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O toureiro português que foi amigo próximo de Picasso, Hemingway e Ava Gardner

Mário Coelho tem hoje 84 anos e está a ser publicada uma biografia sua que conta várias histórias com estrelas mundiais.

Nasceu humilde, numa família pobre, em Vila Franca de Xira, há 84 — quase 85 — anos. Mário Coelho cresceu entre os cavalos, vacas e touros, o seu pai era campino, numa época difícil, em que não havia luz elétrica nem água canalizada nas casas. Viver a 20 quilómetros de Lisboa era como estar a uma distância enorme da capital — sem telefones, Internet e muito pouca comunicação, numa altura em que os subúrbios nem existiam propriamente. Eram simplesmente áreas rurais.

Ainda hoje, Mário Coelho gosta de ler à noite — foi assim que aprendeu na escola, já depois do sol se pôr, porque durante o dia tinha de trabalhar, mesmo quando era apenas um pequeno miúdo. Começou por experimentar a tourear animais no campo, a ir às festas da terra, a ver os cartazes das corridas nas paredes e a sonhar um dia ser uma daquelas figuras que tanto idolatrava, um toureiro. Acabou por se tornar um deles, e também bandarilheiro, mas não um qualquer. Foi um dos melhores do mundo no seu ofício.

Teve uma longa carreira que passou sobretudo por Portugal e Espanha, mas também pela América latina, entre outros locais. Chegou a tourear várias vezes na maior praça de touros do mundo, na Cidade do México, para 60 mil espectadores. Reformou-se aos 55 anos, há três décadas, em 1990, na Praça do Campo Pequeno, em Lisboa, perante uma multidão emocionada de lenços brancos ao alto.

Hoje, Mário Coelho ainda se recorda de tudo — e em detalhe. Tem uma memória rara e uma lucidez total que é incomum para pessoas da sua idade, além de ainda estar em boa forma física, apesar das várias lesões que teve. Isso deu especialmente jeito a António de Sousa Duarte, ex-jornalista, especialista do mundo da comunicação e autor, que escolheu Mário Coelho para a sua nova biografia.

O livro foi apresentado oficialmente em frente do Campo Pequeno a 29 de fevereiro e está a chegar às livrarias por estes dias. “Mário Coelho — Um Homem Inteiro” é uma edição da Âncora que está à venda por 22€ e tem 120 páginas.

António de Sousa Duarte já escreveu biografias de figuras como Salgueiro Maia, o “bispo vermelho” D. Manuel Martins, Luís Godinho Lopes ou António Aleixo. Desta vez, escolheu Mário Coelho, até porque é um aficionado das touradas desde criança. “Achei que estava na altura de fazer um livro sobre uma figura incrível que aos 84 anos costuma com força física e lúcido como poucas pessoas. É uma figura extraordinária, foi considerado durante longos anos em Espanha como o melhor bandarilheiro do mundo. À margem da carreira, foi um homem que desencadeou uma série de contactos de vida.”

Para escrever este livro foram necessárias dezenas de horas de conversas que aconteceram entre Lisboa e Vila Franca de Xira — onde Mário Coelho hoje reside, e que é onde existe a Casa-Museu Mário Coelho, precisamente na antiga casa da família, onde Mário nasceu. “Hoje, um toureiro, ainda por cima com 84 anos de vida, é uma pessoa totalmente ignorada pela comunidade. Ele entra num café e pouca gente o reconhece, mas há 30 ou 40 anos ele era uma estrela enorme na Península Ibérica. E isso nunca fez dele um homem acima dos outros. Eu chamo a estes homens ‘homens faróis’, pessoas que nos tempos difíceis que vivemos iluminam. É um dos melhores do seu tempo.”

Além da sua carreira profissional, Mário Coelho desperta uma curiosidade especial porque foi amigo íntimo de estrelas mundiais como Pablo Picasso, Ernest Hemingway, Orson Welles, Ava Gardner, Audrey Hepburn, Capucine, Mario Moreno Cantinflas ou Henri Charrière, entre outros. Não há muitos portugueses que possam dizer o mesmo. Nesta biografia são contadas várias das suas histórias com estas figuras e a NiT decidiu recordar algumas delas com o próprio Mário Coelho, numa conversa no Campo Pequeno.

Foi há 30 anos que o Mário se reformou, depois de uma corrida que aconteceu aqui no Campo Pequeno. Lembra-se bem desse momento?
Lembro-me de tudo, eu lembro-me da primeira vez que atuei aqui em 1955. Eu toureei cento e muitas corridas de touros e tenho de facto aqui parte da minha vida. Os toureiros têm um sentimento de que a vida não é deles, é dos touros. Hoje ainda estou dentro dessa ideia tão profunda de que os toureiros pertencem ao público, às praças. E sem isso nós não podemos viver. E lembro-me de todos os detalhes daqui. São pequenas coisas que ficam na ideia. Se me faz uma pergunta sobre história ou política, eu gaguejo e não sou capaz. Mas faz-me uma pergunta sobre o primeiro touro ou a primeira vaca que toureei, há 70 anos, e retive todos os pormenores desse animal. 

Essa despedida foi um dos momentos mais emocionantes na longa carreira que teve?
Sabe que sou um homem sensível, tenho chorado na casa de banho, mas nunca em público. E foi a única vez da minha vida, pelo ambiente que se criou nesta casa — por causa de um homem que se despedia já com 55 anos — e estava coberta de lenços a abanarem para a minha despedida. De sentimento, reconhecimento, respeito, admiração. E isso é algo que fica na nossa mente para toda a vida. Foi esse reconhecimento pela minha trajetória, não só aqui, mas no País e além fronteiras, que eu julgava que não estava tão entranhada nesse público que me agradeceu com um simples lenço branco. E aí vieram-me as lágrimas aos olhos em público pela primeira vez. Eu direi que o homem que mais amei foi o meu pai. Quando morreu, não me saiu uma lágrima. Porque não conseguia, o sentimento de tristeza era tão grande que ficou tamponado nos meus olhos, não saíam lágrimas. E aqui, num espetáculo em que dei aquilo que tinha porque sem o público eu não seria nada, todos os tampões que tinha na vista desapareceram.

Tem 120 páginas.

Não estava à espera?
Sim, porque havia um princípio… noutras praças foi-se criando esse sentimento junto do público. Já se via meia-dúzia de lenços aqui e acolá, mas aqui parecia combinado. Quem ficou ainda mais grato fui eu, foi maravilhoso.

Sente-se justamente reconhecido?
Sim, sem dúvida nenhuma, só tenho pena de que, como num fado famoso de Mourão, a vida não volta nunca para trás. Mas se voltasse, eu tinha sido toureiro novamente e tinha desfrutado mais. Eu, que sempre cobrei os meus cachês, se os empresários soubessem da afición que eu tinha dentro de mim teria sido ao contrário, eu é que tinha pago aos empresários para tourear. Felizmente nunca se aperceberam disso [risos].

Como é que viu a proposta do António de Sousa Duarte para escrever este livro?
Chegamos a um momento da nossa vida em que há o esquecimento, o público vai-se esquecendo dos seus ídolos, e eu já estou nesse patamar. Há muito mais pessoas que já não se lembram de mim ou que não me conhecem pelos anos que têm. É evidente que quando aparece uma oportunidade destas fico orgulhoso e feliz, ainda por cima feito por uma pessoa que tem provas dadas. O António é um homem de caneta de ouro. Por isso não tive hesitação nenhuma e sinto-me um privilegiado por ocupar o seu tempo e talento numa biografia minha.