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Cinema

“Milagre na Cela 7” é a chantagem emocional que não precisamos na quarentena

Nesta Páscoa, Memo tirou o lugar a Jesus Cristo como o saco de pancada de serviço — e tornou-se um êxito na Netflix.
"Olha Ova, mais lágrimas"

É uma tradição da Páscoa. Sentamo-nos no sofá e eis que vemos na televisão Jim Caviezel vestido de Jesus Cristo. Durante mais de duas horas, a personagem principal do filme de Mel Gibson, “A Paixão de Cristo”, serve de saco de pancada para os esgares de horror de quem assiste. E porque esta é uma Páscoa diferente, a Netflix dá lugar à televisão e Jesus passa o bastão a Memo, o protagonista do filme que está a pôr o País e o mundo a chorar.

“Milagre na Cela 7” chegou ao top da plataforma de streaming sem que quase ninguém desse por ele. Sem grande alarido mediático, a adaptação turca do filme sul-coreano foi saltando de post em post nas redes sociais. E quando alguém garante que este filme “o vai lavar em lágrimas”, a curiosidade tem tendência a ofuscar a lógica — e assim conquistou um segundo lugar no top nacional, apenas atrás do fenómeno “La Casa de Papel”.

A sinopse junta todos os condimentos para um festival de baba e ranho: um protagonista com um atraso cognitivo; uma filha que perdeu a mãe; uma criança que morre acidentalmente; uma sentença de morte injusta. Se soa, cheira e sabe a manipulação sentimental, é porque provavelmente o é. “Milagre na Cela 7” tem apenas um objetivo: servir como um exercício de chantagem emocional.

Não é que Aras Bulut Iynemli (Memo) e Nisa Sofiya Aksongur (a filha, Ova) sejam propriamente maus atores — a tarefa é que era ingrata. O problema está no argumento e nas caricaturas em que todas as personagens se transformam. Usar Memo como uma espécie de botão de pena também é uma estratégia pouco compreensível do ponto de vista de quem quer contar uma boa história. Será que queriam mesmo?

A mesma propensão para as lágrimas já existia no original e a adaptação turca definitivamente não quis ir além dessa meta. Todas as personagens fazem exatamente aquilo que achávamos que iam fazer: o vilão mantém a falta de escrúpulos; os colegas de coração mole rapidamente se tornam nos melhores amigos de Memo; e a personagem misteriosa que nos é esfregada na cara a cada minuto tem, surpresa das surpresas, um papel decisivo na história.

É fácil de perceber o sucesso de “Milagre na Cela 7”. É, todo ele, uma armadilha emocional. Está desenhado para carregar em todos os botões certos e é até admirável que as inocentes ovelhas de Memo tenham saído incólumes: seria a estocada final no coração dos espetadores já atormentados com uma avalanche de tragédias. O filme, esse vai continuar no top, a humedecer olhos e a apertar corações sensíveis ao fim de tantas semanas de isolamento. Vai continuar a carregar em todos os botões que compõem um verdadeiro tearjerker — mas que nem por isso fazem um bom filme.

nota NiT: 40%