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Música

Numa noite de chuva, o Coliseu foi verão, suor e festa — a dos Vampire Weekend

De Nova Iorque para Lisboa, a comunhão foi total. Os vampiros tinham saudades de espaços fechados e nós também.
Ezra Koenig ao leme.

Em 2010 foi assim: quatro meses depois de uma atuação épica num festival Super Bock Super Rock incrível — o mesmo que nos trouxe Prince —, os Vampire Weekend voltavam a Lisboa para uma sala fechada, um Campo Pequeno lotado, numa noite de novembro que foi uma continuação da festa: desta vez mais dedicada aos fãs, mais completa, mais comungada. “Quase 10 anos depois”, fartou-se de dizer Ezra Koenig na noite desta terça-feira 26 de novembro em Lisboa, a historia repetiu-se: depois da festa geral em modo festival do NOS Alive, a privada, mais apurada e mais dedicada chegou ao Coliseu. 

Na noite de 2010, tal como nesta, os vampiros de Nova Iorque mostraram a Lisboa que, embora sejam a banda perfeita para um festival de verão — com temas veranis, dançáveis, cantáveis e festivos —, é num recinto próprio que mais brilham. E onde mais as trocas de afeto e celebração com os fãs se sentem, como é natural.

O dia e noite de quinta-feira foram de chuva torrencial em modo tropical, mas num Coliseu de Lisboa cheio (na plateia não cabia uma palha), o calor era imenso, as paredes escorriam água, e no palco ouvia-se verão. Ouvia-se sol, praia, mar, ritmos caribenhos com toques de ska e de world music ou até música espanhola. Ouvia-se punk com indie, música africana, Simon & Garfunkel, Van Morrisson e Roy Orbison.

Os Vampire Weekend são uma mistura de tudo isto e de muito mais. São uma mistura de estilos — rapazes universitários, onde se conheceram, não perdem o ar clean e aprumado que sempre os marcou. O vocalista, Koenig, que chegou a ser professor (e agora também cria séries animadas para a Netflix e tem podcasts de entrevistas) é um personagem: o genro de Quincy Jones surge vestido mais como se fosse para uma tarde de chá, casaco apertado até cima, nem com os aparentes 50 graus do Coliseu parece verter uma gota de suor, perder a compostura, o tempo todo. Mas na ginga lembra Elvis, a voz lembra mesmo Paul Simon, a postura é de uma estrela que nem se esforça para o ser.

 

No Coliseu, o grupo apresentou-se com quase uma orquestra; Koenig na voz, Chris Baio no baixo, Brian Robert Jones na guitarra e ainda Greta Morgan, Garrett Ray e Will Canzoneri.

A festa começou com “Flower Moon” à hora certa, 21h30. O último disco, “Father of the Bride” dava aqui o toque de saída e percebia-se que ia ser uma noite especial, como (quase) todas no Coliseu são. O espaço puxa intimidade e a coros, os riffs de guitarras do grupo são tão cantáveis como os refrões (é um clássico com os Vampire, coros a imitar as guitarras e aqui não falhou) e a banda estava bem disposta — não particularmente comunicativa mas com a suficiente conversa para enquadrar temas e criar ambiente, e com sorrisos de “último concerto da digressão em sala lotada” estampados.

Com um alinhamento claramente pensado para alternar os clássicos com as novidades, o espetáculo foi depois um crescendo: “Holiday” trouxe a primeira explosão de dança e já ninguém parou, com “Bambina”, “Unbelievers” e “Everlasting Arms”.

Nessa altura, Ezra já tinha cumprimentado o público e feito referência aos tais “quase dez anos” que a banda esteve sem vir em nome próprio a Portugal: “tempo demais” frisou o vocalista, prometendo a desforra. Como de costume, para “Blake’s Gota a New Face”, pede a ajuda do público no refrão-diálogo e segue-se “Simpathy” do novo disco, um tema que parece música espanhola cruzada com o “Long Train Running” dos Dobbie Brothers, certamente outra referência da banda. “Oxford Comma” seguiu-se em coros.

Na procura de tocar músicas que não costumam abordar nos festivais, os Vampire arriscaram: tocaram temas como “Jonathan Low”, dos filmes de “Twilight”, ou “Unbearably White” que, por serem menos conhecidos, acalmaram um pouco os ânimos. Mas a festa voltava sempre, sobretudo com uma das melhores sequências da noite: o perfeito “Step”, o diálogo de guitarras (replicadas em coro) “Sunflower” e “This Life”.

“This Life” é um dos temas mais contagiantes do ano que agora termina, mas é muito mais. É uma ironia e uma ode ao desânimo e à decepção, porém com uma guitarra que expressa a mais pura das felicidades. E veio acompanhado de um vídeo incrível— são cada vez mais conceptuais, os vídeos do grupo. O de “Sunflowers” contou com Jerry Seinfeld e foi realizado por Jonah Hill, este mete Mark Ronson, co-produtor, num enredo alucinante de festa judaica onde acompanhamos o eremita Wade, que a dado ponto faz um brinde, antes de chorar: “Eu sou uma pessoa solitária. Mas também sou uma pessoa que gosta de pessoas”. E o tal riff de guitarrra mais feliz do mundo por detrás. 

 

Já o público estava completamente em modo exaustão tropical e Koenig, nem uma gota de suor ainda à vista, dizia depois de um dueto country com Greta Morgan (em “Married in a Gold Rysh”), e de “Diane Young”, “Cousins” e “A-Punk”: “Estão a gostar? Ainda vem aí muita coisa”. 

E vinha. Mais tarde, confirmaria que o concerto, que bateu as duas horas, tinha sido o mais longo que já deram em Portugal. Na altura, faltavam ainda 10 temas, como “Giving up the Gun” ou sete músicas num encore feito maioritariamente por discos pedidos pelo público, incluindo “My Mistake” por um fã italiano que até subiu ao palco para tocar piano; ou “Mansard Roof” e “The Kids don’t Stand a Chance”. No final,”Ya Hey” e, como sempre, o último e épico “Walcott” fecharam o concerto de Lisboa, nas palavras de Ezra “o melhor sítio para acabar uma digressão”.

De África a Nova Iorque, de Paul Simon a Elvis, do senhor de 86 anos que escreve nos comentários do video de “This Life” que não consegue parar de dançar, à miúda de cinco anos que canta o “Step”de uma ponta à outra — e que por acaso é minha filha — estão os Vampire Weekend: provavelmente uma das bandas mais ecléticas e inteligentes dos últimos anos, certamente com sala cheia (de preferência fechada) garantida sempre que visitarem a eclética Lisboa.