NiTfm live

Música

Plutonio: “Quero ser o presidente da Junta de Freguesia de Alcabideche”

O rapper português esteve com a NiT no Bairro da Cruz Vermelha, onde cresceu e continua a viver.
O rapper tem três discos no currículo.

Enquadrado entre o Autódromo do Estoril e a prisão do Linhó, fica o Bairro da Cruz Vermelha, em Alcabideche, Cascais. É um bairro de origem social como outros nos subúrbios de Lisboa, onde famílias pobres de imigrantes sem condições foram colocadas em casas financiadas por organizações de caridade e pelo Estado ao longo das últimas décadas do século XX.

Os habitantes dizem que a zona está muito mais calma. Nos anos 90 e início do novo milénio, o ambiente era mais pesado — apesar de se manter a tensão histórica que existe entre aquela população e a esquadra local da GNR.

Pequenas moradias convivem com prédios de três ou quatro andares, há vários pátios entre as casas, ringues desportivos e os edifícios mais antigos do bairro (sem contar com as barracas que já não existem) estão numa situação muito degradada. A autarquia continua a tentar demolir aqueles prédios, mas os residentes garantem que, apesar do aspeto, ainda há gente que mora ali.

Foi precisamente neste cenário que cresceu Plutonio (nome artístico de João Ricardo de Azevedo Colaço), rapper luso-moçambicano vindo de uma família numerosa, com um pai ausente, numa situação idêntica à de tantos jovens que cresceram nesta realidade difícil. Tem 34 anos e faz rap desde a adolescência, no final dos anos 90. Começou a carreira com amigos no bairro, de forma muito descomprometida, e só nos últimos (poucos) anos é que conquistou o enorme estatuto de popularidade que hoje tem.

Percorrer o Bairro da Cruz Vermelha com Plutonio faz-nos sentir em casa. Ali toda a gente o chama por Dudu. Dos mais velhos aos mais novos, toda a gente o conhece e o cumprimenta com carinho no bairro. Tornou-se um símbolo daquela zona e é reconhecido por isso.

O tema que fez a meias com DJ Dadda, “Cafeína”, lançado no verão do ano passado, tornou-se este ano o primeiro single na história de Portugal a ser considerado tripla platina — tendo em conta os milhões de plays que soma nas plataformas de música, como o YouTube e o Spotify.

Este ano, Plutonio percorreu o País para dar dezenas de concertos em grandes festas das autarquias, festivais conceituados (como o NOS Alive) e outros eventos onde tem conquistado uma grande base de fãs — num circuito mainstream, ao contrário do que acontecia há alguns anos. 

Plutonio continua a ir aos mesmos sítios de sempre no bairro.

Esta sexta-feira, 22 de novembro, foi lançado o primeiro disco desta nova fase da carreira de Plutonio, “Sacrifício — Sangue, Lágrimas & Suor” (dedicado ao rapper português Chullage, a sua maior referência), apesar de ser o terceiro do seu currículo. Tem 18 faixas — nove delas são singles entretanto lançados — e já pode ser ouvido. As suas letras são autobiográficas e descrevem em pormenor, mas também com algum secretismo, a sua realidade e percurso.

O rapper não parou para perceber como o disco será recebido. Está neste momento no Brasil para atuar no Rio de Janeiro, onde irá fazer o concerto de abertura para a cabeça de cartaz Erykah Badu, neste sábado, dia 23. Se o quiser ver em Portugal, reserve já na agenda a data de 14 de fevereiro, quando Plutonio atua no Coliseu dos Recreios, em Lisboa; e o dia 21 do mesmo mês, quando sobe ao palco do Hard Club, no Porto. Até lá, há mais datas que pode acompanhar nas redes sociais do rapper.

Em conversa com a NiT, fala do seu percurso, de como foi crescer no Bairro da Cruz Vermelha e de como isso o moldou, de como um dia sonha ser presidente da Junta de Freguesia de Alcabideche para ajudar as pessoas e, claro, do novo álbum. 

O que o levou a começar a rimar, quando tinha apenas 15 anos?
Tinha um amigo meu, que foi o primeiro rapper que conheci pessoalmente, que era o Atômico, com quem comecei a rappar — nós tínhamos um grupo, os Atoxicos. Gravávamos na casa de um amigo nosso, o Jamaica. Eu acompanhava sempre as sessões de estúdio deles e despertou-me aquela curiosidade, também queria cantar. E sempre tive aquela cena do rap de falar da zona, de explicar o que se vive aqui, porque às vezes não chega de outras formas. Hoje em dia já é diferente, a Internet mudou tudo. Mas na altura o rap era um dos principais veículos dessa mensagem. E a minha motivação também era essa: passar para quem não é daqui, ou quem não é dos bairros em geral, o que é que a gente vivia. Hoje em dia falo de muitos outros assuntos.

Como foi crescer no Bairro da Cruz Vermelha?
Não sou pessoa de me fazer de vítima nem nada disso, é o que é, mas não foi fácil. Ainda hoje não é, tenho perfeita noção. Tenho amigos meus que estão em situações piores, muitos deles também se conseguiram meter em situações melhores, mas não é fácil crescer nesta realidade. A questão é que ou te mata ou te torna mais forte. E acho que a mim me fez mais forte, sem dúvida.

A música continua a ser uma forma possível de ascensão social, para estar numa situação melhor do que a de quem cresce numa realidade difícil?
Claro que sim. Apesar de que conheço muita gente que ficou a meio — ou a um terço — nesta caminhada. Nem todos conseguem, por vários motivos. Mas hoje cada vez mais tens pessoal a sair dos bairros por causa da música. Antes era só o futebol. Agora tens a música a tirar o pessoal de outros caminhos. Graças a Deus hoje posso viver da música e posso mudar a perceção que as pessoas têm — ou tinham — da minha pessoa. Não tive sucesso escolar, estudei só até ao sétimo ano, não me identificava com muitas coisas da escola. Por um lado arrependo-me, por outro não. Mas se fosse só pelo lado que é suposto ser — estudares, ires para a faculdade e arranjares um trabalho — se calhar não tinha conseguido outra solução na vida. A música arranjou-me uma segunda forma de atingir os meus objetivos. Apesar de que quando comecei a fazer música nunca tive isso como motivação. 

Não pensava que a música podia ser o seu trabalho?
Não era um objetivo, nunca foi uma coisa que me motivou. Nem os rappers nacionais de quem eu era fã tinham essa posição. Veio mais tarde, por consequência, quando as coisas começaram a crescer de forma natural. Começou por funcionar com alguns rappers, depois chegou a muitos outros, e agora foi a minha vez de aproveitar isso.

Quando era pequeno, havia alguma coisa que queria fazer enquanto profissão?
Ya, eu não tinha mesmo noção. Quando me perguntavam eu dizia sempre que queria ser engenheiro. Os meus tios até brincavam, “ya, engenheiro de obras feitas”. Nunca sabia bem o que era, o pessoal gozava [risos]. Mas se tivesse estudado, gostava de ter estudado Direito para me tornar advogado.