NiTfm live

Livros

O primeiro policial de Pedro Boucherie Mendes é sobre um assassino do Chiado

A NiT falou com o diretor de Planeamento Estratégico da SIC, que acaba de publicar "O Agosto do Desassossego".
Tudo se passa no Chiado.

Chama-se “O Agosto do Desassossego”, mas na verdade o livro já está disponível desde 17 de julho, quando foi o lançamento oficial. É o primeiro policial de Pedro Boucherie Mendes, atual diretor do Planeamento Estratégico da SIC, que já tinha escrito dois romances, um livro sobre os hábitos dos portugueses, outro acerca da experiência de ser jurado em “Ídolos” e ainda um trabalho sobre os bastidores das séries de televisão.

Trata-se de uma edição da Planeta com 392 páginas e está à venda por 16,16€. É um thriller passado no Chiado, em Lisboa, sobre um assassino que anda a matar pessoas naquela zona da cidade em nome de Fernando Pessoa. 

Nos primeiros dias de agosto, um homem é encontrado morto junto da estátua do poeta português, no Café A Brasileira. Num dos bolsos da vítima há um postal com uma citação do “Livro de Desassossego”, do heterónimo Bernardo Soares. No outro bolso, está a mão esquerda do homem, com os dedos decepados e envoltos em sal.

O protagonista desta história chama-se Daniel Vilar. Ele é o inspetor da Polícia Judiciária responsável pela investigação do caso. Vilar tem um passado marcado por acontecimentos trágicos e já não acredita propriamente na justiça. Nas semanas seguintes, há duas outras vítimas que são encontradas no Chiado nas mesmas circunstâncias.

Os homicídios provocam uma onda de pânico e perturbam a polícia e os poderes políticos. Vai ser necessária uma investigação rápida e eficaz para apanhar o culpado — sendo que tudo poderá estar de algum modo relacionado com o imaginário do incêndio que em 1988 atingiu o Chiado. É esta a premissa de “O Agosto do Desassossego”.

“Sempre fui um leitor tenso e obcecado de livros de mistério, aqueles a que chamamos page-turner”, conta Pedro Boucherie Mendes à NiT. “Eram bons livros para ler rapidamente nas sestas dos filhos, que quando eles são pequenos não temos muito tempo.”

Esta fase na vida de Boucherie Mendes, formado em Comunicação Social, já foi há 20 anos. “Com o tempo fui apurando o gosto. Por exemplo, comecei a gostar de histórias com personagens femininas. E não gosto de livros passados nos Balcãs.”

Os anos passaram e, apesar de escrever com regularidade, nunca teve um interesse particular em criar um policial. “Não me interessava uma história cheia de detalhes e descrições, não tinha a paciência para isso.” Ao mesmo tempo, as séries de televisão foram ocupando esse espaço de ficção no dia a dia de Pedro Boucherie Mendes e substituíram esse género de livros.

É uma edição da Planeta.

“Só que depois cada vez mais aconteceu aquele fenómeno de as pessoas não gostarem dos finais das séries, e queixarem-se muito — como foi agora com ‘A Guerra dos Tronos’ —, como se fosse uma coisa pessoal. Isso tudo foi criando uma sopa no meu cérebro.”

Foi há quatro ou cinco anos, numa manhã de um sábado qualquer, que Boucherie Mendes foi passear com a família ao Chiado. “Vi a estátua do Pessoa e comecei a pensar: como seria se aparecesse aqui um tipo morto? Depois pensei no incêndio do Chiado, que foi um acontecimento que me marcou muito na altura, e fui ficando excitado com a ideia.”

Foi escrevendo nos últimos anos, sempre tendo em mente que era o maior desafio de escrita até então, por ser um trabalho tão solitário e exigente. “Escrevi ao longo de bastante tempo mas todos os detalhes tinham de estar certos. Por exemplo, num dia escrevia que o protagonista tinha almoçado peixinhos da horta, mas depois umas páginas à frente, escritas noutros meses, já eram filetes de polvos, porque, sei lá, nesse dia apeteciam-me filetes de polvo. Não podia ser.”

Séries curtas e misteriosas, sempre com um único caso criminal por resolver, como “The Bridge”, “The Killing” ou “Baptiste”, foram as principais referências no mundo da televisão para este policial. Na literatura, foram nomes como John Grisham ou Arturo Pérez-Reverte — apesar de, lá está, Boucherie Mendes já não ler muitas histórias deste género.

Além disso, procurou ter uma narrativa distinta de muitos enredos deste tipo. “Há muito aquele final que é preciso concluir em 50 páginas e de repente haveria uma velhota que estava com insónias às quatro da manhã e via o assassino no Chiado e depois ia contar à polícia. Não, queria fazer algo distinto. Quis evitar esse final simples.”

E acrescenta: “Tentei tornar as personagens pessoas como nós. Não queria que o protagonista fosse nenhum super-herói. No início, por exemplo, ele não liga muito à investigação — porque está mais interessado em ir de férias. Quando vai interrogar suspeitos, às vezes tem dúvidas sobre o que é que lhes há de perguntar. Porque é assim que as pessoas são na realidade. Quis que tudo acontecesse com alguma naturalidade.”

Para escrever “O Agosto do Desassossego”, o autor foi também investigar um pouco sobre a história de Lisboa, no geral, e do Chiado, em particular, além da obra de Fernando Pessoa. “São quase dois livros: há a intriga policial e de thriller, e uma parte mais histórica sobre o Chiado. Gosto dessa ideia de que possa servir também para ter alguma investigação sobre Lisboa e esta zona da cidade, porque na verdade não há assim tanta coisa publicada.”

Pedro Boucherie Mendes não tem a certeza se vai escrever mais policiais, até porque diz que “este pode ser um fiasco”. “Mas se escrever mais, seria certamente passado em Portugal e com estas personagens.”