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Música

Seu Jorge: “Adoro Portugal, mas tenho Cascais no meu coração”

O músico brasileiro dá dois concertos em Portugal este mês de agosto. Antes disso, deu uma entrevista à NiT.
Atua n’O Sol da Caparica.

Seu Jorge é provavelmente um dos músicos brasileiros mais acarinhados pelo público português. Todos os anos atua no nosso País e 2019 não é exceção. Já deu vários espetáculos e está a preparar outros dois. Na sexta-feira, 16 de agosto, dá um concerto n’O Sol da Caparica, na Costa da Caparica, cujos bilhetes custam 19€. No domingo, dia 18, atua no Páteo de São Miguel, em Évora, num concerto que já está esgotado. 

A NiT entrevistou o cantor numa chamada por telefone que ligou o Brasil a Portugal. Seu Jorge fala de forma pausada e mostra a calma e confiança de quem está habituado a estar na estrada há vários anos. Na conversa refletiu sobre quais foram os melhores e piores concertos da sua carreira. E parece que ainda não conseguiu ultrapassar a única vez que teve de cancelar uma performance.

Esta importância que dá aos fãs reflete-se em todos os aspetos da sua vida profissional. Com um percurso dedicado à música, mas também à profissão de ator, Seu Jorge fala com paixão sobre as duas formas de arte. E se tivesse outra profissão qualquer? Faria-a também com a “maior entrega”. 

Prepara-se para dar dois concertos em Portugal esta semana e vem ao nosso País muitas vezes. Como é saber que é tão acarinhado pelo público português?
É muito bom, eu adoro. Adoro Portugal e a forma como sou recebido faz-me querer voltar sempre. É uma maravilha, todo o amor e a consideração do público. Vou estar no dia 16 no Sol da Caparica, no mesmo dia do Carlão e da Mariza, e estou muito entusiasmado.

Quando dá um concerto num novo local tem tempo para o visitar? De que é que gosta mais em Portugal?
Eu gosto de muita coisa aí. Todas as cidades, todo o País. Mas um lugar que tenho no coração é Cascais. Eu toquei lá e foi o primeiro lugar que a minha mãe conheceu quando saiu do Brasil, por isso tenho muito carinho por Cascais. Amo aquele vento, sei lá [risos]. Às vezes tenho tempo de ficar nos sítios, outras vezes não.

Há algo que faça sempre antes de dar um concerto?
Não é um ritual, mas é sempre bom chegar antes, fazer o soundcheck, entender o lugar, absorver a energia do sítio, ver o público a chegar, tomar um chá quente com mel, aquecer a voz. Essas coisinhas, nada de mais.

Com uma carreira já longa, por vezes cansa-se de tocar algum dos temas mais conhecidos?
Eu tenho muita liberdade em palco. Agora, é evidente que o público tem a expetativa de ouvir as canções que lancei e que lhes tocou. Tem de ser um compromisso entre as duas coisas.

Quando começou a trabalhar aos dez anos de idade, algum dia imaginou tornar-se o músico que é hoje e viajar levando a sua música a tantos países?
Eu comecei a trabalhar muito novo e comecei a fazer música, mas não foi para virar artista. Depois é que percebi que havia essa possibilidade de viver desta profissão e aprender com tantas pessoas como aprendi ao longo destes anos. Agora posso dizer que esse sonho não só se tornou realidade, como a música também me presenteou com muitas pessoas, responsabilidade e coisas boas. Por isso, sou muito grato a esta profissão, como também sou a todos os que me ensinaram alguma coisa de coração aberto. Quando comecei a trabalhar muito novo foi um drama porque nenhuma criança deve trabalhar. Uma criança normalmente dá trabalho e não trabalha. Mas hoje agradeço porque me deu várias lições de disciplina e acabou por me ajudar a tornar naquilo que sou hoje, na música, no teatro, no cinema.

Qual foi o seu concerto favorito até hoje?
Bom, eu tenho muitos favoritos. Posso destacar um bem recente, foi um concerto no Royal Albert Hall [Londres, Inglaterra], é um teatro muito bonito e sempre quis tocar lá; e também um concerto que dei em Los Angeles [EUA] com orquestra. Também vou destacar um espetáculo que vi em Portugal e que não foi meu, mas foi tão especial como se eu tivesse tocado. Foi o concerto de um brasileiro de quem tenho muito orgulho de dizer de que sou amigo, que é o Caetano Veloso. É um herói da nossa música. Foi só ele e o violão, no Centro Cultural de Belém [Lisboa]. Foi uma noite muito boa. E eu vi o quanto ele é importante para nós todos e o quanto a música dele é poderosa.

Há algum concerto que não goste de recordar?
Sim, um concerto que eu não fiz por culpa da companhia aérea. Ia a caminho do Rio de Janeiro [Brasil] e houve uma avaria a meio do caminho e o avião voltou para São Paulo. Nunca falhei um concerto na minha carreira, esse foi o único. Teve um grande impacto para mim, até hoje, é uma marca que não queria ter na minha história, de nunca perder um concerto. Claro que se não fosse a habilidade do piloto se calhar eu podia não estar aqui agora, mas na altura fiquei chateado. Não sei como, mas ainda consegui enviar uma mensagem de dentro do avião, em pleno voo, a avisar que não ia conseguir chegar.

Quais são as principais diferenças entre tocar no Brasil ou fazer uma tour na Europa?
Há uma diferença cultural. Na Europa muitas vezes o mais tarde que posso tocar num palco é às 20 horas. No Brasil o horário é sempre mais tarde. Mas não há uma diferença assim muito grande na minha rotina.

Está a preparar um novo álbum, certo? O que nos pode contar sobre ele?
Estou ansioso para que saia. É um trabalho que tem a participação de vários artistas e compositores de que gosto, tem uma música com a Marisa Monte, a Maria Rita também. Este álbum é mais clássico, e tem arranjos de orquestra, com cordas, percussão, sopro. Mal posso esperar para que saia e talvez em outubro aconteça.

O Seu Jorge já fez mais longas-metragens do que discos. O que o entusiasma mais: uma nova participação num filme ou compor um novo álbum?
São disciplinas muito diferentes e ambas são importantes para mim. Não tenho uma preferência. Preparei-me para as duas e quanto mais melhor. Sou um artista que não tem só uma linguagem ou forma de expressão.

Quais são as principais diferenças na preparação de um filme e de um concerto?
Numa produção cinematográfica sou mais uma pessoa dentro do projeto a trabalhar para a história. Na minha carreira de músico, tenho imensas pessoas a trabalhar para que eu aconteça. É muito focado em mim. No cinema não, no cinema sou mais uma componente a contribuir para a história. Porque, para mim, se o filme não é bom, o ator não é bom, o realizador não é bom, a música não é boa, o figurino é horrível, etc.. Na música depende somente de mim. Claro que trabalho com outras pessoas, mas posso pegar no meu violão e sair por aí a tocar. No cinema, o ator e uma câmara só não resolvem.

O que nos pode adiantar da série “Irmandade”, da Netflix, em que participou? Ainda não estreou.
“Irmandade” vai ser um enorme sucesso. É um barato, acho que as pessoas vão ver tudo no primeiro dia. É uma série ótima, com grandes atores como Naruna Costa, Hermila Guedes, Lee Taylor, etc. Estou muito contente por ter participado. É uma série do Pedro Morelli e é uma história muito forte. Estou muito animado.

Se não pudesse ser músico nem ator, o que teria como profissão?
Eu já tive várias, já trabalhei como construtor civil, já fiz um monte de coisas. De certeza que seria um trabalhador, daria a minha maior entrega, independentemente da profissão.