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Música

Madonna deu um concerto genial e épico — mas não lhe peçam para cantar fado

O humorista Miguel Lambertini assistiu ao concerto da rainha da pop no Coliseu, em Lisboa.
Foi um concerto épico.

Gostava de começar por dizer que não sou fã da Madonna, no sentido literal da palavra, embora isso seja irrelevante quando falamos de uma artista que está num patamar reservado apenas a muito poucos. Por essa razão não me apresentei esta terça-feira, 14 de janeiro, no Coliseu dos Recreios com palas nos olhos ou sutiãs metalizados em bico — até porque estavam todos a lavar —, mas estava entusiasmado por ver, pela primeira vez ao vivo, a rainha da pop.

Acima de tudo queria perceber até que ponto Lisboa influenciou a tour que apresenta “Madame X”, o último álbum da cantora. Já sabia que haveria referências às tradicionais casas de fado, mas que outras particularidades do universo português poderiam fazer parte do espetáculo? Será que teríamos um momento dedicado aos tão típicos carteiristas do Elétrico 28? Ou uma coreografia que simbolizasse as dificuldades nas ligações norte à Ponte 25 de Abril com fila pelo Eixo Norte-Sul desde a zona do Aqueduto das Águas Livres, e pela A5 no acesso da Pimenteira?

Os meus pensamentos foram felizmente interrompidos pelo segurança que me revistou à entrada do recinto, com um detetor de metais, e me pediu que colocasse o meu telemóvel em modo silêncio, numa bolsa que ficaria selada e apenas poderia ser aberta num local próprio para o efeito, em caso de emergência. Dito assim parece bastante dramático, mas a verdade é que durante duas horas e meia, todos estivemos isolados do mundo e estranhamente ninguém morreu. Vários cartazes à porta anunciavam aos mais distraídos que aquele era um evento sem telemóveis, “phone free show” surgia em letras grandes. Admito que tenha havido uma ou outra influencer com ataques de pânico passado meia hora por não poder consultar o seu feed, mas as pessoas normais aguentaram-se bem. Já na sala, apesar do calor e de uma plateia com lugares sentados, o ambiente era animado. Um X projetado ocupava todo o pano vermelho do palco, no qual quatro músicos tocavam em unplugged e davam o mote para um espetáculo inevitavelmente mais intimista. Gaspar Varela na guitarra portuguesa,  a trompetista Jéssica Pina, o guitarrista Miroca Paris e o percussionista Carlos Mil-homens iam dando as boas-vindas a uma plateia repleta de estrangeiros que acompanhava em coro, cada vez que ouvia uma interpretação de um tema da artista, como por exemplo “Who’s that girl”.

Artists are here to disturb the peace

O quarteto abandonou o palco e, apesar de ninguém ter telemóveis, sentia-se uma vibração. Às 22h começaram aquelas palminhas nervosas em cadência repetitiva, como que a pedir “andem lá com isso”. Há uma expetativa grande para que comece o espetáculo que “no domingo arrancou às 09h50”, dizem ao meu lado, em tom impaciente. Finalmente o Coliseu desponta em aplausos ao ouvir a voz da própria Madonna, em off, que agradece a presença de todos e pede “let nothing stand between us”, uma forma de dizer: “Se conseguiram entrar com câmaras ou telemóveis à socapa, estilo prisão do Linhó, por favor não os usem. Ou seja, mantenham-nos no orifício corporal onde os esconderam”.  Madonna termina o seu anúncio com um último aviso: “remember: none of this is real.”

O show começa com um momento coreografado e com recurso a uma projeção que ocupa todo o palco, dois aspetos que serão uma constante durante toda a atuação e que juntamente com um cenário amovível e mutante dão o mote para um tournée mais familiar, que contrasta com o habitual aparato das grandes arenas ou estádios. “Artists are here to disturb the peace”, uma frase do escritor James Baldwin que é projetada na tela ao som de disparos e que será recuperada várias vezes pela Madame X, ao longo de todo o espetáculo.

