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Música

Moullinex: “O novo disco é menos otimista: vai ser o meu funeral para a empatia”

O músico está a preparar o novo álbum e vai mostrar ao público os temas que já tem em três concertos inéditos.
Do ukulele aos sintetizadores, Moullinex é um músico completo.

Estudou para ser engenheiro, mas acabou por se dedicar à ciência de criar instrumentais de música eletrónica. Os seus laboratórios, espalhados pelo mundo, são as pistas de dança — onde tem a oportunidade de fazer experiências e assistir de imediato aos resultados.

Se já o viu ao vivo, pode ter encontrado um músico tanto em formato de DJ como de líder de banda. Moullinex — o nome artístico de Luís Clara Gomes — está neste momento a preparar o novo disco, o quarto de originais, que vai suceder a “Hypersex”, de 2017. Será lançado este ano, provavelmente depois do verão, pela sua editora Discotexas.

Desta vez, teve a ideia de levar o estúdio, o seu grande local de criação, para o palco. Por isso mesmo, vai ter três datas de seguida no Musicbox, em Lisboa, já a partir desta quinta-feira, 23 de janeiro. Ainda há bilhetes disponíveis online. O passe para os três dias (não se esqueça que cada noite será diferente) custa 30€, enquanto a entrada diária fica por 12€.

Como explica à NiT, a ideia em cada noite é apresentar novas versões dos seus temas antigos — cada data é dedicada a um dos seus três álbuns já editados — e, em comum em todos os dias, vai mostrar pela primeira vez canções novas ao público. 

Visitamos Moullinex no seu estúdio, na Penha de França, em Lisboa, onde o músico está há cerca de sete ou oito anos. Há sintetizadores por todo o lado — muitos deles mais velhos que Luís Clara Gomes (que já está nos trintas) — de origem soviética ou japonesa. São máquinas antigas e preciosas que Moullinex estima com cuidado e que ajudam a tornar o seu som original.

Também há discos e muito material de som por todo o lado — desdes as colunas mais potentes a uma pequena e comum JBL. Moullinex diz que é importante testar as suas músicas em todas as formas possíveis de consumo, especialmente nas mais comuns (embora com menos qualidade): o telemóvel e a tal pequena coluna JBL.

É esta casa, onde o músico português passa mais tempo, que será transportada para o palco do Musicbox nos próximos dias. Leia a entrevista da NiT com Moullinex.

Tem algum tipo de rotina neste espaço?
Chego cedo, procuro fazer tudo o que é trabalho de escritório fora daqui, para que o tempo que tenho aqui seja dedicado a tentar ser criativo. Mas mesmo quando não estou a conseguir ser criativo fico cá. Gosto da ideia de me forçar a trabalhar, encarar isto como um emprego. Mesmo que a coisa não esteja a funcionar criativamente, deixo ir até ao fim para saber onde é que chego, porque mesmo que não goste da música, posso usar o que aprendi noutra.

Este é o sítio em que passa mais tempo?
Sim, acho que sim, tirando o tempo que estou a dormir em casa [risos]. Não durmo aqui. Às vezes acontece, mas não costumo.

E esse trabalho de escritório faz onde?
Em casa. Que é o que é ser músico em 2020. Temos de ser social media managers, managers, road managers, secretários, marketeers, ter tempo para fazer tudo. E isso é uma parte que não amo propriamente, e se pudesse eliminava da minha vida, mas não me importo de a fazer. 

É um trabalho necessário.
Sim, porque graças a isso consigo viver disto e ter uma vida feliz. Faço o que amo, e se isso é o preço a pagar para fazer o que adoro fazer, venha o trabalho de escritório que for preciso. Ao menos não estou a trabalhar para mais ninguém.

Era assim que imaginava que ia ser quando começou a fazer música profissionalmente?
Quando comecei profissionalmente sim, porque demorei imenso tempo até fazer música profissionalmente, fiz fade out do trabalho de investigação que tinha, fui fazendo fade in deste e estive imenso tempo a fazer os dois. Talvez eu tivesse alguma expetativa de a música não poder ser um trabalho ou um emprego que me pudesse sustentar, nunca encarei isso sequer como uma possibilidade. Por isso, só quando percebi que não tinha tempo para mais nada, que era a minha principal fonte de subsistência, é que achei que fazia sentido dedicar-me a isto, e adoro isto. Essa constatação foi incrível, foi mesmo especial.

Mesmo que não fosse, na altura achou que era um risco? Por ter a ideia de que a música podia não ser um emprego.
Sim, porque há uma parte meia snobe, das pessoas que dizem que não deves sacrificar a tua criatividade, porque se estiveres a depender disso não vais poder ser totalmente livre artisticamente. Eu acho que isso é uma tanga, porque ninguém cria nada em conforto absoluto. Se uma pessoa estiver emocionalmente, financeiramente, fisicamente e totalmente confortável, não quer fazer nada. Está bem, a apanhar sol e a beber uma cerveja, não quer fazer mais nada. Acho que é no caos e na ansiedade, na revolta, na frustração e sobretudo quando estamos a apanhar uma seca que fazemos coisas. Por isso é que os miúdos nas cidades pequenas juntam-se e… onde é que apareceram as primeiras cenas musicais em Lisboa? Nunca começam no centro, começam sempre fora, fruto de não haver mais nada para fazer. Então tem de se inventar algo para fazer. E acho que a criatividade em geral é assim, é preciso não estarmos demasiado confortáveis.

É esta a banda que vai estar a tocar no Musicbox.