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Música

NOS Alive: fomos aos bastidores de Variações, a banda que quer recriar António

O ator Sérgio Praia passou do filme para os palcos. A NiT acompanhou a estreia do projeto no Passeio Marítimo de Algés.
A banda no contentor que serve de camarim.

Passam alguns minutos das 23 horas e as redondezas do palco EDP Fado Café, no NOS Alive, estão cheias de gente curiosa e ansiosa. Os seguranças até estranham haver tanta movimentação àquela hora, quando não está ainda a acontecer nenhum concerto.

Podia ser o tempo de espera para um dos espetáculos que António Variações deu nos anos 80 nos seus (curtos) tempos de glória. Mas não, estamos em 2019, na quinta-feira de 11 de julho, e aqui o burburinho é outro, embora se possam confundir: todos querem ver a banda Variações ao vivo.

Este não é só mais um grupo de covers ou de tributo a algum músico famoso. É literalmente a passagem do filme para a realidade: a 22 de agosto estreia nos cinemas “Variações”, a produção que irá contar a vida de António Variações. Esta banda nasceu a partir daí, já que o vocalista é Sérgio Praia, o ator que interpreta o músico no projeto realizado por João Maia

É a mesma personagem que encontramos nos bastidores do EDP Fado Café, num pequeno contentor branco onde não cabe mais ninguém — ao seu lado estão Armando Teixeira, que pertenceu aos Da Weasel e foi o responsável pela produção musical do filme; além dos músicos Vasco Duarte, David Santos e Duarte Cabaça. Vão fechar este pequeno palco nos três dias de NOS Alive.

Há ainda uma maquilhadora — uma das responsáveis por transformar Sérgio Praia em Variações — e uma pessoa que trata dos figurinos, sendo que o ator tornado cantor troca de roupa a meio da atuação. 

Sérgio Praia mesmo antes de subir ao palco.

O espetáculo — que inclui algumas explicações de contexto pelo meio e até amostras de como a música era antes de ser trabalhada para o filme — é baseado no primeiro concerto de sempre de António Variações, que aconteceu na inauguração da discoteca Trumps, em Lisboa, a 18 de março de 1981. O dono do espaço era Fernando Ataíde, que fora namorado e amante do músico. Esse é um dos momentos cruciais do filme — assim como todos os ensaios e sessões de gravações que originaram (ou não) as canções que todos conhecemos, tantos anos depois.

“Fomos trabalhar com as músicas que foram gravadas antes de existirem os discos”, conta à NiT Armando Teixeira. “A banda sonora foi feita com base nas cassetes e documentos deixados por Variações. Ele era quase obsessivo em termos de gravação. Para o filme só nos pediram partes de canções, mas desde o início que fiz sempre músicas completas.”

Armando Teixeira já conhecia bastante bem a música, é um fã antigo. “Fiquei logo entusiasmado com a ideia de pegar na música do António e de lhe dar uma linguagem diferente, atualizá-la.” Era algo que a banda Humanos já tinha feito, aliás, entre 2004 e 2006, de uma forma diferente.

“E ficámos com a sensação de que era possível transpor isto para o palco. Aquilo que sempre imaginei foi recriar o concerto do António Variações no Trumps.”

Acabou por ser um formato ligeiramente distinto, que inclui até mais hits — como “O Corpo é que Paga”, ausente do filme, mas também tem músicas que são inéditas, que nunca chegaram a ser editadas. “As pessoas estão no concerto a ouvir aquilo que poderia ter sido a música do António se o mundo tivesse seguido outro caminho.”

João Maia, o realizador, queria fazer este filme desde 2007 — já lá vai uma dúzia de anos. Sérgio Praia, o ator que se tornou cantor ao interpretar Variações, não conhecia sequer muito bem a música de António e muito menos a sua história. Mais: nunca tinha cantado, nem em bandas, nem em filmes, nem em teatro. Nada.

“Eu disse logo ao João que não queria fazer o filme quando ele me explicou que era para cantar [risos]”, conta Sérgio Praia à NiT. “Desde sempre que era a ideia dele. Mas fui fazer na mesma o casting porque ele poderia desistir da parte de cantar e não queria deixar esta oportunidade escapar.”

Sérgio Praia treinou bastante a voz — porque uma das duas cenas para o casting exigia que cantasse “Anjo da Guarda”; a outra era uma cena de conversa com a mãe de Variações. “Pintei os olhos e fui cheio de nervos para o casting. Cantei, vim-me embora e só depois é que me ligaram a dizer que tinha ficado com o papel.”

Não foi fácil conseguir apoios para concretizar este filme — e daí todo o tempo que demorou até chegar agora (daqui a um mês e meio, vá) aos cinemas.

“Eu ia falando com o João, sendo que o projeto tinha muitos avanços e recuos, mas foi crescendo dentro de mim esta ideia e vontade de interpretar o António Variações. O João parecia estar no deserto, sozinho, contra o mundo. E fiquei com ele porque admiro muito as pessoas que lutam pelos seus objetivos.”

