NiTfm live

Teatro e exposições

Bordalo II: “Não quero ser uma fábrica de coisas que sei que as pessoas gostam”

A NiT entrevistou o artista português no seu atelier em Xabregas, Lisboa.
O artista português está preparar dez peças para a Noruega.

Quando está em Lisboa, é fácil encontrar Bordalo II — um dos artistas visuais portugueses com mais projeção internacional. O seu habitat natural é o atelier que tem na zona de Xabregas, que em 2017 foi visitado por mais de 27 mil pessoas num único mês, quando recebeu a exposição “Attero”.

Esse foi um dos maiores momentos de viragem no percurso de Artur Bordalo, nascido em 1987, que se tornou bastante popular depois dessa mostra. As suas peças são inconfundíveis. Apesar de ter vários tipos de obras, os animais construídos com lixo colorido são a sua principal imagem de marca.

Uma das instalações mais recentes é um enorme lince ibérico que está no Parque das Nações, também em Lisboa. Demorou entre duas a três semanas a ser construído e serviu para assinalar a conferência Lisboa+21, que juntou ministros da juventude para debater vários assuntos — sobretudo ligados ao ambiente. 

Este é o grande tema na obra de Bordalo II — a proteção da natureza, a preservação das espécies, o ambiente e os problemas causados pela sociedade moderna. O artista diz que são exatamente as notícias sobre essa temática que o inspiram a produzir novos trabalhos.

O seu calendário, porém, está muito cheio. Tem diversos trabalhos encomendados para o estrangeiro e este ano já fez a exposição “Accord de Paris”, precisamente em Paris, a capital francesa.

“Trabalhamos sempre com um calendário que parece impossível mas, quando é sob pressão, consegue-se arranjar algumas soluções que de outra forma talvez não surgissem”, explica Bordalo II à NiT.

Está naquele atelier há cerca de três ou quatro anos, com uma equipa fixa de oito pessoas, sendo que de vez em quando contratam freelancers para ajudarem em projetos maiores. Aquele estúdio — cheio de pó, tinta, lixo que será usado como material, ferramentas e até alguns ratos — é a sua segunda casa.

Este macaco está numa das zonas exteriores do atelier.

Há vários animais semi construídos espalhados pelos cantos e a equipa trabalha como se estivesse na linha de montagem de uma fábrica — neste caso, o produto é arte. Há uma música de fundo a tocar mas ouve-se pouco porque um dos trabalhadores está a soldar uma parte de uma peça. Bordalo II é o maestro desta orquestra e está embrenhado nos pormenores de uma pintura.

O português acredita que a arte urbana — ou pública, como prefere chamar-lhe — está num bom momento porque as novas gerações cresceram a ver imensa publicidade, design e graffiti nas ruas.

“Têm um contacto maior com o que é exposto no espaço público. Essas obras são vistas por muito mais gente do que aquelas que estão nos museus, o que significa que há uma responsabilidade acrescida de quem a faz. Interessa fazer uma coisa que não é só bonita nem superficial, aproveitar esse playground para se tocar em problemas da atualidade e tocar em assuntos relevantes que possam mexer com as pessoas.” É este o manifesto de Bordalo II, artista de cabelo empoeirado e mãos com tinta. Leia a entrevista da NiT.

Estamos num atelier em que estão a ser construídas várias peças em simultâneo. O que estão a preparar agora?
Boa questão, estamos a preparar tanta coisa ao mesmo tempo. Estamos neste momento a fazer uma peça da série dos plásticos, só com vegetação, que é uma obra grande — tem cerca de um metro e meio de altura por 12 metros de largura. É uma das séries em que já costumo trabalhar, mas com elementos vegetalistas, que é um bocadinho diferente. E estamos a preparar estruturas para fazer dez cabeças de bichos. São dez esculturas com cerca de dois metros de altura, que vão ser um misto das várias séries de trabalho que tenho feito até agora.

Alguma delas é para uma exposição?
Nada disto é para uma exposição, mas são peças que vão ficar à vista do público durante muito tempo. As cabeças vão para vários centros de reciclagem na Noruega, a outra peça vai ficar em Lisboa.

Ainda não está a pensar fazer uma nova exposição em Portugal, depois do enorme sucesso de “Attero”, em 2017?
Já pensei bastante nisso, ainda não tive tempo de pôr em prática. Mas, sim, está pensado e mais ou menos agendado — não é para já, mas o tempo passa a correr. Daqui a um ano e tal, talvez. 

Como foi a experiência de expor em Paris?
Foi interessante, é sempre bom explorar um público novo. Todas as culturas são um bocadinho diferentes umas das outras e acho que é super enriquecedor podermos dar o nosso contributo a pessoas que são diferentes de nós — e ao mesmo tempo aprender com elas. Tudo o que seja racismo, discriminação e xenofobia é estúpido, porque numa sociedade global temos muito mais a aprender uns com os outros do que a fecharmo-nos dentro de um muro que vai acabar por ser a nossa própria prisão. Uma das partes mais importantes para mim nisto foi o facto de o público durante as manhãs ter sido muito novo — as manhãs foram guardadas apenas para escolas, sendo que para mim essa parte pedagógica do meu trabalho é muito importante. É o meu contributo para que a próxima sociedade seja melhor do que a atual.