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Música

Flak: “Só entrávamos no Kremlin às oito da manhã porque trazíamos sacos cheios de dinheiro”

O histórico músico dos Rádio Macau lança a 19 de outubro "Cidade Fantástica", o seu novo disco a solo. Leia a entrevista de vida à NiT.

Flak, pseudónimo de João Pires Campos, é daquelas figuras que parecem ter feito sempre parte do imaginário do rock português. Com um disco a solo prestes a ser lançado — “Cidade Fantástica” sai no dia 19 de outubro — o fundador e guitarrista dos Rádio Macau, de 57 anos, deu uma entrevista de vida à NiT.

Ele fala sobre tudo: o dia em que se mudou para casa de Xana, na altura namorada, quando ela tinha apenas 14 anos e ele 18, os tempos loucos de estrada, com os excessos obrigatórios de uma rock star, os tempos do Johnny Guitar e a cena de pancadaria com a melhor amiga de infância a meio de um concerto.

“Cidade Fantástica”, porquê este nome para o disco?
Cidade fantástica é o começo de uma letra que não está no disco. Foi uma das músicas que ficou de fora. Eu tinha imensas canções. Quando apresentei as demos ao Walter Benjamim [o produtor do disco cujo nome verdadeiro é Luís Nunes] e ao resto do pessoal, mostrei umas 18. Acabámos por gravar dez.

Porquê?
Gravámos as bases rítmicas no meu estúdio aqui na Rua do Olival, e quando íamos fazer mais algumas músicas fiquei sem estúdio. Como já tínhamos dez gravadas, foram estas que ficaram. Não foi uma opção estética, foi mesmo porque o senhorio não me renovou o contrato.

Foi “gentrificado”?
Agora estou a pensar montar o meu estúdio na zona do Meco. Tenho uma casa em Alfarim, ainda ontem (na semana passada) estive lá com a minha mulher. Quando estávamos para regressar, o carro avariou e estivemos até há pouco tempo à espera que chegasse uma peça. Por pouco não tinha conseguido chegar a tempo desta entrevista. 

Nota-se bem a influência de Benjamim no single “Sol da Manhã”. 
A minha ‘demo’ era totalmente diferente e o Benjamim fez um beat, com aquele groove tão característico dele. É a única que não tem bateria acústica. Há muito que faço produção para outras pessoas, mas gosto principalmente de compor. E é bom ter o input de outras pessoas nos arranjos, caso contrário isso limita-me porque estou sempre comigo próprio. Temos de sair um bocadinho de nós.

Já tinham trabalhado?
Fizemos um concerto no Musicbox há uns tempos, numa altura em que eu estava com planos de reeditar o meu primeiro disco a solo, de 1998. A ideia tinha partido de amigos comuns. Uma vez na Casa Independente jantamos e decidimos refazer uma das canções, o “Azul e Azul”. Como resultou, acabei por lhe ligar a desafiá-lo a produzir o meu novo disco. 

Este disco foi um regresso às canções? Foi compondo e percebeu que tinha um disco ou decidiu começar do zero com um objetivo concreto?
Há dois anos decidi começar a compor com um método diferente: fazer a musica e ter uma ideia para a letra, colocar logo as palavras. Quando temos uma canção e decidimos meter-lhe uma letra, aquilo vai para um lugar completamente diferente. Não queria ter esse embate, de deixar passar o tempo. A letra muda completamente a atmosfera de uma canção. Foi preciso chegar a esta idade para perceber isto, não me vejo a fazer as coisas de outra forma (Risos).

O disco está pronto mas deixou o lançamento para outubro. É um som de inverno?
Não sei. Não é um disco super alegre, não tenho tendência para fazer isso, mas não sinto que seja uma coisa muito invernosa. Algumas musicas podem ter esse ambiente. Tínhamos outro single para lançar que foi filmado em Fevereiro, mas pensei que não fazia sentido lançar o video nesta altura, porque o ambiente é mais dark e invernoso. Estava deslocado no tempo. Era como aparecer nas fotografias de promoção vestido de sobretudo. Parece que nos atrasamos no lançamento. 