Enquanto peça artística, este formato é muito mais atrativo e ao mesmo tempo dá aos fãs a oportunidade de estarem mais perto da artista. E quando digo mais perto quero dizer literalmente estar ombro a ombro com Madonna, como aconteceu a um fã alemão ao lado do qual a cantora se sentou para conversar um pouco. O diálogo não foi muito fluido, atendendo a que o fã estava prestes a colapsar de nervosismo, mas a artista tentou colocá-lo à vontade. Elogiou o outfit do senhor — este sim com um sutiã metalizado em bico e uns calções coloridos — cravou-lhe o resto da cerveja e regressou ao palco. Apesar de ter ficado sem bebida e não ter podido registar o momento com uma selfie, imagino que ainda hoje este senhor esteja em nervos. Foi um dos momentos interativos do concerto, em que Madonna se aproxima do seu público e o torna personagem do universo da Madame X. Esta figura que se assume como uma mulher de múltiplas personalidades é um alter ego da própria artista que se desdobra em palco e volta a confirmar que, aos 61 anos, é mesmo a rainha da pop.

Madonna dança, toca guitarra, sobe escadarias, sobe para cima de pianos, faz o pino dentro de uma “roda de rato” e em simultâneo ainda canta irrepreensivelmente — com a exceção vá, da parte em que se estreou no fado, mas já lá vou.

Um concerto de órgãos

“What do you call a man whith a smal pennis?”, pergunta em mais um momento de conversa com a audiência. Alguns fãs respondem Donald Trump e Madonna responde: “I wouldn’t know, because I’ve never been with one…caralho!” Como todos as pessoas que vivem num país estrangeiro, Madonna aprendeu primeiro as asneiras, embora confesse que é a única “bad word” que sabe em português. Agora já sabemos para onde é que a artista mandou o presidente da Câmara Municipal de Sintra quando este a proibiu de filmar um videoclip com um cavalo a entrar num palacete.

Ainda durante esta amena cavaqueira com o público, acontece o momento mais inusitado do espetáculo. Por trás de um biombo, Madonna usa a metáfora dos olhos como janelas para conhecer o mundo e explica que também há outras janelas, momento no qual abre as pernas e anuncia que o excerto de Mozart que estamos a ouvir nas colunas está a sair da sua vagina. Apesar de fazer algum sentido ser música clássica, uma vez que estamos perante o pipi de uma sexagenária, foi só um momento estranho. E eu devo assumir que já vi algumas coisas que não esperaria que pudessem entrar numa vagina, quanto mais sair — sou uma pessoa com algum tempo livre, pronto —, mas uma peça de Mozart confesso que foi a primeira vez. Será que funciona com bluetooth?

Não aceitamos pagamentos com cartão

No final do clássico tema “Vogue”, um dos poucos hits que fazem parte do alinhamento, Madonna tira uma selfie com uma máquina polaroid. Sendo a única selfie que alguém conseguiu tirar dentro daquela sala, mas principalmente sendo da própria Madonna, estamos perante um artigo muito apetecível a fãs e colecionadores. Madonna sabe disso, por isso, enquanto coloca a fotografia no meio das pernas para ver se apressa a revelação, brinca: “This is a hot pussy” — depois anuncia que vai fazer ali mesmo um leilão de caridade. “Quem der mais, leva esta foto para casa”, diz, desafiando as pessoas para irem até junto dela e fazer negócio. 

Depois de alguma hesitação inicial, começamos a ver uma movimentação na plateia para dar espaço a um primeiro interessado. “How much have you got?”, pergunta sem rodeios a cantora. O senhor diz que tem uma quantia avultada em cartão de crédito, mas Madonna rejeita e diz que só aceita pagamentos em dinheiro. Provavelmente o senhor pensou que já que toca música clássica e revela fotografias, se calhar passando na ranhura também dava para fazer pagamentos, mas afinal não. Depois lá apareceu outro fã que ofereceu 300€, o que Madonna achou uma ninharia e finalmente a fotografia acabou por ser arrematada por 1.000€ por um senhor espanhol chamado Juan — e que hoje já deve estar a vender a foto no ebay por 2.500€ com o título “Exclusive Madonna polaroid selfie that has been in her hot mozart playing pussy”. Eu clicava. 

