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Decore este nome: Ladeira — é o ilustrador mais excitante da nova geração

O finalista do concurso New Talent quis ser detetive, taxista e jogador de futsal. Felizmente, tornou-se artista.
Cresceu numa aldeia do distrito de Coimbra.

Tinha apenas três anos quando saiu do Porto para ir viver para Vale de Açor, uma aldeia do distrito de Coimbra. Como é filho único e não havia sequer muitas crianças da sua idade, acabava por brincar sozinho, entre pinhais e cascatas. Se bem que sozinho não é a palavra certa. É que Ricardo Ladeira — ou apenas Ladeira, como é conhecido — imaginava personagens e criava histórias surpreendentes. Fazia isso tão bem que acabou por se tornar na sua profissão.  

“Sentia muita necessidade de recriar as coisas em que pensava e fazia isso no desenho, Inventava personagens e histórias, mas também fazia as minhas versões em desenho de nomes conhecidos de bandas desenhadas, nomeadamente da Marvel, como o Homem-Aranha e o Batman. Fui crescendo e gostando também de banda desenhada de autor”, conta à NiT o agora ilustrador e artista plástico que é um dos dez finalistas do projeto New Talent — que resulta de uma parceria entre a NiT, a Santa Casa da Misericórdia de Lisboa e a TVI e que pretende encontrar o maior jovem talento português. O vencedor, por votação do público, irá receber uma bolsa especial no valor de 10 mil euros.

Embora o desenho e o “brincar ao faz de conta” tenham sido uma constante na sua vida, nunca pensou que isso se tornasse no seu trabalho a tempo inteiro. Na verdade, queria ser detetive, uma vez que adorava descobrir mistérios. Mais tarde, quando começou a inventar histórias de filmes e dar entrevistas a falar sobre as suas obras, achou que seria realizador. Qualquer que fosse a futura profissão, ela estaria sempre ligada à criatividade.

Excepto daquela vez que quis ser taxista. “Como estávamos numa aldeia, embora houvesse outras opções, a deslocação para a cidade era quase sempre de táxi e era quase sempre o Sr. Américo a levar-nos. Ele contava tantas histórias que me fascinei e só queria fazer o mesmo”, recorda o jovem de 27 anos.

Quando tinha nove ou dez anos, os interesses mudaram. Ricardo Ladeira começou a jogar futsal no Centro Norton de Matos, em Coimbra. A última equipa em que esteve foi a Associação Académica de Coimbra, entre os 15 e os 18 anos. Na altura, só pensava na modalidade e o desenho passou para segundo plano.

“Via o desenho apenas como um hobbie, o que eu queria era mesmo ser jogador. Por isso, parei de desenhar em casa, mas na escola não fazia outra coisa, fosse nos cadernos ou nos livros.”

Apesar de querer seguir desporto, quando entrou no ensino secundário decidiu entrar em artes, com o objetivo de fugir à matemática. Este foi um ponto de viragem. Depois de algumas aulas de desenho e multimédia, rapidamente percebeu que era aquilo que queria fazer para o resto da sua vida. Não sabia exatamente o quê, mas tinha de estar relacionado com aquela área. Entretanto, largou o futsal.

Seguiu-se o ensino superior, em que decidiu seguir um curso mais geral: uma licenciatura em Arte e Design, na Escola Superior de Educação de Coimbra. Não foi preciso muito tempo para perceber que o seu o foco era mesmo o desenho/ilustração. Recorda que os professores já notavam que ele tinha um estilo próprio, uma vez que incluía os seus personagens em todos os trabalhos, mesmo naqueles em que não era suposto — e funcionava.

Embora ninguém na sua família tenha ligação ao mundo da arte (o pai desenha bem mas é funcionário público, e a mãe tem a fotografia como hobbie mas é empregada de limpeza), sempre apoiaram os seus sonhos.  

“Se quisesse ser médico era médico, se fosse motorista era motorista. Eles sempre tiveram sensibilidade para as artes. Davam-me livros, levavam-me ao cinema, incentivavam-me a ir a museus e galerias e a seguir aquilo que quero e gosto de fazer”, diz Ladeira.

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O primeiro grande momento na sua carreira foi quando ganhou o Prémio da Literatura Infantil do Pingo Doce, em 2016. O concurso tinha duas fases: texto e ilustração. Madalena Costa venceu a primeira e Ricardo a segunda.

“Tinha concorrido em 2014 e não ganhei. Confesso que fiquei um bocado desiludido. No início, ficava sempre frustrado. No segundo ano não concorri porque pensei que não precisava daquilo para nada. Mas no terceiro decidi voltar a fazê-lo, mesmo em forma de treino. Até enviei as ilustrações a preto e branco para ser diferente. Mas foi mesmo na desportiva. Acabei por ganhar. O livro chama-se ‘O Meu Livro Tem Bicho’.”

Ladeira trabalha numa empresa há cerca de um ano como ilustrador, mas continua a ser freelancer para outros sítios. O seu objetivo é continuar a ilustrar livros e fazer uma curta-metragem. Aliás, esse é o seu maior sonho e, se correr bem, criar uma carreira como realizador.

“O cinema de animação é uma grande inspiração para mim e faz todo o sentido mergulhar nesse mundo. O prémio New Talent pode ajudar nisto e de que maneira. Também gostava que num dos próximos livros que lançasse fosse eu a editar e produzir sozinho. No fundo, que fosse algo mesmo com a minha visão.”

Mesmo que Ricardo não tivesse ido para aquela aldeia aos três anos, tem a sensação de que iria acabar no mesmo sítio. O caminho podia ser diferente, sim, mas a meta seria esta.