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Valério Romão: “Desde puto que sou um geek da informática”

Não gosta de políticos e só fez as pazes com os franceses há pouco tempo. A NiT entrevistou um dos novos escritores portugueses mais elogiados pela crítica.

É um dos nomes mais importantes da nova geração de escritores portugueses. Licenciado em filosofia — no seu quarto tem uma placa da Universidade de Ciências Sociais e Humanas que diz “Departamento de Filosofia” —, começou a trabalhar como gestor de sistemas informáticos numa empresa de Lisboa. Ao fim de quinze anos despediu-se para se tornar escritor e tradutor.

A família foi o tema central dos três primeiros romances — “Autismo” (2012), o primeiro livro foi muito elogiado pela crítica —, numa trilogia que apelidou de “Paternidades Falhadas”.

Filho de emigrantes portugueses, viveu até aos 10 anos na cidade Clermont-Ferrand, em França mas nunca se sentiu em casa. Quando chegou a Portugal, continuou a ser uma espécie de estrangeiro. Crítico feroz da massificação do turismo, será um eterno outsider da literatura.

Em 2012, trocou a informática pela literatura. Uma grande reviravolta, não?
Desde puto que sou um bocadinho geek. Tinha alguma apetência para informática, mas quando acabei o secundário decidi ir para para filosofia, estava farto de computadores. A apetência e o jeito mantiveram-se e, numa altura em que andava à procura de trabalho, houve um amigo que me sugeriu trabalhar numa empresa. Estive lá sete anos, e mais dez anos noutra. 

Mas queria ser escritor?
Sempre tive essa ambição. Antes de entrar para a faculdade já achava que ia escrever. Ganhei três vezes o concurso Jovens Criadores, entre 99 e 2001. Achava que se havia alguma coisa em que poderia ser muito bom ou excepcional seria a escrita. O meu primeiro livro saiu uns meses depois da minha separação. Estava com tempo e comecei a escrever o que seria um conto, só para ver se ainda tinha mão, e percebi que era um romance, que teria algum fundo biográfico. A partir daí foi obsessivo.

Por que razão escreve sobre família?
Nada é definitivo ou pensado excessivamente. Como quem procura fazer fortuna no Velho Oeste e encontra uma mina e um filão, durante algum tempo essa mina correspondeu a territórios da família, nos quais me sentia confortável para explorar [Valério tem um filho autista]. Há grande proximidade com este tema, porque todos nós temos família. E se não temos, sabemos a falta que advém disso. Mas sinto que o tema está esgotado.

Numa entrevista disse que a família iria ser estudada como arqueologia daqui a 50 anos. Porquê?
As coisas estão a mudar numa velocidade surpreendentemente, a tecnologia, a própria evolução do pensamento progressista faz com que as fronteiras entre géneros e papéis sejam cada vez mais fluídas. Durante anos foi impossível pensar em famílias monoparentais, a partir dos 90 passou a ser banal. Ou como aconteceu com os divórcios, ou as famílias de dois pais ou de duas mães. Os nossos netos vão olhar para os nossos estereótipos como nós pensamos nos vitorianos, como se fôssemos do século XIX. Não sei se é bom ou mau, mas é de loucos, dá azo a todo o tipo de comportamento paranormais, dos tipos que amam as árvores, do que querem casar com o cão.

Literariamente é muito rico, o Murakami põe os gatos a falar.
Literariamente é muito inspirador, sim. Mas ao mesmo tempo é sintomático de uma sociedade que perdeu o pé, que está a laborar em coisas que não têm importância com uma energia desmedida. O ser humano preciso de contornos, um mapa, uma cartografia qualquer. A sociedade também. Se a tua rua mudar todos os dias ninguém se orienta.