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“Os soldados nazis tomavam drogas para ficarem acordados durante três dias”

A NiT entrevistou Norman Ohler, escritor e jornalista que publicou “Delírio Total”, sobre o papel das drogas no regime de Hitler.
Norman Ohler conduziu a investigação durante cinco anos.

Norman Ohler vive em Kreuzberg, o bairro de Berlim, na Alemanha, mas por estes dias encontramo-lo a trabalhar numa sala do grupo 20/20 em Alfragide — o escritor, argumentista e jornalista veio a Portugal para apresentar o novo livro, “Delírio Total”, sobre a surpreendente influência das drogas no regime nazi. A edição da Vogais está à venda por 17,99€.

A NiT entrevistou-o a propósito deste trabalho mas, antes de ligarmos o gravador, falámos de “Chernobyl”, a minissérie fenómeno da HBO. Ohler ainda não viu o quinto e último episódio — aparentemente não ficou logo disponível na Alemanha — mas diz que tem adorado, apesar das mortes dos animais no quarto capítulo. “Mas para que é que eles fizeram aquilo?”, questiona.

Nós perguntamos se o desastre nuclear poderia ser o tema para outra grande investigação jornalística, mas o alemão pensa que os produtores deste projeto já fizeram um bom trabalho nesse sentido. Passemos, então, às drogas e à Alemanha nazi.

“Delírio Total” é o resultado de uma investigação de cinco anos que o levou a entrevistar militares, médicos, historiadores e várias testemunhas sobre este tema pouco retratado — e Norman Ohler considera que foi um fator fundamental para explicar o sucesso dos nazis.

À sua frente, na mesa em Alfragide, estão dezenas e dezenas de cópias de documentos escritos por médicos e militares — incluindo Theodor Morell, o médico pessoal de Adolf Hitler, que foi condecorado pelo führer. Leia a entrevista da NiT com o autor, que tem três romances publicados e escreveu vários argumentos, incluindo o guião de “Imagens de Palermo”, filme de Wim Wenders.

Como é que teve a ideia de escrever um livro sobre este tema?
Foi através de um amigo meu, o Alexander Kraemer, que é DJ em Berlim. Ele disse-me que devia escrever sobre isto. “Como é que sabes?”, perguntei. E ele disse que um amigo dele tinha encontrado metanfetaminas antigas num velho apartamento. O Alex tomou-as e disse que ainda eram muito fortes, passados 60 anos. Pensei que podia ser uma história interessante, fiz alguma pesquisa online mas não havia muita coisa. Depois descobri um historiador que tinha escrito um pouco sobre o assunto, liguei-lhe, ele disse onde podia consultar os arquivos certos e encontrei muita coisa.

Foi aí que percebeu que poderia resultar num livro ou numa investigação mais séria?
Sim, quando ele me disse onde procurar nos arquivos militares sobre o papel das metanfetaminas no exército alemão. E basicamente ninguém sabia que esse papel tinha sido tão grande.

Depois desta investigação, pensa que as drogas são mais um elemento na história da Alemanha nazi ou tiveram mesmo um papel principal em tudo o que aconteceu?
Acho que é mais um fator, mas é um fator grande, para o qual nunca se olhou muito — e acho que a equação total não faz sentido se não olharmos para este fator. Conseguimos perceber melhor a forma como Hitler ou o próprio exército se comportavam. Mas, por exemplo, o genocídio contra os judeus não está relacionado com drogas.

As drogas eram legais naquela altura, certo?
Eram, sim. As metanfetaminas eram tão legais como café. Eles não sabiam que era uma droga tão perigosa. Algumas eram ilegais, como a cocaína, mas as metanfetaminas estavam à venda em todas as farmácias. Era a mais usada, porque era tão fácil de obter e tão poderosa. Começou com os civis, até havia uma empresa chamada Hildebrand que vendia tabletes de chocolate com metanfetaminas.

Era uma escolha de cada pessoa, o consumo não era aconselhado?
Bem, as empresas que as produziam tinham anúncios publicitários, mas só isso. Alguns médicos também as aconselhavam, vá. Por exemplo, neste momento estou um pouco cansado porque acabei de almoçar, então ser-me-ia aconselhado a tomar para ficar mais enérgico. No exército, sim, os soldados eram incentivados a consumirem, apesar de no início não haver linhas orientadoras sobre isso. Havia muitos soldados a consumir, era uma coisa normal. Na invasão à Polónia ainda era uma coisa mais individual. Depois, nos ataques contra o Oeste, é que foram implementadas as regras de quantos comprimidos cada soldado deveria tomar por dia e o exército alemão encomendou 35 milhões de doses em 1940. Foi aí que se tornou uma droga oficial no exército — e assim ficou até ao fim.

O autor tem três romances publicados.

No livro dá alguns exemplos, como os soldados que conseguiam ficar horas e horas acordados, sem dormir.
Essa era a grande vantagem. Conseguiam ficar acordado durante uns três dias. Isso ajudou os soldados alemães no Blitzkrieg — os ataques rápidos contra os inimigos — porque eles atacavam os franceses e ingleses enquanto eles estavam cansados, à noite. Estavam em estados muito diferentes. E isso foi um fator enorme de sucesso para os nazis.

Houve consequências graves para a saúde dos soldados?
Acho que ajudou muito os nazis, porque conseguiram derrotar os inimigos rapidamente. Tiveram muito poucas vítimas de metanfetaminas — só umas cinco pessoas é que tiveram overdoses, o que não é nada tendo em conta o cenário de uma guerra. Os soldados alemães não paravam, não tinham medo por causa das drogas desinibidoras que tomavam. Por isso, acho que foi bom para eles.