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Música

Jamie Cullum: “Está no sangue do público português querer dar tanto quanto o músico”

Atua no EDP Cool Jazz em julho. Nessa altura já terá um disco novo para os fãs que descreve como “muito apaixonados”.
Foto de Mark Allan/Facebook de Jamie Cullum.

O maior erro que podemos cometer ao falar de Jamie Cullum é descrevê-lo como músico de jazz. Ele é isso, claro, mas muito mais. Compôs “Gran Torino” para o filme de Clint Eastwood com o mesmo nome; tem versões alternativas de sucessos tão diferentes como “Don’t Stop the Music”, de Rihanna, ou “High and Dry”, dos Radiohead; colaborou com Luísa Sobral na faixa “She Walked Down the Aisle”; e, nos concertos, nunca tem o alinhamento definido à partida. Corre no palco, salta para cima do piano, toca tambor, puxa pelo público tema sim, tema sim. No final da noite, ele fica esgotado, quem o vê sabe que acaba de receber muito mais do que aquilo que esperava.

Aprendeu a tocar piano e guitarra aos oito anos e, aos 39, o britânico tem a capacidade de criar uma energia indescritível, só possível quando, como o próprio explica, a plateia retribui exatamente com o mesmo empenho. O reencontro com os portugueses está marcado para 20 de julho no Hipódromo Manuel Possolo, em Cascais, e faz parte do cartaz do EDP Cool Jazz, onde Cullum já esteve quatro vezes.

Por lá, jura à NiT, já se sentiu mais assoberbado do que numa tournée de várias semanas no Reino Unido. Quando voltar, já terá para apresentar temas do novo álbum, previsto para antes do verão.

Não edita nada desde “Interlude”, de 2014. Tudo porque precisou de se dedicar à família. É casado com Sophie Dahl, ex-modelo que agora escreve livros de culinária e histórias para miúdos (talento que, provavelmente, herdou do avô, Roald Dahl, autor dos míticos “Charlie e a Fábrica de Chocolate” e “Matilda”), e com ela tem duas filhas, Lyra e Margot. Vivem no campo, na área de Buckimgamshire, perto de Londres, e foi de lá que Jamie Cullum falou ao telefone com a NiT.

Antes de “Mixtape”, “All At Sea” ou “When I Get Famous” voltarem a ouvir-se em Cascais — ainda vai a tempo de comprar bilhetes —, leia a entrevista. 

Há cinco anos que não edita um álbum de originais, os fãs começam a ficar desesperados. Para quando podem esperar novidades?
Ainda não falei muito sobre o álbum a ninguém, tenho de organizar os meus pensamentos. Não fiz propriamente uma pausa, tinha muitos concertos. Agora tenho feito menos espetáculos porque as minhas filhas são muito novas e eu quero ser bom pai [risos]. Fiz algumas coisas que não amei e tive de dar uns passos atrás, dei a mim próprio alguma folga para escrever. Também tive algumas coisas na minha vida pessoal para resolver, com membros da minha família que, felizmente, estão bem agora. Antes que desse por isso, passaram alguns anos mas agora este álbum está feito e sairá antes do verão.

Isso significa que, quando regressar a Portugal, já terá novidades para apresentar?
Exatamente. Está terminado, estou muito orgulhoso e sinto que tem profundidade. Sinto que lhe dei o tempo necessário, apesar de não ter planeado esse tempo. Em vez de ficar obcecado, permiti a mim próprio respirar. As nossas conquistas não são necessariamente sempre conquistas profissionais, passam também pelo tipo de marido que somos, o tipo de pai, o tipo de amigo. Toco em muitas dessas coisas no disco, são tomos temas meus e acho que são muito fortes.

“As promotoras não têm noção de que os meus concertos são energéticos. Querem ter lugares sentados”

Nos últimos anos esteve em Portugal dezenas de vezes. Além do EDP Cool Jazz, já atuou no Porto e em Lisboa. Qual é a primeira memória que lhe vem à cabeça?
Tenho uma história para si. Fizemos uma tournée no Reino Unido durante duas ou três semanas. Tocámos todas as noites em cidades diferentes. Foi ótimo, os concertos estavam esgotados, o público batia palmas e cantava. Fizemos o nosso último concerto, em Londres, e metemo-nos no autocarro da tour durante a noite em direção a Lisboa. Chegámos na manhã seguinte, estava sol, fui beber um café, fizemos o soundcheck. Depois, quando entrei em palco, o público era mais barulhento do que todo o público junto da nossa digressão no Reino Unido. As pessoas estavam empolgadas, batiam palmas, dançavam. Foi incrível. Fez-me sentir acarinhado, fiz amigos a sério em Lisboa. Cada vez que volto tem sido assim, seja em Cascais, no Porto, em Lisboa. Têm ótimos festivais, as estações de rádio passam a minha música, os fãs na rua são apaixonados e quentes.

Chateiam-no muito na rua?
Sim mas de uma forma muito cool.