Música

Crítica: David Byrne deu um dos melhores concertos do ano no arranque do EDP Cool Jazz

O músico foi o cabeça de cartaz do primeiro dia do EDP Cool Jazz deste ano.

O concerto tem este plano cinzento de fundo.

Depois de Nick Cave, este é provavelmente o melhor exemplo de um músico que tocou em Portugal recentemente e que é tão adorado pelo público mais conhecedor do género como pela crítica que lhe presta vénia atrás de vénia, crítica após crítica. Aos 66 anos, David Byrne mostrou toda a sua juventude artística em palco no arranque do EDP Cool Jazz, que regressou a Cascais para a nova edição.

Não é fácil para um músico que se tornou conhecido nos anos 70 e 80 reinventar-se criativamente e continuar a ser verdadeiramente relevante na música — mas David Byrne é um exemplo perfeito disso, da arte de bem saber envelhecer nesta área.

Ao vivo, o ex-músico dos Talking Heads dá um espetáculo incrível. Está acompanhado de uma grande (e muito talentosa) banda de 12 elementos num cenário que mais parece o de uma peça de teatro — não há milhares de cabos nem equipamento de som à vista, e os detalhes importam para tornar uma performance gloriosa e teatral.

Atuam todos em pé, vestidos com os mesmos fatos cinzentos — David Byrne pode ser (e é) David Byrne, claro, mas ali está de igual para igual com qualquer outro daqueles músicos. Não é fácil descrever a sonoridade do músico americano, que veio apresentar o seu novo disco, “American Utopia”, mas tocou temas de toda a sua carreira, incluindo canções dos Talking Heads, sem a pretensão de apelar a uma espécie de revivalismo. David Byrne é um homem do presente e do futuro, não uma das dezenas bandas de rock que vivem coladas ao seu passado e à nostalgia dos fãs.

Tivemos direito a ouvir “Everybody’s Coming to My House”, “This Must Be The Place”, “I Dance Like This”, “Blind”, “Burning Down The House” ou até uma versão de Janelle Monáe. A multidão — na maioria nos seus 30, 40 ou 50 anos — vai-se animando aos poucos e cantando as letras, no belo e escuro anfiteatro que é o Hipódromo Manuel Possolo.

É pop rock, sim, mas também há texturas sonoras mais eletrónicas, momentos contagiantes de puro funk, rock mais pesado, breaks de percussão e solos de guitarra — o som estava impecável e tudo é tocado ao vivo. Aliás, o cantor atuou, por causa de uma falha técnica, sem ouvir o som num auricular. O mundo de David Byrne está cheio de cores, naquele que é um concerto que também é político — o músico apela ao voto em todas as eleições e à cidadania. Ainda assim, a palavra de ordem é positiva: dançar, dançar e dançar, por um mundo melhor.