Passou muito tempo em estúdio?
Com o Benjamim combinávamos duas semanas de trabalho seguidas, depois parávamos um ou dois meses. Fomos trabalhando por camadas, gravando coisas em cima do que já tínhamos. Passávamos três dias intensivos com uma canção sem saber muito bem em que direcção seguir, depois parávamos uns tempos. Quando voltávamos a ouvir percebíamos que afinal aqueles três dias tinham dado resultado.

Às vezes é preciso ‘lavar os ouvidos’.
É preciso esperar, ouvir com calma. Não foi a mesma coisa de ir para um estúdio com tudo planeado. Fomos aprendendo as musicas e gravando. Os músicos que me acompanharam também trocaram de instrumento. Eu gravei guitarras e teclados, foi um processo com uma liberdade enorme. Tento sempre deixar a coisa fluir e só endireito quando começa a fugir muito da ideia inicial. 

Antes desta entrevista estive a ouvi-lo cantar o “Satellite of Love”, do Lou Reed, em 1994, numa discoteca em Pombal. Recorda-se?
Onde é que isso está? Não me lembro nada disso. Talvez tenha sido na altura em que a Xana fez um disco a solo. Fizemos uns concertos e no encore eu cantava uma ou duas musicas.

 

Escola Primária: apesar de ser canhoto, Flak segurou a caneta com a mão direita.

O Flak nos Rádio Macau, e noutros projetos, raramente cantava. Como se sente nesse papel?
Talvez não tivesse sido má ideia ter começado a praticar mais cedo (risos). Foi uma mistura de preguiça e circunstâncias da vida, os compromissos com Rádio Macau, depois com Micro Audio Waves. Entretanto passaram 15 anos. Mas sempre gostei cantar.

Vive em Campo de Ourique. Como é que tem sentido a cidade?
Triste, com a cidade e com Campo de Ourique. Perdeu a vida de bairro: misturava uma certa elite com um lado muito operário, das vilas antigas, com o casal ventoso em baixo. Quando vim para cá ia a tasca em frente da minha casa, havia snooker e máquinas, o pessoal do ‘casal’ jogava matraquilhos com os betos. E isso esta a desaparecer a um ritmo alucinante. Há dias, a caminho de um concerto, parei numa área de serviço e li numa revista uma frase na capa que me irritou muito: “Campo de Ourique, bairro francês”. Agora as tascas são croissanteries, como a Venezuela, que era um clássico. E é tudo falso porque transformam-se coisas portuguesas em produtos híbridos. Como dizia o Fausto: mateus rose é vinho português, só que não é vinho, é refrigerante. A nossa identidade está a tornar-se um refrigerante. Gosto imenso da cidade, não tenho nada contra a cena cosmopolita, que venham os turistas, tragam dinheiro. Mas não suporto este lado saloio e novo rico de quem quer ganhar dinheiro a todo o custo, sacrificando a própria identidade.

Embora tenha nascido nos Anjos, foi para a periferia com quatro anos. Crescer num subúrbio influenciou-o?
Foi aí que nasceram os Radio Macau. Vivi até aos quatro anos no bairro e depois a minha família comprou uma casa em Mem Martins. As casas lá eram baratas, e foi onde fiz a escola primaria e o liceu, e onde conheci os membros dos Radio Macau.

Não era o subúrbio que hoje conhecemos.
Na altura só tinha quintas. Ia para a escola primária, passava por uma azenha com um burro a andar a volta, a minha mãe ia todos os dias comprar o leite perto de casa, a uma vacaria. Felizmente saí quando aquilo se começou a degradar mais. Vivíamos os quatro, eu, os meus pais e a minha irmã.

Era bom aluno?
Sim, nunca chumbei. Mas apanhei o 25 de Abril com 13 anos e partir daí deixou de haver aulas. Comecei a tocar e gradualmente fui desistindo da escola. Também não havia escola, estava sempre em greve, os alunos, os professores. Na altura, a caminho da escola passava sempre na casa de um amigo que tinha uma quantidade imensa de instrumentos numa cave. Trabalhava na ONU, ganhava bem e não gastava muito, por isso comprava imenso material. Ou ia para a escola ou para casa dele. Escolhia sempre tocar. Acabei o 12.º já em Lisboa.

