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Teatro e exposições

Fomos a Barcelona assistir ao novo e brilhante stand-up de Ricky Gervais

O britânico está a realizar uma tour europeia com piadas ainda mais agressivas do que o normal. Mas igualmente hilariantes.
O espetáculo estava esgotado.

Eram 19h30 em ponto, hora indicada no bilhete, quando se ouve a voz de Ricky Gervais no Auditori Fórum, em Barcelona, Espanha, no último sábado, 15 de fevereiro. A pontualidade britânica contrastou com uma sala ainda por metade. Entra em palco Sean McLoughlin. “Adoro ver a reação do público. Ouve-se a voz do Ricky e depois entra um gajo que ninguém conhece”, diz assim que entra.

Estamos a seis semanas do tão falado monólogo de abertura da cerimónia dos Globos de Ouro, em Los Angeles, nos EUA, apresentada por Ricky Gervais, o que não deve facilitar a tarefa na abertura desta noite. Porém, McLoughlin, comediante britânico, foi também brilhante, com uma atuação sólida, que arrancou várias gargalhadas a um público ansioso pela estrela da noite.

A multidão ainda ia entrando, e a língua que mais se ouve, na sala com capacidade para 3084 pessoas, é o inglês. Após meia hora de atuação, Sean McLoughlin despede-se da plateia.

A sala está finalmente cheia, numa noite esgotada há vários meses. As luzes apagam-se. “Good evening fuckers.” O público irrompe em aplausos e gritos, enquanto Ricky Gervais — T-shirt preta, jeans e sapatilhas negras, como habitual — entra em cena. Ricky é como aquele amigo do grupo que tem mais piada.

Ao escrever este texto, tento lembrar-me de como o conheci e me tornei fã. Não sei. Sinto que faz parte da minha vida há muitos anos e ao vê-lo, finalmente, com apenas oito filas de cadeiras entre nós, sinto uma normalidade bizarra.

Durante quase uma hora e meia — uma ótima duração mas que, ao mesmo tempo, dá a sensação de ter passado a correr —, o humor, sempre negro e bem ao estilo britânico, fez-me praticamente chorar a rir do início ao fim.

Gervais tanto faz rir com cada bit, como quando se desmancha e rimos todos juntos (sim, ele com a sua característica gargalhada histérica). É ingrato para quem escreve, ou até fala, sobre stand-up. As piadas perdem-se nas letras e nunca chega da forma que as recebemos ao vivo.

Contudo, neste espetáculo “SuperNature” o grande tema foi a sua falta de crença no sobrenatural, e o seu ateísmo. Para quem conhece o seu trabalho, digo-vos: houve imitações hilariantes de Deus e a criação do mundo, a explicação do aparecimento da SIDA (com imitações do próprio vírus), pequenos apontamentos sobre o quão rico Ricky é, referências a Jane (a sua namorada) e à sua família (claro que o irmão Bob tinha de ser falado), e a expressão “that’s mental” dezenas de vezes.

Entre goles de cerveja, no seu púlpito, falou-se de viagens ao tempo (“toda a gente diz que se pudesse voltar atrás no tempo mataria o Hitler, eu não mudaria nada porque o efeito borboleta ia fazer com que não tivesse esta vida fantástica”), vidas passadas (“fui a uma festa de pessoas que se mascaram do que eram nas suas vidas passadas, havia dois Napoleões”), gatos e a forma como se reproduzem, e o que é a ironia (“vou-vos explicar como é que isto funciona, o que eu digo não é realmente o que eu sinto, muito pelo contrário, a isso chama-se ironia”).

Assim como a tour anterior, “Humanity”, Gervais revelou que “SuperNature” será gravado para depois estrear na plataforma de streaming da Netflix. Ao longo de todo o set, são inúmeras as piadas que terminam com um “não, isto definitivamente não pode ir para a Netflix”. Escusado será dizer que essas são as melhores.

O homem responsável por séries como “The Office”, “Derek”, “Extras”, “Life’s Too Short” ou a mais recente “After Life”, é um génio do humor e, como todos os génios, faz-nos pensar, refletir, admirar a sua obra e, neste caso, o melhor da vida: rir.