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Música

Novo smartphone termina sinfonia incompleta de Schubert

A Huawei usou o poder da inteligência artificial e o talento de um compositor moderno para dar uma nova vida a esta obra.
O espetáculo aconteceu no Cadogan Hall.

Em 1822, Franz Schubert começou a compor a sua oitava sinfonia. O compositor clássico austríaco nunca a viria a terminar, apesar de só ter morrido seis anos depois e ter criado outras nesse tempo. Essa tal oitava sinfonia de Schubert tem apenas dois movimentos (as sinfonias têm tradicionalmente quatro) e ficou para a história como a sinfonia para sempre inacabada da música clássica.

Ao longo dos anos, vários músicos de diferentes géneros concluíram a obra de Schubert e fizeram as próprias versões. Agora, foi a vez da Huawei de se envolver no universo da música clássica através de um projeto que também serviu para demonstrar a capacidade da inteligência artificial.

A empresa chinesa, mais conhecida pelos smartphones, contratou um compositor moderno, o americano Lucas Cantor, e deu-lhe um Huawei Mate 20 Pro, o mais recente e sofisticado telemóvel da marca.

Apesar do apelido, Lucas Cantor é um produtor, compositor e multi instrumentista. Trabalhou no departamento musical da estação de televisão NBC para a cobertura de múltiplas cerimónias dos Jogos Olímpicos, projetos pelo qual venceu dois prémios Emmy, e produz bandas sonoras para vários filmes e séries.

A sua função neste projeto foi a de usar o smartphone para terminar a sinfonia de Schubert. Durante meses, o telemóvel processou melodias de dezenas das obras do compositor austríaco. A inteligência artificial, especialista em detetar padrões nos utilizadores, encontrou os elementos comuns nas sinfonias de Schubert para criar novos sons que se enquadrassem dentro da mesma linha musical.

“O smartphone gerou melodias que pensámos que o Schubert poderia ter composto, mas que não compôs. O que fiz foi pegar nessas melodias e compor o resto da sinfonia. Gosto de pensar que a inteligência artificial criou várias boas frases e que eu peguei nelas e construí uma história. Foi uma colaboração entre inteligência artificial e inteligência humana”, conta Lucas Cantor à NiT.

Lucas Cantor não esteve envolvido na parte tecnológica — ele é apenas um compositor. “Queríamos mostrar o ADN das melodias de Schubert à inteligência artificial.” E explica como foi toda esta experiência para si.

“Trabalhar com o smartphone foi como colaborar com alguém que nunca ficasse cansado, que nunca tivesse uma atitude má, não tivesse ego e nunca ficasse sem ideias”, conta. “À medida que ia gerando melodias de que eu gostava e queria usar, criei uma certa ligação emocional, apetecia-me levá-lo a beber um copo para lhe dizer que estava a fazer um bom trabalho [risos]. É claro que é só um telemóvel, não tem emoções, mas estava a gerar melodias com significados emocionais.”

Lucas Cantor já conhecia a obra de Franz Schubert mas aprofundou o seu conhecimento — até porque diz que não sabia que “Ave Maria”, provavelmente a obra mais famosa do austríaco, fosse da sua autoria.

Ficou radiante quando recebeu o convite da Huawei. “Acho que não acabei de ler o email e aceitei logo a proposta. Daquilo que conheço é a primeira vez que um humano colabora com inteligência artificial para compor uma sinfonia. Nas últimas semanas tenho trabalhado com uma inteligência não humana. As implicações disso são profundas. Penso que possa ter um verdadeiro uso no futuro da música.”

O projeto começou há vários meses, mas a primeira nota só foi composta há cerca de um mês. Demorou três semanas e meia para compor os dois movimentos que terminassem a oitava sinfonia de Schubert. São 18 minutos de música inédita criados tanto por um smartphone como por um humano.

Esta nova versão da sinfonia foi apresentada na segunda-feira, 4 de fevereiro, no Cadogan Hall, em Londres, a capital do Reino Unido. A NiT esteve presente para assistir à interpretação da English Session Orchestra — que costuma tocar em estúdios reputados, como Abbey Road e AIR, e tem mais de 60 músicos.

“Penso que o Schubert teria gostado”, diz Lucas Cantor. “Acho que ele não acabou esta sinfonia porque precisava de mais alguns anos… se calhar foi à frente do seu tempo. Tinha características bastante diferentes. Acho que ele a teria acabado se tivesse vivido mais 20 ou 30 anos.”