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Teatro e exposições

As imagens incríveis da Indonésia captadas por um grupo de voluntários portugueses

Fazem parte de uma exposição que irá estar em Alvalade — e que serve para angariar fundos para uma missão humanitária.
Os miúdos são felizes apesar de viverem nos destroços.

Aos 23 anos, a lisboeta Rita Xavier já tinha estado três vezes de férias na Indonésia, em destinos famosos como Bali. Além dos seus pertences, levava sempre uma mala extra com roupas usadas e brinquedos antigos dos irmãos para dar aos miúdos locais.

Rita, que fez dois anos da licenciatura de Marketing e Publicidade no IADE, estava em Bali em agosto de 2018, quando a ilha de Lombok foi atingida por três grandes sismos (entre 6,4 e 7 na escala de Richter). Morreram mais de 550 pessoas e mais de mil ficaram feridas. Cerca de 415 mil tiveram de ser deslocadas das suas casas — até porque muitas habitações tinham ficado completamente destruídas.

Na ilha paradisíaca de Bali, Rita Xavier sentiu o sismo de forma ligeira e não se apercebeu logo dos estragos. Quando descobriu realmente a extensão da tragédia, ficou sensibilizada e começou a acompanhar a situação, mesmo quando regressou a Lisboa.

Queria ajudar aquelas crianças — que, segundo ela, acabam por ficar para trás nas prioridades de apoio — ao dar-lhes brinquedos mas, como não são bens de primeira necessidade, ficou para trás na lista de projetos que conseguiam chegar a Lombok nos primeiros tempos.

Foi finalmente em dezembro que Rita se juntou a mais seis amigos, entre os 23 e 26 anos, para irem até à Indonésia. Carolina Figueiredo, Patrícia Paralta, Mafalda Matos, Manuel Rocheta, Gonçalo Cunha e Sá e Manuel Geada compraram bilhetes de avião num total de 7400€ e partiram. Foi a primeira missão humanitária do projeto Mainan Dreams.

Ao mesmo tempo que eles chegavam ao país asiático — a maior nação muçulmana do mundo —, ia a caminho um carregamento de seis mil brinquedos portugueses, doados por escolas e particulares de todo o País. Era uma parceria com uma transportadora chamada Speedy Cargo, que ofereceu o envio. Ficaram todos retidos na alfândega local.

“Infelizmente, o governo indonésio foi corrupto o suficiente para nos tentar travar e pediu-nos 35 mil dólares americanos [o equivalente a 31 mil euros] para desalfandegar os brinquedos”, conta Rita Xavier à NiT. “Nós, sem capacidade nem vontade de pagar esse dinheiro, decidimos bater o pé e lutar contra eles de frente, pois num país que de tanta ajuda precisa, a ganância e a corrupção prejudicam milhares.”

Rita Xavier está de T-shirt preta, à direita da imagem.

Tentaram encontrar forma de resolver o problema mas não foi fácil. Tiveram o apoio da Embaixada Portuguesa e da Embaixada da Indonésia em Portugal, mas o governo continuava a pedir-lhes mais e mais autorizações — e o valor de ter aquela carga na alfândega ia subindo.

“Estavam a empatar-nos com burocracias”, diz Rita Xavier, que não tem dúvidas. “Tivemos de desistir. Eles disseram-nos que todos os brinquedos tinham sido destruídos, mas não acredito. Penso que os tenham vendido ou dado aos chefes de cada vila como suborno.”

Apesar de não terem jogos ou bonecas, Rita Xavier e os amigos cumpriram o programa de voluntariado. Estiveram três semanas na Indonésia, a visitar oito vilas (e um orfanato) naquela zona afetada. Alugaram uma casa e todos os dias conduziam cerca de duas horas para cada local. Lá, muitas vezes acompanhados por um guia, encontravam-se com as crianças e jogavam futebol, macaquinho do chinês, o lencinho na mão ou simplesmente cantavam com eles.

“O terramoto tinha sido há quatro meses, mas parecia que tinha sido há dois dias. Havia imensos destroços por todo o lado. As pessoas tinham falta de água e de comida. Estava imenso calor e de repente chovia imenso. Muitos miúdos brincavam nos destroços dos seus antigos quartos e casas”, descreve Rita.

E acrescenta: “Os hospitais eram tendas, havia oito pessoas a dormir por colchão, as crianças estudavam na rua. Era um cenário duro e ao início foi complicado. Uma pessoa que está de férias em Bali não tem ideia daquela Indonésia, a Indonésia real. Mas aquelas pessoas ensinaram-nos muito: apesar de tudo, elas eram super esperançosas e estavam felizes.”

Entretanto, vários membros do grupo tiveram de voltar para Portugal. Rita Xavier e Manuel Geada ficaram mais uns dias. Este último fez uma reportagem fotográfica de toda aquela realidade, que pode agora ser conhecida numa exposição, intitulada “Pulau”.

Vai poder ser visitada em Lisboa entre 15 e 17 de março na Sublime Warehouse, uma loja de roupa sustentável em Alvalade. A entrada é livre. Na exposição estão mais de 200 fotografias de Manuel Geada — todas elas estão à venda entre 30€ e 200€, consoante o tamanho. As receitas revertem inteiramente para o projeto Mainan Dreams, para apoiar o custo que esta viagem teve — do alojamento aos voos, passando pela alimentação.

Houve ainda vários artistas que se juntaram à causa e que fizeram trabalhos inspirados nas imagens de Manuel Geada — que também estarão à venda na Sublime Warehouse. A própria marca de roupa vai contribuir com 10% de cada venda das suas peças.

O próximo passo para o projeto é um regresso à Indonésia — e também é para isso que serve esta angariação de fundos com a exposição “Pulau”. “Queremos voltar para reconstruir oito escolas — era aquilo que os miúdos mais nos pediam.”

Apesar de não terem conseguido distribuir os brinquedos, Rita Xavier diz que a missão foi um sucesso. “Criámos muitos sorrisos, recebemos muitos abraços, beijinhos e lágrimas mas, acima de tudo, conseguimos fazer a diferença na vida destas crianças e mudar o mundo delas.”

Carregue na galeria para ver algumas das imagens captadas por Manuel Geada durante esta missão na Indonésia.