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“Tu”: “Não seria boa televisão se o Joe fosse um monstro que não nos seduzisse”

A NiT entrevistou Caroline Kepnes, a autora da história que deu origem à série da Netflix.
A segunda temporada de "Tu" deve estrear no final do ano.

Assim que estreou, nos últimos dias de 2018, “Tu” tornou-se uma série fenómeno na Netflix. A história, tão viciante quanto perturbadora, foca-se num gerente de uma livraria em Nova Iorque, Joe, que se apaixona de imediato quando uma cliente, Beck, entra pela primeira vez na loja.

Apaixonar não é bem o verbo mais correto porque Joe, descobrimos logo na estreia, é um psicopata. É o que ele é, sem rodeios, por mais que nos esqueçamos disso de vez em quando. A relação entre ambos é o que acompanhamos ao longo de dez episódios.

A série baseia-se no livro com o mesmo título escrito pela americana Caroline Kepnes em 2014. A Netflix está a preparar a segunda temporada, que deverá estrear no final do ano, centrada no segundo volume de Kepnes, “Hidden Bodies”, de 2016. A versão traduzida de “Tu” só chegou às livrarias portuguesas em junho deste ano. A edição da Presença tem 392 páginas e está à venda por 17,01€. A NiT falou com a autora sobre o sucesso desta narrativa e o futuro do protagonista.

Como é que pensou na ideia para escrever esta história e criar a personagem de Joe?
Há alguns anos, eu estava numa reunião a mexer no telemóvel e fui apanhada pelo meu chefe. Não havia nada a fazer, fui apanhada em flagrante. E ele disse: “Esse telemóvel vai ser a tua morte.” Sabes quando as pessoas dizem coisas que ficam na tua imaginação? Essa frase perdurou na minha cabeça durante tanto tempo que ainda hoje estava a pensar nisto e percebi que foi uma parte importante. O Joe e a Beck vieram daí, porque foi um telemóvel que a levou mesmo à sua morte. E o Joe também usa muito o telemóvel, mas utiliza-o como uma arma. Sempre me interessei pela forma como estas tecnologias influenciam as nossas fantasias românticas, porque podes conhecer qualquer pessoa, e a forma como conheces uma pessoa foi alterada. É diferente do que acontecia quando eu era mais nova.

E como é que tudo isso resultou na história?
Todos estes pensamentos culminam num momento em que estou num Starbucks, super mal-disposta, tinha acabado de sofrer a minha primeira grande perda da vida — o meu pai tinha morrido —, estava com problemas na voz e não conseguia falar alto, estava numa fase má. O meu pai tinha um grande sentido de humor, bastante negro, e ele tinha cancro e foi uma perda lenta. Mas quando te apercebes de que aquela voz nunca te vai ligar de novo e que nunca mais a vais ouvir… acabei por inventar uma voz na minha cabeça que me deu um lugar para canalizar toda a minha raiva de uma forma criativa. Nesse momento comecei a pensar nesta história. Também vivia em Nova Iorque, era uma aspirante a escritora, e sempre me perguntei como seria ter tantas redes sociais nessa altura, como as pessoas têm agora, quando eu tinha 20 e poucos anos.

Estudou muito sobre assassinos ou psicopatas para construir a personagem de Joe?
Tem sido um projeto recorrente na minha vida, a ficção com personagens que têm um lado obscuro sempre me atraiu muito. Quando estava na escola secundária, fiz um teste de inteligência e acabei por ir parar a uma experiência de um curso de psicologia. Tinha apenas 16 anos, mas adorava ler os estudos de caso, as transcrições das sessões de terapia, tentar perceber o que estava errado com as pessoas e que tratamento seria melhor para elas. Enquanto adolescente, pensei que, para mim, escrever seria descobrir mais sobre distúrbios de personalidade, mas depois usei essa informação na minha escrita criativa. Fiz mais aulas de psicologia, sempre adorei ler sobre a mente humana e como experiências negativas podem fazer com que pessoas as ultrapassem tão bem, aprendam com elas, sendo que outras se viram para um lado obscuro.

Como este é um tema sobre o qual há um grande fascínio — os assassinos e psicopatas —, alguma vez recebeu feedback sinistro de fãs?
Nada muito drástico, mas recebi algumas coisas, sim [risos]. Recebi algumas comunicações interessantes ao longo dos anos. Mas não gosto de falar muito delas, porque não quero encorajar a que haja mais. 

Quando descobriu que o primeiro livro iria ser adaptado para a televisão, qual foi a primeira reação que teve?
Comecei a saltar e a gritar de entusiasmo, por tantas razões. As pessoas que fazem a série são muito apaixonadas por isto, adoram mesmo os livros, e isso é muito reconfortante para mim. Eu fiquei com expetativas depois de saber isso e tudo foi feito super bem na adaptação. E depois de saber que a série ia para a Netflix e se iria espalhar por todo o mundo… tem sido uma viagem mágica e é incrível veres a tua história chegar a tantas pessoas.

Como é que foi o seu envolvimento na série? Sei que participou na escrita de vários guiões.
Foi uma altura ótima. Estava a trabalhar noutro livro, por isso tinha tempo para visitar o set de gravações e passei muito tempo a escrever na sala de argumentistas, que foi uma experiência fascinante. Estive no cenário da livraria e todos esses sítios que conseguia ver na minha mente… eu não pinto, não sei desenhar e foi incrível que eles tenham conseguido criar tudo exatamente como tinha pensado. 

A série baseia-se no livro de 2014.