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Música

Crítica: Travis Scott deixou Lisboa em fogo (e também ninguém quis mandar água)

O rapper americano foi o cabeça de cartaz no dia dedicado ao hip hop no Super Bock Super Rock.

O rapper do Texas incendiou a Altice Arena.

Travis Scott é um dos maiores nomes do trap mundial — o subgénero do rap que é mais eletrónico, hedonista e agressivo — e isso provou-se no dia dedicado ao hip hop nesta edição do Super Bock Super Rock, sexta-feira, 20 de julho, com uma Altice Arena cheia. O rapper do Texas era o cabeça de cartaz e foi uma aposta ganha, a julgar pelos milhares e milhares de fãs que não pararam um minuto durante todo o concerto.

No NOS Alive sentimos a falta daquela energia visceral típica do rock n’ roll durante os concertos — onde havia demasiados telemóveis no ar, ora virados para o palco ora em modo selfie. Encontramos esse espírito meio perdido do rock (talvez na idade e maturidade dos fãs) nalgum hip hop de hoje. A atuação de Travis Scott foram uns 50 minutos de mosh pits quase ininterruptos, energia pura, suor, grande parte do público de tronco nu e poucos telemóveis no ar — um dos que havia foi mesmo mandado pelo ar em direção ao palco, o mote perfeito para o rapper cantar o seu tema “Pick Up the Phone”.

Travis Scott tem no currículo dois álbuns a solo, “Rodeo” e “Birds in the Trap Sing Mcknight”, e lançou nos últimos meses o disco “Huncho Jack”, em colaboração com Quavo, rapper dos Migos. Estará quase a lançar o seu terceiro trabalho de originais, “Astroworld”, anunciado há muito. “Está a chegar em breve”, prometeu aos fãs portugueses. Mesmo antes de atuar, o público já estava conquistado, pronto para uma dose de adrenalina: foram alguns anos de espera pela estreia desta estrela do rap em Portugal.

Aquele que também é conhecido como La Flame apresentou-se num palco com verdadeiras chamas de fogo e uma torre de ecrãs com imagens projetadas. No topo estava o seu DJ que, ocasionalmente, foi o MC entertainer da festa. Foi o concerto mais fiel a si próprio que Scott poderia ter dado — não desiludiu, ao contrário de vários rappers, sobretudo mais próximos do trap, que têm a dificuldade de passar as músicas dos álbuns para os palcos sem perder a qualidade.

Travis Scott é um dos mais habilidosos a usar a ferramenta do auto-tune — que torna a voz eletrónica e aperfeiçoa as melodias — e soube usá-lo durante toda a atuação, quase sem vozes gravadas por trás e uma energia que até o deixou sem fôlego durante alguns momentos. O alinhamento passou por temas como “Sweet Sweet”, “Through the Late Night”, “Motorcycle Patches”, a explosiva “Mamacita” ou “Butterfly Effect”, além de ter interpretado os seus versos que tem nas faixas “4AM”, de 2 Chainz, “Love Galore”, de SZA, e “Sky Walker”, de Miguel.

É incrível ver como o músico americano arrancou o concerto com “Stargazing”, uma música que não está em nenhum disco, nunca passou na rádio, não está no Spotify nem no iTunes, e o público sabia a letra de cor — simplesmente por já ter visto outros vídeos de concertos seus no YouTube. No grande hit “Antidote” o rapper foi até ao meio do público cantar com os fãs e o concerto encerrou com “Goosebumps”, onde dezenas de focos de mosh se abriram na Altice Arena e deixaram toda a gente literalmente no ar, no culminar da festa. Aqui o que interessa mesmo não são as letras, ao contrário da maioria do rap, mas antes a carga de energia.

O trap é o novo punk — o punk da nova geração, da juventude que salta, grita e canta em festa de pulmões cheios — e Travis Scott é um dos seus principais embaixadores: sabe embrulhar as suas melodias contagiantes em crescendos enérgicos de rajada, com ruído e notas distorcidas. Tão de rajada que sobraram alguns minutos no seu concerto, que terminou ligeiramente mais cedo. No final, a celebração continuou: o público foi a cantar os seus hinos pelos túneis da Altice Arena até conseguir sair da maior sala de espetáculos do País. O concerto não rendeu para se fazer muitas Instagram Stories, mas os momentos desta noite são daqueles que prometem ficar na memória coletiva.