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Música

Carlão: “Olhava para as pessoas de 40 anos e pensava que estavam mortas para a vida”

O músico português lançou recentemente o seu segundo álbum em nome próprio, “Entretenimento?”.
Foto de NashDoesWork

Carlão é um uma espécie de camaleão da música portuguesa. Começou no movimento de hardcore punk de Almada, onde cresceu. Mais tarde as letras interventivas do rap levaram-no a fundir isso com a energia das guitarras nos Da Weasel.

Foi na banda da doninha, que partilhava com o irmão Jay Jay (João Nobre), que teve maior sucesso. Correram o país, esgotaram salas e festivais, gravaram álbuns de originais e ao vivo, abriram inúmeras portas. Chegaram ao fim em 2010 — depois de uma carreira que tinham começado em 1994.

Carlão não esteve parado nos últimos oito anos — muito pelo contrário. Deixou o seu nome artístico Pacman, voltou ao hardcore com a banda Os Dias de Raiva, explorou o seu lado de spoken-word no projeto Algodão, e em 2014 regressou ao rap — impulsionado por Regula, Fred Ferreira e Sam The Kid — com 5-30.

Foi o mote para se lançar a solo, algo que nunca pensou que iria acontecer. “Quarenta”, editado precisamente no ano em que celebrava 40 anos, foi o seu primeiro álbum em nome próprio. O segundo disco, “Entretenimento?”, foi lançado em setembro deste ano. O CD está à venda por 13,90€ e as músicas podem ser ouvidas nas plataformas digitais.

Para este álbum, Carlão trabalhou com Manel Cruz, António Zambujo, Slow J ou Branko, entre vários outros que ajudaram a formar um disco que é, como todo o percurso de Carlão, uma mistura de sonoridades e texturas. Lá está, a qualidade de se ser camaleão.

A NiT encontrou-se com o músico no seu estúdio em Almada, que fica precisamente na rua onde cresceu.

Há quanto tempo está neste estúdio em Cacilhas? Antes tinha uma sala em Campo de Ourique, em Lisboa, ao lado do Fred Ferreira.
Três anos talvez. Sim, estive lá uns dois anos, foi uma altura fixe porque foi lá que fiz o “Quarenta” e antes disso 5-30. Foi um espaço onde estava muita gente interessante a trabalhar, incluindo o Slow J. Mas chegou a uma altura em que havia gente a mais, sempre a entrar e a sair. A minha sala ainda por cima ficava ao lado da parte do café, onde a malta se juntava muitas vezes a fumar cigarros, a beber café e na palhaçada. Para trabalhar não era o sítio ideal.

Precisava de um cantinho seu?
Exatamente, e a necessidade era mais essa do que outra qualquer, não era a de uma localização geográfica específica. O que acontece é que numa das minhas vindas a Almada dei com este sítio, que é na rua onde cresci. É daquelas coincidências muito felizes porque este espaço está ligado a uma pessoa que conheço. Já tinha apalavrado um aluguer em Lisboa, mas mal vi este sítio tive logo de ficar com ele. Claro que inevitavelmente isso influenciou o meu trabalho: não é como se eu tivesse perdido o contacto com este lado, com estas pessoas e este feeling, mas era muito mais espaçado. A partir do momento em que vim para aqui perdi algum tempo de trabalho porque venho de Lisboa todos os dias, mas o tempo tem mais qualidade aqui, estou mais chill.

Se não tivesse acontecido o projeto 5-30, que foi um pouco por acaso — puxaram pelo Carlão e acabou por se juntar — pensa que teria feito o “Quarenta” e o “Entretenimento?”? Ou seja, este tipo de álbuns. Porque depois dos Da Weasel fez Os Dias de Raiva e Algodão, que são projetos completamente diferentes.
Certo. Cansei-me um bocado de rap, de rimar. E 5-30 era uma ideia que surge muito do Fred, do Sam The Kid, de meter o Carlão a rimar de novo. Sempre disse que fazia outra cena, mais cantada, não queria rimar. Mas a verdade é que eles puxaram, puxaram, e um gajo acabou por voltar a rimar. Despertou uma célula adormecida.

Acabou por ser uma ponte para criar estes dois álbuns. O que pensa que teria feito, se não tivessem acontecido os 5-30?
Não sei, teria feito música certamente. Talvez continuar na linha do spoken-word mas encontrar um caminho mais definido. É uma das coisas que gosto muito de fazer e tenho feito algumas coisas nesse sentido em projetos paralelos. Neste momento até vou fazer participações. Gosto muito da palavra dita.