E em sua casa, havia música?
Alguma, mas quem tinha mais musica era o meu avó paterno, que vivia no Campo Pequeno, onde hoje é a Culturgest. O meu tio tinha muito jazz e no final dos anos 60 comprou um gravador de bobine da Akai. Gostava imenso de ir para lá, passava imenso tempo a meter as bobines. Foi aí que comecei a ter o gosto pela musica: o meu tio tinha jazz, ouvia Bob Dylan, o meu avô gostava de Zeca Afonso, Zé Mário Branco, os clássicos franceses. Ainda tenho o gravador, e às vezes uso para fazer uns efeitos, uso como instrumento.

Começou por tocar bateria?
Foi o primeiro instrumento. Na escola tocava muito nas mesas e cadeiras. Em casa dos meus pais, montava sets de percussão com caixas e sapatos e taças, e lembro-me de tocar aquilo e escrever os patterns num caderno para me lembrar como se tocava.

E como passou para a guitarra?
Foi por necessidade. Sentia falta de composição. E comecei a tocar guitarra para poder explicar melhor as minhas ideias. Mas gostava mais de bateria.

Como conheceu a Xana e o Alex, dos Radio Macau?
O Alex conheci-o com 14 ou 15 anos. Éramos colegas de escola mas foi um amigo que tocava comigo que nos apresentou. Um dia precisámos de um baixista. A Xana conheci-a quando ela tinha 13 anos, eu 17. Ela já era grande e super precoce. 

Ela entrou logo para a banda?
Na altura, eu andava sempre com a guitarra e um dia fomos passear para Sintra. Perguntei-lhe se queria experimentar cantar umas coisas, tinha umas ideias. Vínhamos para Lisboa bater a porta dos bares e o pessoal achava piada, porque éramos miúdos, umas crianças de 15 e 17 anos. Tínhamos canções nossas, arranjávamos imenso trabalho. Ainda há dias encontrei o Paulo Carvalho e falámos sobre isso. Tinha um bar chamado Pintado de Fresco, que era dos Sheiks, com o Carlos Mendes, e eles gostavam de nos ouvir tocar. Tínhamos lata, era tudo canções nossas. Não tocávamos o suficiente para fazer versões dos outros. 

Flak (lado esq.) com Rádio Macau, no princípio dos anos 80.

Algumas chegaram a ser usadas em Rádio Macau?
Acho que não. Usávamos muitas canções que eram dos Crânio, que era a banda que formei com o Alex. Havia canções gravadas em cassete mas isso perdeu-se tudo. Algumas regravámos para uma edição especial da revista Blitz. 

Mas já tinham ambições? Sentia que a coisa podia explodir?
Eu era o único que tinha decidido ser musico. Fazer aquilo que me apetecia. Nunca gostei de me levantar cedo ou ter horários. Se eu fizesse alguma coisa que não gostasse havia de ser um incompetente, não consigo concentrar-me em tarefas que não gosto de fazer. Também não tenho muito jeito para receber ordens. Ia correr mal. O melhor era ser musico, compor e dirigir as coisas. E tanto o Alex como a Xana  sempre tiveram muita iniciativa e força pessoal. O Alex é cheio de ideias, sempre gostou de produzir concertos, era ele que fazia os cartazes. E a Xana é daquelas pessoas que levam a coisa até ao fim, são duas pessoas com muita persistência.

Tinham dinheiro?
Quando começámos a vir tocar para Lisboa, eu e a Xana, andávamos sempre sem dinheiro. Os pais separaram-se quando ela tinha 14. E ela decidiu não viver com nenhum, mas ficou com a casa, uma vivenda com dois andares, sozinha. Mudei-me para lá, fizemos uma sala de ensaios e era ali que tocávamos. Éramos namorados. E foi assim que nasceram os Radio Macau.

De onde veio o nome?
Tínhamos um amigo do Algueirão, muito beatnik, daqueles que liam revistas estrangeiras, tinham discos importados e eram muito cultos. O  pai de um deles trabalhava num banco em Macau. Tinha um programa na Radio Macau e uma vez apareceu  vestido com uma T-shirt da Rádio Macau com caracteres chineses. ‘Pronto, é isto. Fica já.’

