.

A peça fica em cena até 1 de março, às quarta-feiras e sábados, às 19 horas, às quintas e sextas-feiras, pelas 21 horas, ou aos domingos, a partir das 16 horas. Os bilhetes estão à venda entre os 9€ e os 16€. E o elenco inclui ainda João Arrais, João Jesus, Mariana Tengner Barros, Matamba Joaquim, Rui Paixão ou Rodrigo Tomás, entre outros.

Mariana Monteiro começou a carreira, como tantos outros atores famosos em Portugal, na escola que foi “Morangos com Açúcar”, série juvenil da TVI. Era uma das protagonistas da terceira temporada, em 2005, onde interpretava Bia.

Desde então tem feito um percurso sobretudo ligado às novelas ou a projetos televisivos, tanto na TVI como na RTP e, mais recentemente, na SIC. Atualmente é a protagonista de “Terra Brava” — projeto que tem sido particularmente difícil de conciliar com esta peça de teatro.

Entre ensaios e entrevistas, Mariana Monteiro falou com a NiT sobre como tem sido (e vai ser) interpretar Julieta nesta versão alternativa em teatro, além de outros temas.

Mariana, como surgiu a oportunidade para fazer esta peça?
Surgiu com um telefonema do John Romão, a fazer-me o convite. Fiquei em êxtase, fiquei mesmo muito contente. Emocionada até, quando desliguei a chamada, porque ambicionava há muito tempo o teatro: ter uma oportunidade que artisticamente correspondesse àquilo que eu desejava. Já conheço o trabalho do John há bastantes anos e portanto é uma pessoa que admiro e sabia que tinha uma mais-valia em poder trabalhar com ele. Foi logo um “sim” redondo, ainda que eu lhe tivesse dito: se eu fosse mentalmente sã dizia-te que não, porque estou a trabalhar 12 horas por dia numa novela — a qual protagonizo — mas como não sou mentalmente sã vou dizer que sim porque não vou perder esta oportunidade. Fui buscar forças e vitaminas para conseguir conciliar os dois projetos.

O que pensou desta versão de “Romeu e Julieta”?
O John disse-me que queria trazer para o D. Maria o “Romeu e Julieta” numa versão própria e que onde ele iria falar bastante sobre velocidade e transgressão. Todo o processo assentaria nestes dois pilares. 

Os atores ficam nesta posição, imóveis, até ao final da peça.

Quase toda a gente conhece esta história.
Quanto mais não seja, sabem que é um amor proibido e que vão morrer no final [risos].

Neste caso, se tivesse que descrever a peça para pessoas que não sabem o que esperar — mesmo conhecendo a história original — o que lhes diria?
Eu acho que a própria peça é essa transgressão. Ou seja, não corresponde àquilo que se espera. Não há varanda, não há sequer pais nem para o Romeu nem para a Julieta — essas personagens não existem nesta versão. Portanto eu diria que vão ver uma adaptação de “Romeu e Julieta” veloz, transgressora, e consegue haver aqui um cruzamento com a modernidade. Nos dias de hoje é tudo muito rápido, mas ao mesmo tempo parece que não estamos em lugar nenhum. Porque nos comunicamos através de uma série de redes, a tecnologia ajuda-nos muito, mas ao mesmo tempo não temos conversas cara a cara, olho no olho. Estamos a correr de um lado para outro e na verdade não estamos em lugar nenhum. Aqui também: estamos muitas vezes em lugar nenhum. Estamos com um dispositivo onde temos uma suspensão, entre o céu e a Terra, não estamos de facto a habitar nem um nem o outro, é uma peça disruptiva. Estamos a correr para o amor ao mesmo tempo que estamos a correr para a morte, sendo que a morte não é vista como a tragédia, mas como lugar, uma segunda opção. Se não der para viver como queremos, preferimos a morte. Não é a pior opção. A pior opção é viver aprisionada, numa forma que não quero: casar com o Páris, ser mãe. Não quero nada disso que me estão a impor, então prefiro morrer.

Pessoalmente, qual tem sido o grande desafio em fazer esta peça?
Há vários, mas claro que a questão da imobilidade será o maior de todos. Claro que nos ensaios fomos criando uma série de coisas que ficam registadas no corpo, e só por isso é que conseguimos chegar à imobilidade. Mas não deixa de ser muito mais difícil trazer toda a interioridade da personagem.