Música

Revelação: o dono da histórica loja Torpedo é um assaltante de bancos

O francês cabecilha de um grupo anarquista viveu escondido durante sete anos no Barreiro e em Lisboa. Regressou agora ao seu país para ser julgado.

Gilles Bertin (segundo a contar da direita) esteve escondido em Portugal

Quem viveu em Lisboa no final dos anos 80, princípio da década de 90, recorda-se de uma loja de discos emblemática que ficava no Rossio. Chamava-se Torpedo e era daqueles lugares de culto, hoje praticamente extintos. Foi ali que se escutaram os primeiros acordes de “Nevermind”, dos Nirvana, onde se encontravam raridades que não existiam nas outras lojas, por onde passou boa parte da movida rock e punk da capital. À semelhança de outros espaços icónicos, como a Bimotor, a Torpedo teve o seu fim e nunca mais se falou no assunto. Até hoje. A razão? Já lá vamos.

Atrás do balcão costumava estar um casal que aparentava ter pouco mais de 30 anos. Ninguém sabia muito bem quem eram, talvez franceses ou espanhóis, dizia-se. “Conhecia-os da loja, conversávamos ocasionalmente num bar ou num concerto, mas nunca passou disso. Até hoje achava que ele era espanhol. Até porque a Cecília, a rapariga que também trabalhava lá, era espanhola”, recorda à NiT um cliente habitual, músico, apanhado de surpresa ao ler hoje um artigo da BBC. O jornal trazia a história de um homem arrependido, há muito dado como morto, que tinha uma ligação a Portugal.

Gilles Bertin, assim se chama o francês, decidiu entregar-se à justiça e prepara-se agora para enfrentar um julgamento. A razão? Liderou um assalto a um banco em Toulouse, de onde saíram com 12 milhões de francos, há mais de 25 anos. Fugido à justiça, escondeu-se em Espanha e Portugal, e usou parte desse dinheiro para comprar o espaço onde viria a funcionar a Torpedo, no andar superior da estação do Rossio. Quis passar despercebido mas a loja acabaria por se tornar um lugar de culto. “Foi a loja mais importante da cena alternativa de Lisboa durante muitos anos”, conta a mesma fonte.

Não foi por acaso que a Torpedo ganhou nome no meio musical underground da capital. Bertin tinha sido vocalista de um dos maiores representantes do punk francês, os Camera Silens, com uma legião de fãs considerável. Eram quase todos ligados a movimentos anarquistas e de extrema-esquerda, considerados perigosos e violentos. “Foi uma espécie de líder punk politizado na cena francesa dos anos 80 (…) Os gajos eram radicais de esquerda, violentos. A cena punk francesa nessa época era lixada”, recorda à NiT outro cliente, também músico, que privou várias vezes com Bertin.

Durante os 25 anos em que esteve desaparecido, Bertin terá sido reconhecido várias vezes nas suas viagens a França. Em Portugal, onde viveu durante pelo menos sete anos — teve casa no Barreiro e há quem diga que também morou em Lisboa —, houve quem desconfiasse do seu passado. Símbolo do punk francês mais hardcore, Gilles não era propriamente um rosto desconhecido, nem mesmo em Lisboa, onde o punk ia já na segunda vaga. “Muita gente sabia [quem ele era] mas a mulher dizia para não acreditarmos no que se dizia sobre ele. Que era tudo mentira. Ele era um gajo muito calado, mesmo na loja era preciso puxar por ele para dizer alguma coisa. Pouco falava português”, acrescenta a mesma fonte. 

O assalto

Quando a banda francesa se desmantelou, no final dos anos 80, os membros e muitos dos seus seguidores perceberam que não tinham grande futuro pela frente. Muitos estavam infectados com doenças como o HIV, fruto de excessos e drogas duras. Sem muito a perder, decidiram fazer um assalto a um banco em Toulouse, que lhes renderia perto de dois milhões de euros. Foram quase todos apanhados excepto o principal suspeito, Gilles Bertin, que acabaria no entanto condenado a dez anos. Terá passado algum tempo em prisão domiciliária e aproveitou para fugir.

Desapareceu do mapa e nem mesmo a família conhecia o seu paradeiro. Foi dado como morto. Em Portugal vivia atormentado com a ideia de ser apanhado e sempre que via um automóvel de matrícula francesa parar no Rossio pensava que era por sua causa. Decidiu entregar-se depois de muitos anos incógnito, sem poder ver sequer o filho, hoje com 30 anos. Contactou um advogado francês e decidiu enfrentar a justiça. 

“No final dos anos 70 e início dos anos 80 era um jovem zangado, um niilista, um anarquista num caminho de destruição, revoltado com a sociedade. Tem de se perceber o contexto de então.” Aos 57 anos, a enfrentar um julgamento que o pode atirar 20 anos para a cadeia, Gilles é um homem arrependido, que procura pacificar-se com o passado.