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“O Informador”: leia o primeiro capítulo do novo thriller nórdico sensação

A NiT publica em exclusivo as primeiras páginas da obra de estreia do norueguês Jan-Erik Fjell, que já foi premiada.
Fredrikstad é a cidade norueguesa em que acontece a história.

Chama-se “O Informador” e é o livro de estreia do norueguês Jan-Erik Fjell — o novo autor sensação de thrillers nórdicos de tons noir. Chega às livrarias nacionais esta quarta-feira, 12 de fevereiro.

A história transita entre a Nova Iorque dos anos 60 e Fredikstad (Noruega) na atualidade. Na primeira linha temporal, Vincent Giordano foi admitido na máfia italiana, na famosa família Locatelli, e tem um batismo de fogo: executar um informador.

No presente, Wilhelm Martiniussen, dono de uma petrolífera norueguesa, é assassinado depois de anunciar uma mudança inesperada na política da sua empresa. Por motivos ambientais, decidiu desistir de um projeto que poderia ser bastante lucrativo, mas que resultaria em grandes perdas para a direção. Por isso, o seu homicídio poderá ter sido por razões financeiras.

Quem vai liderar a investigação do caso é Anton Brekke, célebre detetive com poucos amigos na polícia e uma personalidade difícil (além de uma paixão secreta pelo póquer). Contudo, é um polícia competente e, no fundo, com motivações bondosas.

Para resolver este assassinato, Brekke vai ter de unir pistas que irão ligar vários acontecimentos do passado e pessoas e locais muito diferentes, que à partida não estariam relacionados.

A edição da Dom Quixote tem 400 páginas e está à venda por 16,92€ — também disponível em encomenda online. “O Informador” já foi distinguido com o Prémio dos Livreiros da Noruega. A NiT publica em exclusivo, no dia do lançamento, o prólogo e o primeiro capítulo da narrativa.

Prólogo — Terça‑feira, 18 de fevereiro de 1969, Nova Iorque

Subiram cautelosamente as escadas íngremes.

Mesmo no verão, sair da cave era um perigo. Vincent Giordano subia às arrecuas enquanto tentava apoiar bem os pés nos degraus escorregadios. Quatro degraus abaixo, seguia Calogero Locatelli. Carregavam, entre os dois, uma mulher jovem, ainda atordoada devido à anestesia que lhe tinham dado. Com passos incertos, atravessaram o pátio coberto de gelo e dirigiram­‑se ao carro. Calogero Locatelli deixou a parte inferior do corpo da mulher cair na neve. Abriu o porta­‑bagagens e dele tirou um cobertor, que pousou no banco traseiro. Voltou a agarrar nos pés da mulher.

Sobre a neve branca ficaram manchas cor­‑de­‑rosa.

Colagero Locatelli entrou na estrada principal e dirigiu­‑se a Manhattan. Vincent Giordano virou­‑se para trás e olhou para a mulher deitada, em mau estado, no banco traseiro. O seu cabelo castanho e comprido estava pegajoso de suor. Tinha os olhos raiados de sangue. O rosto, de tão pálido, parecia uma máscara. A maquilhagem, que pusera no início daquela noite, escorria­‑lhe à volta da cara.
– O que me fizeram? – perguntou ela com uma voz arrastada. Fechou os olhos. A cabeça baloiçava­‑lhe para a frente e para trás.

– Porquê, Vincent? – soluçou. – Como foste capaz de me fazer isto?

– Fecha a puta da matraca! – grunhiu Calogero Locatelli. – Puta de merda.

Vincent Giordano olhou para o companheiro e disse: – Cala­‑te. Agora, deixa­‑a em paz. 

Calogero Locatelli resfolegou e lançou­‑lhe um olhar furioso.

– Porque é que não a atiramos ao rio Hudson? – perguntou em voz suficientemente alta para que ela o ouvisse.

A mulher gritou. Tentou socar e pontapear os bancos dian‑ teiros e as janelas, mas faltaram­‑lhe as forças. Mal se conseguiu sentar. Vincent Giordano virou­‑se de novo para ela. Com uma expressão tensa, dura, sem o mais pequeno sinal de empatia ou remorso, disse:

– Acalma­‑te. Não te vamos matar, mas vais voltar para o sítio de onde vieste, e nunca mais voltas a pôr os pés nesta cidade. Percebeste?

Não houve resposta.

