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Teatro e exposições

A exposição sobre o Banksy no Porto é uma enorme desilusão

Fomos espreitar “Banksy’s, Dismaland and Others”, do fotógrafo Barry Cawston, que fica na Alfândega até 31 de março.
Foto: Elisa Simões

É uma cabine telefónica tipicamente britânica que trocou o tradicional vermelho por um rosa forte. Está tombada à entrada da Alfândega do Porto e esconde um velho telefone no interior. Na base tem gravada uma mensagem: “Esta não é uma obra de Banksy”. A reprodução da intervenção que apareceu pela primeira vez em Londres em 2006 dá as boas-vindas aos visitantes. Porém, a mensagem não poderia estar mais certa: lá dentro não estará também a obra de Banksy. Ou melhor, não da forma que a maioria esperaria

Apesar do nome da exposição atirar Banksy às massas – chama-se convenientemente “Banksy’s, Dismaland and Others” – , trata-se da primeira exibição de fotografias captadas pela máquina de Barry Cawston, composta na sua maioria por retratos de obras do artista anónimo. É, no fundo, uma visão de Banksy pela lente de um terceiro. Um trabalho que, aliás, tem a bênção do street artist, que já partilhou imagens do fotógrafo, num gesto que funcionou como uma espécie de apadrinhamento desta exibição não-oficial.

Cawston retratou a Dismaland e a pequena cidade que recebeu o parque de Banksy

Antes do salto no mundo caótico de Banksy, há tempo para ler uma breve e modesta introdução do artista. Cawston, nascido em Bournemouth em 1966 e formado em Sociologia, afirma-se como uma espécie de fotógrafo oficial de Banksy, embora o próprio recuse o título.

O percurso começa com os registos das dezenas de visitas de Cawston à Dismaland, a exposição temporária inaugurada em 2015 por Banksy na cidade de Weston-super-Mare. Uma sátira ao mundo maravilhoso da Disneyland, onde quase tudo está virado do avesso: os paparazzi que fotografam sem vergonha o corpo de Cinderela, dobrado sobre a carruagem acidentada; um barco de refugiados passeia-se num dos lagos; e os funcionários carregam um ar aborrecido e pouco condizente com o mundo alegre da Disney.

A curta e breve introdução à Dismaland serve de preparação para aquele que é talvez o momento mais excitante da visita: a visão de Cawston que procura nas ruas de Weston-super-Mare o contraste de uma Dismaland do mundo real. Os dinossauros e os bonecos de Elvis Presley misturam-se no ambiente pacato e envelhecido de uma cidade inglesa igual a tantas outras — e até uma visão da perfeição numa pequena banca de fish and chips.

“The Perfect Fish and Chips”, uma das imagens captadas por Cawston em Weston-super-Mare

Tão depressa nos embrenhamos na visão de Cawston, como somos arrastados novamente para o mundo de Banksy e o seu “The Walled Off Hotel”, um hotel real criado no território palestiniano da Cisjordânia, a poucos metros da infame muralha criada por Israel, de Jerusalém e de Belém. É o hotel “com a pior vista do mundo”, anuncia-se de forma provocatória. Ao seu estilo, Banksy aponta as latas e as críticas ao eterno conflito da região com obras já conhecidas e outras inéditas.

Mais um dos marcos da obra do artista anónimo que ficam por explorar mais a fundo, à imagem do que acontece com Dismaland. Sabemos que se trata de uma exibição assinada por Cawston, mas é por Banksy que os milhares de visitantes irão passar pela Alfândega, muitos apenas com um conhecimento superficial da obra e visão do artista. E é neste ponto que se ressalta a falha: falta explorar mais a fundo as suas criações, para que quem a visita vá para casa com uma maior bagagem de conhecimento sobre Banksy. Isso não acontece e é relativamente compreensível: afinal, a exposição pertence a Cawston. O problema? O sublinhar do nome do artista anónimo no título e que irá levar muitos ao engano.

Até ao final da exposição, há tempo para uma instalação interativa da mais recente e polémica obra. Uma projeção virtual recria a criação de “Love is in the Bin”, o famoso quadro da menina com o balão em forma de coração que se autodestruiu num leilão da Sotheby’s em 2018. A instalação convida cada visitante a aproximar-se da obra e quando o fazem, ela destrói-se, enquanto vai atirando frases que Banksy espalhou pelas paredes do mundo.

A secção “others” destaca alguns dos melhores street artists nacionais (Foto: Elisa Simões)

Entre um par de fotografias de Cawston da siderurgia de Völklinger – o complexo industrial alemão que foi declarado Património Mundial pela UNESCO em 2014 –, surge uma área final dedicada a alguns street artists portugueses. Uma breve, muito breve introdução ao mundo, que termina assim que começa.

A visita a “Banksy’s Dismaland and Others” pode ser feita desde 19 de janeiro e tem até 31 de março para espreitar o trabalho de Cawston. Terá é que pagar 11€ – as crianças pagam 6€ e há uma opção de 28€ para um pack de família com dois adultos e duas crianças —, um valor pouco generoso para uma dose instantânea e insípida de Banksy. Quem conhece a obra, pouco levará de novo à saida. Quem pretende uma introdução ao mundo do street artist, talvez queira começar por outro lado.