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“Os filhos são as primeiras vítimas do stress dos pais. E de forma muito violenta”

A NiT entrevistou o pediatra Mário Cordeiro, que tem um novo livro, “Pais Apressados, Filhos Stressados”.
O livro dá dicas aos pais.

Não é novidade para ninguém. Cada vez mais parece que a sociedade ocidental vive a um ritmo acelerado, com as pessoas na rua a correrem de um lado para outro, com menos tempo para as refeições, para o lazer, e, em geral, para tudo. Isso faz com que todos fiquemos mais stressados e, como sabemos, o stress é contagiante.

Que o diga o pediatra Mário Cordeiro, especialista na área da saúde infantil e ex-professor universitário. É autor de vários livros e tem um novo trabalho. “Pais Apressados, Filhos Stressados” foi publicado a 15 de fevereiro e é uma edição da Desassossego. Tem 240 páginas e está à venda por 14,94€.

O pediatra dá consultas a muitas crianças que apresentam sintomas de stress por causa da forma como os pais vivem e gerem a sua vida. As refeições à mesa são um dos exemplos que dados no novo livro.

“Curiosamente, numa altura em que tanto se fala do ‘regresso ao básico’ e às dietas do Paleolítico, valha isso o que valer, a hora das refeições parece estar cada vez mais relegada para segundo (ou quinquagésimo segundo) plano”, escreve Mário Cordeiro.

“O pequeno-almoço raramente é tomado e, quando o é, toma-se de pé, a correr, com a escova de cabelo numa mão e a escova de dentes na outra. Ao almoço está cada um em seu lado — as crianças na escola ou sozinhas em casa em frente ao televisor, os pais no emprego, os avós sabe-se lá onde —, o lanche não existe (engole-se meia dúzia de ‘faz-de-conta-que-são-alimentos’ altamente calóricos, mas que se podem comer com as mãos ao volante ou enquanto se leem os jornais nos transportes públicos; desde que sejam doces ou carregados de açúcar, ou então pastéis fritos) e, finalmente, o jantar é muitas vezes um momento em que cada um chega à sua hora e procura qualquer coisa que lhe cale o apetite e que não lhe consuma muito tempo a preparar — o dia já vai longo e são quase horas de o despertador tocar outra vez, além de que cada um precisa ‘urgentemente’ de ir para o seu ecrã, seja computador, televisão, tablet ou telemóvel. A refeição é vista, assim, como ‘mais uma’ maçada, uma perda de tempo, uma chatice consumada, uma prova da ausência de liberdade para gerirmos o (escasso) tempo de que dispomos. Infelizmente, são cada vez menos os que olham para o espaço-refeição como um espaço de libertação.”

Neste livro, o pediatra dá dicas aos pais para tentarem mudar os hábitos do dia a dia — o objetivo é melhorar a própria qualidade de vida e, claro, a dos filhos. Mário Cordeiro explica de que forma é que o stress dos pais influencia os filhos. A NiT entrevistou o especialista.

É muito comum ter crianças stressadas entre os seus pacientes? Foi por isso que quis escrever um livro sobre este tema?
Creio que andamos todos stressados, em certo grau, mas muitas pessoas ultrapassam os limites da razoabilidade e, sim, encontro muitos pacientes, pais e filhos, muito angustiados, inquietos e descontentes com os seus estilos de vida e com o quotidiano. A observação da sociedade, passatempo que me fascina, revela-me muitas coisas que demonstram este grau de stress, latente e patente, na sociedade e, portanto, nas pessoas, em todos os seus ecossistemas: casa, escola, rua, lojas, empregos… Até nas férias. A razão do livro reside aí, claro, se bem que escreva, também, por prazer e por “upgrading” intelectual, dado que me obriga a “ginasticar os neurónios” e a ler, rever, debater, pesquisar, investigar… O meu lado científico fica radiante com estas coisas, bem como o de escritor e leitor.

Mário Cordeiro foi professor universitário.