Foram apanhados de surpresa quando perceberam que estava a pegar?
Antes de gravarmos o primeiro disco já estávamos com um certo hype, tínhamos algum air play e fazíamos bastantes concertos. O maxi single, produzido pelo carlos Maria Trindade dos Heróis do Mar, foi um sucesso de rádio. Mas já tínhamos tocado em Berlim, Barcelona, arranjámos um agente espanhol. O Elevador da Glória, em dezembro de 1987, há 31 anos, foi o ponto mais alto.

E a sua família, como reagiu à decisão de ser músico, de sair de casa tão novo?
Um dia o meu pai teve uma conversa comigo: “tu não fazes nada, acordas tarde, não vais a escola, o que andas a fazer?” “Sou músico, estou a preparar um disco. Não o viste porque ainda não esta pronto.” Fui orgulhoso, decidi retirar-me quando fui viver com a Xana. Não havia dinheiro. Casa tínhamos, só não tínhamos dinheiro para comer. Em Lisboa vendíamos garrafas com deposito, e coisas desse género. Houve ali uma fase, entre os 18 e 20, que estávamos completamente lisos. 

E tudo mudou com Rádio Macau…
No ano de “O Elevador da Gloria” fizemos 60 ou 70 concertos,  ganhávamos mais do que um bom cachet nos dias de hoje. E eu chegava ao fim do ano e ainda ia pedir emprestado aos meus pais. Foi nessa altura que me mudei para Campo de Ourique, para viver com a minha atual mulher. Chegava a casa e ela: ‘O que vamos jantar?’ ‘Vamos jantar fora.’ Íamos ao Velha Goa, bebíamos bons vinhos, gins tónicos no Frágil, nem tinha noção. A minha mãe dizia-me ‘junta para mais tarde’. ‘Pago quando começar a tour do próximo ano.’ (risos)

Nunca quis ter filhos?
Não aconteceu. Talvez por egoísmo, e eu também nunca fiz muita força para isso. Até porque achava que se tivesse filhos iria ter que fazer coisas que não gosto para ganhar dinheiro. Vivo há 30 e tal anos com a minha mulher, temos os dois 57 anos, e portanto já não temos idade para isso.

A sua geração passou um mau bocado com a chegada da heroína a Portugal. Também correu no vosso meio?
No Algueirão morreram imensos amigos, foi uma fase horrível. Nos tínhamos a cena de fumar erva depois do jantar. Mas não abusávamos porque não tínhamos muito dinheiro Depois a erva começou a desaparecer, no final dos anos 80, desapareceu tudo até que surgiu a heroína. Foi uma coisa induzida, ninguém sabia o que era. ‘Não tenho ganzas mas safo-te aqui outra coisa.’ E isso agarrou muita gente. O amigo que me apresentou o Alex tornou-se dealer. Ia a casa dele e comecei a ver que a relação entre as pessoas era estranha, aquela cena de miúdos já não existia. Ele era o dealer.

Experimentou heroína?
Um dia quis perceber o que era aquilo, por que razão gostavam tanto. Apanhei uma grande pedra de cavalo e pronto. ‘Ok, já sei, mas isto não é para mim.’ Não tenho essa cena. Experimentei as drogas todas, mas de forma recreativa e por curiosidade, nunca fui adicto. ‘Um ácido? Deixa-me experimentar.’ No dia seguinte não volto, não gosto. Nem de coca: sou capaz de ir a uma festa e dar um cheiro mas não guardo um bocado para o dia seguinte. Aquilo faz-me funcionar de forma diferente. No outro dia já detesto, altera-me a cabeça, reajo mal. .

Uma relação saudável com as drogas?
Mais ou menos isso, gosto de experimentar o efeito. Antigamente não recusava. Nos Rádio Macau nunca houve dependências, pelo menos enquanto estivemos em atividade. O que acontecia nos anos 80 é que toda a gente bebia imenso. Além das drogas, muitos músicos desses tempos ficaram alcoólicos, com problemas de fígado. Era o País da altura. Nos primeiros concertos no norte, havia tipos que andavam atrás de mim: ‘o que é queres beber? o que tu bebes?’ Era um troféu: ‘os gajos vieram aqui, apanharam um grande bebedeira e saíram de rastos’. Já tinham uma história para contar.  Até nisso tenho sorte, nunca tive problemas de alcoolismo. É a minha maneira de ser.