Silêncio que se vai “cantar” o fado

No terceiro ato de “Madame X”, soldados transportam em ombros pelo palco um caixão coberto com a bandeira dos EUA,  enquanto um vídeo com imagens do mapa mundo, caravelas e mar fazem a alusão aos Descobrimentos. É o mote para a atuação da Orquestra de Batucadeiras de Cabo Verde que entram pela plateia, trajadas a rigor e com uma energia que põe toda a gente a dançar de pé. Os sons, cores e ritmos da lusofonia enchem o palco de uma das maiores artistas internacionais e com ela Portugal começa a desenhar-se como fonte de inspiração para este espetáculo, que conta ainda com a participação de Dino de Santiago com quem mais à frente iria cantar “Sodade”, numa homenagem a Cesária Évora.

Madonna volta a estar sozinha em palco, só connosco, e explica como foi viver os três últimos anos em Portugal. Assume que é uma “soccer mum” e que foi o seu filho David que a convenceu a vir para Lisboa, para treinar no melhor clube do mundo — esta última descrição fui eu que acrescentei, mas percebeu-se claramente pela forma como ela disse a palavra Benfica que a Madonna concorda comigo. Ou seja, como já se sabe, a culpa é do Benfica! A cantora descreveu que apreciava andar de cavalo na Comporta, beber a sua Amarguinha e Porto branco gelado, mas faltava-lhe um sentido de comunidade, de grupo, amigos com quem pudesse partilhar a experiência. Foi uma amiga colombiana que a levou um dia a sair e lhe deu a conhecer as casas de fado de Lisboa, onde a rainha da pop conheceu Celeste Rodrigues, a irmã da rainha do fado. O resto é história que já conhecemos, Madonna apaixonou-se por Lisboa, pelo fado, pelas mornas e pelo funaná. Lamentou a morte de Celeste Rodrigues de quem disse ser uma “pessoa extraordinária” e aproveitou para chamar ao palco o bisneto da fadista, Gaspar Varela, músico que toca guitarra portuguesa e acompanha a cantora nesta tournée.

Madonna explica que Celeste lhe ensinou um fado e, para surpresa dos fãs, anuncia que vai arriscar cantá-lo. “Querem?”, pergunta a uma plateia entusiasmada. “Querem mesmo?” O público grita que sim e Madonna estreia-se em Lisboa como fadista, com uma quadra do “Fado Pechincha”, um clássico imortalizado por Celeste Rodrigues. No final, o público aplaudiu efusivamente, mas no fundo todos pensámos o mesmo: a morte de Celeste Rodrigues foi uma grande perda, sim senhor, mas por outro lado sempre poupámos a senhora de ter de ouvir aquilo. Digamos que a Madonna tem o mesmo jeito para cantar fado, que eu para jogar dardos de olhos fechados. Ainda assim, consegue cantar fado melhor do que, pelo menos, três membros da família Câmara Pereira.

Depois deste momento divertido, o cenário transforma-se numa casa de fados muito estilizada — quase como um género de cópia viva do quadro “O Fado” do pintor José Malhoa — que serve de espaço para ouvirmos mais alguns temas do novo álbum, maioritariamente com sonoridades latinas.

And it feels like Home

“Like a Prayer” é o tema escolhido para encerrar o concerto, pelo menos até ao momento em que regressará para o encore e para se despedir em definitivo do público do Coliseu. Acompanhada pelas incríveis cantoras que a apoiam durante todo o espetáculo, Madonna termina a canção dando destaque ao verso “and it feels like home”, como que a dar a entender que apesar de já não viver cá, em Lisboa ainda se sente em casa.

Foi bonito, o Coliseu aplaudiu de pé e na plateia Fernando Medina chorou emocionado por já não ter a estrela pop como sua munícipe. Já eu, fiquei contente por poder assistir a um espetáculo que é realmente único, mas acima de tudo surpreendido por conseguir ler todas as notas que escrevi às escuras, no caderno que levei. Ok, não é tão impressionante como tocar Mozart pela xaroca, mas é o que temos e como diria a Madame X “artists are here to disturb the peace”, que é como quem diz, quem dá o que tem a mais não é obrigado.