– Percebeste? – repetiu Vincent.

Ela cerrou os olhos com todos os músculos do rosto e anuiu com um movimento de cabeça.

Segunda‑feira, 8 de junho — Fredrikstad

Wilhelm Martiniussen, dono da Mardan, estava sentado à cabeceira da mesa da sala de reuniões. Nele estavam postos doze olhos curiosos. Em breve, ele iria destruir­‑lhes ossonhos. Fá­‑los‑ia em pedacinhos mesmo diante dos seus narizes.

O seu coração batia como se tivesse acabado de correr uma maratona. As palmas das mãos estavam húmidas de suor. Sabia que osiria desiludir, no entanto,sentia que era a única coisa certa a fazer. Dentro de um minuto, não maisseria um chefe altamente respeitado, mas um idiota sem escrúpulos. O que estava prestes a anunciar causaria grande comoção. Olhou para Frode Moen, o vice­‑presidente da empresa, que se mostrava sorridente há semanas.Moentinhadiantede si,pousadanamesa,umabrochura de iates. Tinha mostrado aos outros, com orgulho, o iate que escolhera, explicando­‑lhes que iria optar por um azul­‑marinho, ou «navy blue», como indicado na brochura.

À esquerda de Wilhelm Martiniussen estava sentado Bjørn Danielsen, seu grande amigo e sócio na empresa. Nem ele sabia por que motivo Martiniussen marcara uma reunião de urgên‑ cia, que, segundo o e‑mail enviado a todos os presentes, duraria apenas alguns minutos. «Um pequeno aviso»: era tudo quanto escrevera no e‑mail; nada mais.

– Muito bem – principiou por dizer Wilhelm Martiniussen. Pigarreou e prosseguiu: – Encontro­‑me numa posição difícil…

Uma pausa curta.

– Contudo, após ponderar toda a situação, decidi que a Mardan se deve retirar do projeto.

– De que projeto? – perguntou, com algum desinteresse, Frode Moen.

– Do projeto do Canadá – respondeu, lacónico, Wilhelm Martiniussen.

Durante um longo segundo, ouviram­‑se os pássaros no exterior. Um silêncio que gritava. Nenhum dos membros da dire‑ ção conseguia acreditar no que estava a ouvir. Então, um deles esforçou­‑se por sorrir e disse:

– Deixa­‑te de palhaçadas, Wilhelm. Diz lá porque nos chamaste, estamos curiosos. Wilhelm Martiniussen ficou muito sério. Queria, acima de tudo, voltar ao seu gabinete e tentar conversar com os colegas mais tarde. Porém, esforçou­‑se por manter as aparências.

Tem 400 páginas.

– Não estou a brincar.

– Não… não, não, não – disse Frode Moen. – Não estás a falar a sério, pois não, Wilhelm?

– Infelizmente, estou, Frode.

O membro da direção que sorrira pareceu ficar chocado, e falou em voz tão baixa que Wilhelm Martiniussen teve de se concentrar para conseguir perceber o que dizia. O sujeito estava claramente a ter dificuldades em assimilar a notícia.

– Wilhelm… podes dizer­‑nos… o que é… que se passa aqui? – sussurrou do outro lado da mesa.

– Vamos retirar­‑nos do projeto do Canadá – repetiu Wilhelm Martiniussen.

Que mais podia ele dizer? Sabia perfeitamente que todos os presentes entendiam o porquê de tal decisão.

– Mas, bem, não é por isso que temos uma direção? – prosseguiu o membro que o interpelara. – Não nos devias ter consultado, pedido opiniões, e por aí fora?

– Sim, claro que podia ter feito isso, mas com que intuito? Já tomei a minha decisão.

Frode Moen levantou­‑se.

– Tens noção de quanto dinheiro a Mardan investiu nisto? As nossas ações vão cair a pique, caralho.

– Claro que tenho noção de quanto tempo e dinheiro investimos, mas vamos concentrar­‑nos noutra coisa daqui em diante. A empresa tem suficientes empreitadas e projetos interessantes em curso. Mas, para vos servir de consolo, podem contar com um belo bónus de Natal: quatro milhões cada um, pagos do meu próprio bolso – e está dito.

Tentou sorrir.

Frode Moen riu­‑se com desdém e disse: – Quatro milhões… que puta de piada. Não tolero esta merda. Não vais destruir o nosso sonho só porque tens umas minhocas na cabeça!