Se os pais estiverem stressados, devem esconder isso dos filhos, para não os preocupar e stressar?
Creio que o stress não é passível de esconder. Impossível. Os filhos leem os pais, a alma dos pais, através de tudo: o nosso sistema nervoso autónomo que, como o nome indica, é independente da vontade, gere a produção hormonal das suprarrenais e de outras glândulas: as hormonas adrenalínicas e as endorfínicas. As primeiras, quando produzidas em excesso ou desajustadamente, acabam por produzir stress, manifestando-se numa série de pormenores comportamentais e fisiológicos, do tónus muscular ao brilho do olhar, do timbre de voz à inquietação da própria pessoa. Claro que os pais podem poupar os filhos de várias formas: não andarem stressados para não andarem, consequentemente, irritados, sem paciência, deixando de pensar que “crianças são crianças” e evitando cair até no ridículo que é dizer a um filho de dois ou três anos: “Não sejas criança!” e coisas assim; por outro lado, envolver as crianças em discussões e assuntos com acrimónia, que elas não entendem, apenas sobrará para elas os gritos e berros, mesmo até que a discussão possa ser sobre o Brexit ou sobre o futebol… Finalmente, o stress é contagioso, no sentido em que, quando um elemento da família está “à beira de um ataque de nervos”, todos os outros ficam também em stress, e estou em crer que este estado de coisas, vivido semanas após semanas, meses após meses, mina totalmente o amor, a cumplicidade, o “trabalho de equipa” da família, levando também, estou em crer, a muitos dos divórcios, separações e conflitos entre pais e filhos.

Que dicas práticas costuma dar às pessoas que enfrentam este problema?
As que constam do livro, em que exemplifico amiúde situações de stress no quotidiano. A primeira e mais importante é parar para pensar. Parar para pensar e refletir sobre o dia a dia, sem ter receio do que se pode encontrar mas, pelo contrário, entender que esse processo de análise pode conduzir a encontrar graus de liberdade para ajustamentos – mesmo que pequenos – que levam a uma melhor qualidade de vida e, até, a uma nova hierarquização das prioridades. Por outro lado, há que separar claramente a nossa parte de ação, trabalho, escola, fazer, empreender, etc., e a parte de descanso, lazer, prazer, gozo e afetos… Se isto não se faz, se trazemos tendencialmente para casa as “guerras” do trabalho, do trânsito, do “mundo lá fora”, então estará tudo contaminado e as crianças, claro, serão as primeiras a sofrer com isso e de uma forma muito violenta. É bom ter isso em mente, quando nos interrogamos sobre que tipo de vida queremos ter e proporcionar aos nossos filhos. Andamos a correr, a correr, a correr, arrasando tudo e todos, mas para onde, para quê e porquê?

Quais são as causas mais comuns para o stress dos pais que, por sua vez, passa para os filhos?
A relação laboral, que no nosso País é completamente absurda (e a escolar, nas crianças), ultrapassando o que o trabalho deve constituir: uma forma de dignificação do ser humano, de utilidade social, de realização de talentos e capacidades, e não de escravatura; o trânsito ou, dito de outra forma, as deslocações, os problemas de mobilidade, as horas e horas que se perdem, diariamente, dentro de um automóvel a vociferar com tudo e todos; a crispação relacional, muito comum a todos os níveis, até quando vamos pedir um café numa esplanada ou comprar o jornal no quiosque, e as redes sociais que estimulam o dislate, a agressão, a violência verbal no anonimato e o descarregar catártico de tudo o que há de pior na condição humana. A tecnologia, que prezo e da qual gosto e uso, quando hiper-utilizada e não controlada, também invade o espaço de descanso mental e físico, e “estoira” com o equilíbrio da pessoa e das que a rodeiam. Os filhos, obviamente, são as primeiras vítimas desta situação, não apenas porque são os “sacos de pancada” do stress dos pais, mas porque são forçados, desde o nascimento, a ritmos e hábitos que, muitas vezes, estão em plena contradição com as suas necessidades irredutíveis biológicas, psicológicas e sociais.

Que outros problemas é que o stress costuma desencadear nas crianças?
O mesmo que nos adultos: irritabilidade, desconcentração, incapacidade de escutar o outro e até de reconhecer que ele pode ter razão, obstinação, egocentrismo, falta de paciência, vontade de “emigrar para uma ilha deserta”, má performance escolar… Enfim, um cortejo de atitudes e comportamentos (e sentimentos) que não são nada bons e que se resumem a muita infelicidade, frustração e mais stress.

O livro está à venda desde meados de fevereiro.