Na altura havia vários bares que hoje são a história do rock. Lembra-se do Johnny Guitar?
Era o café do bairro. Ao fim de jantar e dava lá um salto, mesmo sem combinar aparecia toda a gente. Curioso, toquei lá imensas vezes, mas nunca com Rádio Macau. Atuei com os Máquina do Almoço dá Pancadas, Cavacos, Palma’s Gang. O Johnny Guitar tinha três socios: o Alex, Kalu e Zé Pedro. Era o sitio mais mal gerido do mundo, toda a gente bebia a borla. Fechava as quatro da manhã, depois o pessoal ficava a beber até as oito ou nove. A malta dos outros bares ficava escandalizado com a quantidade de gente que parava lá, e com uma faturação irrelevante.

Com Carlos Morgado, com quem formaria os Micro Audio Waves.

Alguma vez se aventurou num negócio desse género?
Não porque na altura todos bebíamos muito. Das duas uma: ou não bebia, e não tinha razão nenhuma para não beber, ou então bebia ainda mais e não fazia sentido. Esses tempos eram a loucura. O Alex fazia umas festas em Xabregas que duravam até às oito da manhã. Cobrava-se entrada e saíamos de lá com sacos cheios de dinheiro, notas e moedas, e íamos para o Kremlin, batíamos à porta, com um saco plástico carregado de dinheiro Só nos deixavam entrar por causa disso. Chegávamos ao bar, pousávamos o dinheiro em cima do balcão, e pedíamos seis vodkas. Era rock’n’roll. Ninguém pensava em dinheiro porque havia muito.

Os Rádio Macau estão congelados? 
Sim. A Xana foi tirar Filosofia, cansou-se daquela vida de estrada, de andar para cima e para baixo com concertos. Quis mesmo mudar de vida, relacionar-se com outras pessoas, ter outros amigos que não fossem músicos. Não toca, não canta, tive a guitarra dela, uma Martin incrível, emprestada até há bem pouco tempo.

Continuam amigos? 
Sim, claro, continuamos a combinar jantares, vamos a casa uns dos outros. Não pomos de parte um dia fazermos uns concertos mas nunca seria um regresso. Temos vidas diferentes, outros interesses. Para isso teria de me embrenhar e viver durante uns tempos para aquilo, ou então não faz sentido. O lado nostálgico não me interessa nada. Depois não faz sentido regressar sem ser em força, teria de ser uma coisa bem feita, com o tempo de toda a gente. Se algum dia nos apetecer fazer isso tudo bem, mas voltar ao que era não faz sentido. Já convidei a Xana para cantar nos meus concertos, e ela gosta, mas entretanto passaram dez anos e varreu-se tudo.

O que aconteceu naquele palco entre o Flak e a Xana? Zangaram-se a meio de um concerto?
A Xana tinha bebido um bocado de mais e não cantou durante o concerto inteiro. Cantava um bocadinho, depois afastava-se e andava de um lado para o outro. Estavam milhares de pessoas num campo de futebol e ela ali as voltas. Quando chegou a última música, já eu cheio daquilo, vi que a Xana não estava a cantar o Anzol e decidi cantar. Quando passo por ela faço-lhe uma rasteira, mas não foi propositado, foi mais naquela de “o que é que estás para aí fazer?”. Somos amigos de infância, desde os 12 anos. Só que ela caiu ao chão. Pensei logo que estava tudo estragado. Ela levanta-se, dá-me um murro e sai de palco toda chateada. O problema foi que alguém filmou. Uma merda, fez parte da silly season desse ano.

Qual foi seu concerto mais memorável?
Tivemos concertos muito maus e muito bons. Um dos mais incríveis foi na Festa do Avante!, no Alto da Ajuda, ao fim da tarde, para 80 mil pessoas. Pessoas a perder  de vista, na altura do Elevador da Glória, em 1988. Estávamos a tocar essa música, era a última, fazemos uma quebra para o pessoal cantar, eu chego-me à frente e salto para o público. Cena de estrela de rock (risos). A ideia era voltar ao palco para o refrão final. Mas quando tento entrar pela porta lateral, vem o segurança e berra-me: ‘o que está a fazer?’ Vinha a tocar, só que ele estava dentro da cerca e não sabia quem eu era. Acabou com toda a gente a cantar. E eu do lado de fora (risos).