A banda a caminho do palco EDP Fado Café.

Entretanto, Sérgio Praia aceitou mesmo o facto de ter de cantar. “Não podia ser um playback. Por muito respeito que eu tenha pela música do António, acho que poderia ter ficado sem alma. O ‘Bohemian Rhapsody’ não ficou sem alma porque havia muito dinheiro envolvido. Aqui, o João sempre teve essa ideia, de querer pôr uma pessoa a cantar, mesmo que não fosse próxima de timbre. Ele queria ter aquela coisa da procura no momento, de me enganar nas letras. E nas filmagens do Trumps eu enganava-me às vezes ou então saía-me um pé do estrado ou ia para cima de algum figurante sem querer. Era preciso ter aqueles nervos no filme.”

Para se preparar para o papel, o ator de 42 anos estudou os tiques corporais de Variações, a sua presença em palco, a forma de falar e de se mexer no geral. Além disso, teve aulas para saber a forma correta de cantar — para se aproximar da voz do músico que morreu em 1984, vítima de SIDA. Além disso, contactou várias pessoas que conheciam Variações — mas não demasiadas.

“Falei com pessoas que estiveram com ele mas que não eram amigos. Porque acho que o António tinha uma coisa interessantíssima que é: ele era capaz de falar mais abertamente com um desconhecido do que com alguém que ele conhecesse muito bem. Portanto, tentei sempre ir ter com as pessoas que estiveram com ele uma hora, uma hora e meia, em várias facetas da vida. Mas tentei não confundir demasiado a minha cabeça, chegou uma altura em que percebi que tinha de deixar de falar com pessoas. Na realidade, na minha opinião, acho que o Fernando Ataíde foi o único que conheceu o António. Acho que ele não se deixava conhecer, não gastava energia desnecessária, era até um bocadinho egoísta nesse sentido.”

Quando Sérgio Praia percebeu que havia a possibilidade de levarem parte do filme para os palcos, ficou novamente reticente. “‘Vocês não se metam nisso, porque é muito diferente e é uma responsabilidade ainda maior. Se dar a cara já é o que é…’ Uma das coisas que me convenceu a fazer este concerto e os próximos que virão [porque vêm aí mais, depois desta estreia, apesar de não haver datas anunciadas] foi porque a vida lhe foi roubada de uma forma tão triste e esta é uma possibilidade de revivermos o universo dele. Nem que seja para mim, quero imaginar que ele pôde voltar a ter muitos concertos e conseguiu fazê-los com saúde, que não foi o que aconteceu na realidade. E há qualquer coisa que não me deixa sair daqui e que me manda para os concertos. Tenho a certeza de que vamos celebrá-lo com muita gente.”

Os últimos cumprimentos antes de subirem ao palco.

O que convenceu realmente Sérgio Praia em todo este processo foi a própria atitude e personalidade de António Variações, que o inspirou. “Ele tinha esta coisa do ‘sem rede’. ‘É para ir, eu vou. O que vai acontecer depois não quero saber.’ Tentei agarrar-me sempre a isso, que é um bocadinho um contrário de mim — eu gosto mais de saber o que vai acontecer — e tentei fazer o exercício oposto. E também não temos assim tantas oportunidades na vida de fazer personagens assim. Mesmo sendo difícil, tentei pôr as minhas inseguranças de lado. Como hoje, estou aqui para cantar, ‘ai estou muita bem, super relaxado’. Não, acho que tem que haver sempre nervos, também é o que me faz manter vivo e ter tesão pela vida.”

Já maquilhado, vestido e de brincos postos, Sérgio Praia caminha para fora do camarim acompanhado pela banda. São escoltados por um segurança para entrarem na rua do NOS Alive onde fica o super lotado EDP Fado Café. O público está ansioso e curioso. “Oh Variações!”, grita algum fã de um dos lados. “És lindo”, diz outra pessoa, enquanto o grupo anda rapidamente e entra numa pequena área restrita que dará acesso ao palco a partir das traseiras.

A NiT está a acompanhar a chegada até à sala de concertos, onde uma multidão espera — no meio do calor de mais de 30 graus — para celebrar o legado de António Variações e ver (e ouvir) ao vivo a interpretação de Sérgio Praia.

Nos bastidores, o ambiente está agitado — carregado dos tais “nervos” que são até positivos — e menos de cinco minutos depois os músicos sobem para o palco, deixando só o figurino de troca para trás. Cumprimentam toda a gente antes de saírem. A sala a transbordar, e ainda outra multidão que tenta assistir do lado de fora, todos gritam quando veem o ator a interpretar exatamente os maneirismos de Variações em palco e a cantar as suas letras. Dançam e vibram a cada música, cantam os versos que também sabem de cor. Não, eles não são o António Variações. Mas também não são só mais uma banda de covers.

Depois do NOS Alive, a banda promete dar mais concertos.