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O livro que vai mudar a sua vida — porque destrói todos os guias de auto-ajuda

A humorista e guionista Joana Marques escreveu a primeira obra de anti-ajuda da história. Chama-se “Vai Correr Tudo Mal”.
O livro foi publicado a 5 de junho.

É comum encontrarmos nos tops de vendas das livrarias os chamados livros de auto-ajuda — escritos por especialistas, sejam psicólogos ou mental coaches (ou tenham outra profissão, na realidade), que pretendem ajudar a melhorar a vida das pessoas. E vender exemplares, claro.

A humorista e guionista portuguesa Joana Marques decidiu pegar nos clichés deste segmento do mercado para escrever “o primeiro (e provavelmente último) livro de anti-ajuda”. “Vai Correr Tudo Mal” foi publicado a 5 de junho e é editado pela Manuscrito. Pode comprá-lo por 13,05€ e tem 224 páginas.

Como já deu para perceber, é uma grande sátira aos livros de auto-ajuda e desconstrói a linguagem típica, as frases feitas e os ensinamentos que muitas vezes este tipo de autores tenta incutir nas pessoas.

Joana Marques começa por esclarecer que a obra não vai ensinar nada de especial ao leitor, nem dizer-lhe que é lindo e que vai ultrapassar todos os problemas, e muito menos resultar em boas citações. “Este livro não vai dar-lhe ótimas citações, de filósofos orientais que ninguém sabe quem são, para usar no Facebook, juntamente com a imagem de umas deslumbrantes cataratas.”

Apesar de tudo, a autora promete que “Vai Correr Tudo Mal” “vai dizer-lhe a verdade”. “E a verdade é como as vacinas: na maioria das vezes dói. Por isso prepare-se para o pior, e não invente agora uma desculpa de última hora, como a malta new age anti-vacinas, que leu num fórum do Yahoo que elas provocam autismo.”

Entre tantas expressões, uma das que Joana Marques resolveu desconstruir foi a “energia negativa”. “Para mim, energia negativa é quando chega a conta da EDP e vejo que vou pagar outra vez para cima de 200€, porque me esqueci de enviar a contagem.”

De qualquer forma, é importante evitar as energias negativas. Uma das formas mais sugeridas pelos especialistas de auto-ajuda é a companhia de animais de estimação, como cães e gatos.

“Os animais servem para equilibrar energias e harmonizar um lar. Pois, pois. Digam isto a um casal cujo processo de divórcio foi desencadeado quando o cocker spaniel voltou a fazer um cocó nas almofadas do sofá, porque um deles se esqueceu de o levar à rua. Poder-me-ão dizer que, mesmo que não tenham poderes esotéricos, os animais de estimação são muito úteis nas nossas vidas. Porque fazem companhia, por exemplo. Já experimentaram ouvir rádio? Também faz imensa companhia e não é preciso levá-lo ao veterinário nem gastar dinheiro em ração.”

A arte do feng shui — que está bastante associada à auto-ajuda — também tem direito a um segmento em “Vai Correr Tudo Mal”. “Durante muito tempo, confesso, pensei que feng shui era uma especialidade da cozinha chinesa e dava por mim a desejar um feng shui de gambas quentinho. Mas, depois, percebi que tem a ver com a disposição dos móveis numa casa. No fundo, é a tradução chinesa para ‘decoração de interiores’.”

Os especialistas de feng shui sugerem que o sofá deve estar virado para a porta de entrada. “Segundo os mestres do feng shui, esta coisa de ter o sofá em frente à porta faz com que, quem entre em casa, se aperceba imediatamente da presença de um símbolo de acolhimento e hospitalidade. Isto é um perigo quando aparecem aquelas visitas sem noção, que acham que ficar a conversar até às três da manhã é aceitável.”

É uma edição da Manuscrito.

Outro dos conselhos que Joana Marques dá aos leitores é que criem algum tipo de blogue para aumentarem a auto-estima. Um dos exemplos é o blogue de mãe. “O termo técnico para este estilo de blogue é ‘mummy blog’. Porquê? Por ter sido inventado num país anglo-saxónico? Não. Porque as autoras destes sites normalmente referem-se a si mesmas como ‘mummy’ e ao pai das crianças como maridão. E estes maridões nunca têm nome. Se se chamam Paulo, são mencionados como ‘P.’, como se estivessem ao abrigo de um programa de proteção de testemunhas.”

A humorista e guionista falou com a NiT sobre este projeto, cuja ideia já surgiu “há alguns anos”. “Sempre tive ‘interesse’ (na perspetiva satírica) nos famosos gurus de auto-ajuda, desde os internacionais como Osho, até a fenómenos portugueses mais recentes como Gustavo Santos e tantos outros”, diz Joana Marques.

Desta forma, começou a ser construída a ideia de publicar um livro humorístico em torno do tema. “À medida que este fenómeno foi crescendo e ocupando cada vez mais espaço nas livrarias achei que era engraçado escrever um livro contracorrente, desmontando muitos dos clichés da auto-ajuda.”

O mote é, por isso, a anti-ajuda e fazer um certo escrutínio ao mercado deste género de publicações. “[O objetivo] é ajudar as pessoas… não a terem uma vida melhor mas pelo menos a deixarem de gastar dinheiro com alguns vendedores de banha da cobra. Este livro só promete divertir, não mudar vidas, o que não só é um objetivo mais fácil de cumprir como é menos grave ao falhar redondamente. Acredito que muitos autores de auto-ajuda escrevam os seus livros com a melhor das intenções mas sinto que da parte de alguns há um aproveitamento de uma certa fraqueza dos leitores, e vão atrás da moda para ganhar dinheiro com isso.”

Para preparar esta obra disruptiva, Joana Marques leu vários dos clássicos da auto-ajuda, como “O Segredo”, de Rhonda Byrne; ou “Quem Mexeu no meu Queijo?”, de Spencer Johnson. “Há, aliás, um capítulo do meu livro dedicado precisamente a isso, a fazer o resumo dessas grandes obras da auto-ajuda. Já que as pessoas têm pouco tempo para ler, ficam rapidamente informadas. Depois logo decidem se vale a pena comprar.”

Joana Marques não tem dúvidas, porém, que os livros de auto-ajuda vão continuar nos tops das lojas — em Portugal e não só. “Acho que vão continuar a surgir que nem cogumelos e a ocupar cada vez mais espaço nas livrarias. É sinal de que há leitores para os comprar, nada contra. Espero que o nicho dos livros de humor possa crescer um bocadinho também.”