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Pedro Chagas Freitas: “Escrever não é nada de extraordinário, qualquer um pode fazer”

O escritor tem um novo livro, “O Amor Não Cresce nas Árvores”, que inclui seis histórias.

Foto de Gonçalo Delgado

É promovido como um dos autores que mais vende em Portugal, apesar de não se assumir como escritor. “Pedro Chagas Freitas é um gajo que escreve cenas”, diz na sua mini biografia nos vários livros que tem.

O seu mais recente é “O Amor Não Cresce nas Árvores”, um livro que inclui seis histórias que se entrecruzam — não no enredo, como tantas vezes é habitual, mas nas páginas. Cada página tem uma cor associada, que se refere a uma história específica — uma é um romance, outra um diário de uma adolescente, mas também há um thriller político.

Ao todo, Chagas Freitas já escreveu mais de 100 livros. A grande maioria nunca saiu da sua casa em Guimarães, cidade onde nasceu — os primeiros a serem publicados foi com o próprio dinheiro, sem o apoio de grandes editoras.

“O Amor Não Cresce nas Árvores”, porém, é uma edição da Oficina do Livro, do grupo LeYa, e está disponível por 18,50€. A NiT falou com o autor português — que foi pai recentemente do Benjamim — a propósito do novo trabalho.

Este livro está dividido em várias histórias que se entrecruzam nas páginas. Como é que teve a ideia de o estruturar assim?
Já tive outros livros, e é uma coisa que se faz muito, com histórias que se cruzam. Aqui a ideia mais diferente é a das cores — associar uma cor a um género e pedir ao leitor que leia o livro à sua maneira. Pode começar por ler o amarelo e depois o verde, ou tudo de seguida, ou atira o dado e segue o que calhar. O meu livro pode ser diferente do da pessoa que está ao lado, mesmo que estejamos a ler o mesmo livro. Podemos ter milhões de possibilidades porque são centenas de capítulos todos misturados.

O Pedro tem vários livros em que desafia o leitor a ler formatos menos convencionais.
Sim, mas aqui quis levar isso um bocadinho mais longe, que houvesse géneros diferentes. Não posso colocar uma etiqueta no livro, a dizer que é mais romântico, humorístico ou político — porque eles estão lá todos. Pode ser o livro que cada um dos leitores quiser. Aqui quis levar isso até à demência [risos] e tentar perceber o que os leitores fazem.

Tem uma rotina criativa?
Agora com o bebé é muito difícil [risos], escrevi este livro quando tinha tempo, quando ele estava mais calmo ou adormecia. Mas ele respeitou muito o livro, sempre que começava a escrever ele ficava calmo, parece que percebia. Hei de voltar a ter uma rotina mais definida quando ele crescer: escrever um capítulo ou dez páginas por dia, o que for.

Mas escreve sempre a certa hora do dia ou num determinado sítio?
Não, não tenho nada dessas coisas. Até porque muitas vezes é impossível. Julgo que isso acontece com qualquer pessoa, não tenho rituais. Se me disserem que vou escrever em frente do mar: perfeito. Se me disserem que vou escrever numa cave: perfeito na mesma. Mas tento escrever todos os dias, porque sinto essa necessidade de escrever, até pode ser uma coisa que depois nunca vá ser publicada nem mostrada a ninguém.

Acontece escrever muita coisa que não publica?
Sim, tenho para lá muita coisa que não há de ver a luz do dia, pelo menos enquanto eu estiver vivo, se depender de mim [risos]. Às vezes encontro textos antigos e é estranho, porque já não é o que eu sou. É como ver uma fotografia antiga.

E também sente isso com os livros publicados?
Todos, todos. O que não quer dizer que goste mais ou menos deles, mas aqueles livros já não são o que sou. E acho que isso é mais saudável do que estar a ser agora o que era há dois ou três anos.

Tem 504 páginas.