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Música

Rock in Rio: Pink deu um concerto para a história e voou por cima do público

E o que raio aconteceu aos Black Eyed Peas? A NiT assistiu aos dois concertos no Rio de Janeiro, no Brasil.
Pink deu um espetáculo teatral.

O penúltimo dia de Rock in Rio no Rio de Janeiro, no Brasil, tinha um Palco Mundo particularmente forte — já falámos dos concertos de Anitta e H.E.R.. Mas os maiores destaques foram nomes com carreiras maiores e uma história mais longa: os Black Eyed Peas e Pink.

Comecemos pelo trio de Will.i.am, Apl.de.ap e Taboo, que agora é acompanhado ao vivo pela cantora Jessica Reynoso, que canta em palco as partes de Fergie, que saiu do grupo há cerca de dois anos, quando os Black Eyed Peas começaram uma nova fase no seu percurso.

Os Black Eyed Peas tornaram-se imensamente populares no início dos anos 2000, sobretudo depois do álbum “Monkey Business”, de 2005. Nos cinco anos que se seguiram essa tendência acentuou-se e o grupo chegou ao topo da música pop, com os seus hits constantemente a tocarem nas rádios e discotecas, e a venderem milhões de discos em todo o mundo. Seguiu-se um hiato que terminou com tudo isto.

Passado pouco tempo de terem regressado, Fergie abandonou a banda e Will.i.am, Apl.de.ap e Taboo — também embalados pela conturbada atualidade política e social americana — foram recuperar as suas raízes ativistas do hip hop para construir um disco de rap sério e consistente, longe das sonoridades pop e eletrónicas de singles como “I Got a Feeling” ou “Rock That Body”.

Contudo, quando os encontrámos no Palco Mundo do Rock in Rio, os Black Eyed Peas ignoraram por completo este novo disco, editado no ano passado, chamado “Masters of the Sun Vol. 1”. Apesar da mudança drástica na sua discografia, continuam a alimentar-se dos êxitos do passado — dos bons, como “Let’s Get It Started”, “Pump It” ou “Where’s the Love”, mas também dos menos bons, como “The Time (Dirty Bit)”, “Boom Boom Pow” ou “Imma Be”.

A banda atravessa uma fase estranha.

Apesar disso, mantêm o seu profissionalismo experiente intacto. São entertainers natos, sempre na língua de palco a comunicar com o público, que estava numa festa autêntica — que é aquilo que os Black Eyed Peas proporcionam ao vivo, mesmo que seja bastante incoerente com a sua música mais recente. Tal como H.E.R., cantaram parte de “Mas que Nada”, original de Jorge Ben Jor, para homenagear o Brasil.

Outro momento impactante foi quando Taboo se dirigiu em espanhol aos brasileiros, pedindo punhos cerrados apontados para o céu, num apelo à defesa dos indígenas da Amazónia. O que não fez de todo sentido foi, por exemplo, o autêntico DJ set de Will.i.am a meio da atuação, ou a participação especial dos colombianos Piso 21, que não acrescentou nada e até destoou bastante.

A colaboração esperada chegou no fim, com Anitta a regressar ao Palco Mundo para interpretar “Don’t Lie” e “eXplosion” com os Black Eyed Peas. Apesar de saberem fazer bem a festa, deixaram-nos extremamente confusos sobre o que se segue para este grupo histórico que já esteve na mó de cima e agora está uns quantos furos abaixo, quase numa realidade paralela.

Will.i.am é o grande frontman da banda.

Quem deu um concerto muito melhor foi Pink. A cantora está numa fase em que consegue preparar um alinhamento de duas horas com as canções favoritas dos fãs que espelham as várias fases do seu percurso — o seu primeiro álbum já foi lançado há 19 anos.

O público sabe que Pink dá um verdadeiro espetáculo ao vivo, com encenações teatrais, performances de dança com os seus bailarinos e acrobacias impressionantes. Tudo isto enquanto aparentemente canta — mas por mais talentosa e bem preparada que esteja, é óbvio que há de ter algum apoio para poder fazer playback nalguns momentos.

Comunicadora, divertida e bem disposta, Pink é uma ótima entertainer. Os vários atos do concerto foram divididos por vídeos — dos mais satíricos aos mais conscientes e sérios. “Just Like a Pill”, “Just Give Me A Reason”, “Try”, “What About Us”, “I Am Here”, “F**kin’ Perfect”, “Raise Your Glass” ou “Blow Me (One Last Kiss)” foram alguns dos temas mais celebrados, apesar de esta, lá está, ser uma setlist só composta por hits (algo que está ao alcance de poucos).

Pink cantou os seus grandes temas.

A mashup entre “Funhouse” e “Just a Girl”, dos No Doubt, foi um dos melhores momentos musicais da noite. Houve ainda um pedido de casamento a meio do espetáculo, nas primeiras filas, e Pink cantou “We Are the Champions” enquanto passavam imagens de manifestações e protestos a favor de causas sociais como os direitos das mulheres ou o direito a ser homossexual. Levantou uma bandeira gay, o que despoletou de imediato o cântico “Ei, Bolsonaro, vai tomar no…” entre a multidão.

Pink é a personificação de uma cantora pop, mas, ao contrário de tantas outras, as suas músicas não são ocas nem vazias. Como explica ao longo do espetáculo, a cantora sempre usou os seus pensamentos, ideias, medos ou inseguranças, a sua identidade, para expressar o que sentia na sua música e de forma a ajudar outros.

São letras que falam de relações tóxicas, problemas entre pessoas ou discriminação, mas sempre na lógica positiva da superação, de música que pode ser verdadeiramente terapêutica. E isso é no mínimo bonito, e bastante importante. É possível tentar mudar o mundo, oferecendo uma mensagem positiva, através da música pop. E Pink é a prova disso mesmo.

Todo o grandioso espetáculo, meticulosamente preparado, culminou naquele que foi, muito provavelmente, o grande momento desta edição do Rock in Rio. Na última música de todas, “So What”, Pink manteve-se presa a um sistema de cordas que a fez literalmente voar por cima do público, movendo-se de um sítio para outro, dezenas e dezenas de metros, dando mortais enquanto interpretava a canção, para delírio e surpresa de todos aqueles que assistiram. Foi um final épico e digno de um festival com a dimensão do Rock in Rio.

Pink teve um final épico.