Falou com fúria, tinha o rosto vermelho, afogueado.

– Não te esqueças de que esta empresa é minha, Frode. Eu tomei uma decisão em nome da Mardan e estou no meu pleno direito de o fazer.

– Quatro milhões, foda­‑se – resmungou Frode Moen. – Pretendes dizer que tenho de me contentar com isso? Quando poderia ganhar talvez dez vezes mais? E eu tenho a participação mais pequena.

– Se não estás satisfeito, podes vender astuas ações e procurar um cargo noutro sítio.

– E por que raio mais ninguém diz nada? – Frode Moen insti‑ gou os restantes presentes ao redor da mesa. – Por uma vez que seja…

Gerou­‑se uma pausa curta. Todos os outros membros da dire‑ ção fitaram Bjørn Danielsen com a esperança de o ouvir protestar. Era o único que podia fazer frente ao dono da empresa. Mas Danielsen olhava para o tampo da mesa.

– Podes enfiar os teus quatro milhões pelo cu acima. Estupidez! Loucura! – gritou Frode Moen, que quase correu ao sair da sala de reuniões.

Wilhelm Martiniussen dirigiu­‑se aos restantes:

– Lamento muito, mas acreditem em mim quando vos digo que não é uma decisão egoísta. Faço isto por todos nós. Pelo nosso futuro. Olhemos para o futuro. Que me dizem?

Observou­‑os com um certo otimismo. Ninguém lhe respondeu. Todos os presentes sentados ao redor da mesa exibiam expressões que, normalmente, só encontramos em funerais. Ele saiu da sala de reuniões, entrou no seu gabinete e deixou­‑se cair na cadeira. Pouco depois, bateram à porta. Bjørn Danielsen enfiou a cabeça no gabinete.

– Venho em má altura? – perguntou.

– Não, de todo – disse, com um sorriso, Wilhelm Martiniussen. – Senta­‑te.

– Foi uma reunião um tanto caótica, não?

– Hum, pois. Sabia que não iam ficar contentes, mas o Frode passou­‑se dos carretos.

– Sim…

Wilhelm Martiniussen levantou­‑se e parou junto à janela.

– Não falaste muito na reunião.

– Pois não, não falei…

– Queres falar um pouco mais agora? Dizer alguma coisa? Pareces ter algo a pesar­-te no coração.

– Sabes que nunca me quero opor a ti nas reuniões, Wilhelm, mas é que…

Fez uma pausa.

 Não tenhas medo de dizer o que pensas, Bjørn – disse Wilhelm Martiniussen voltando­‑se para ele. – São negócios. Independentemente do que acontecer aqui dentro, nada vai afetar a nossa amizade. Sabesisso, não sabes? E, já agora: valorizo imenso a tua lealdade. Diz o que tens a dizer. Quero saber o que pensas acerca disto.

O autor do livro é Jan-Erik Fjell.

Bjørn Danielsen afligiu­‑se. Não gostava de enfrentar Martiniussen, mastinha de dizer alguma coisa. Porsi e pelo resto da direção. Ganhou coragem e disse:

– Os outros sentiram, é claro, alguma relutância em protestar contra a tua decisão.Conheço­‑te e sei que não vais ceder um milímetro. Pergunto­‑me apenas porquê. Depois de gastarmostantos recursos e horas de trabalho no projeto, decides de repente cancelar tudo. Primeiro, posicionas as tuas viaturas no terreno, literalmente. E depois isto. Para ser sincero, desconfio que esta decisão tem algo que ver com a Nora. Com todo o respeito, Wilhelm, há quanto tempo a conheces? Sete, oito semanas?

– Há quatro meses.

Bjørn Danielsen abanou a cabeça.

– Há quatro meses… e quanto tempo trabalhámos para ter uma oportunidade como esta? – olhou inquiridoramente para a secretária. – Trinta anos, Wilhelm… trinta anos.

– Compreendo a tua frustração. Mas o projeto do Canadá resume­‑se a uma coisa: dinheiro. E é uma maneira fodida e suja de o obter. Não tens que te chegue?

– Oh,sim, claro, mas nunca se tem dinheiro de mais, pois não? Além disso, isto aplica­‑se também ao futuro da empresa.

Wilhelm lançou­‑lhe um olhar brando.

– A Mardan vai continuar a viver com desafogo até bem depois de eu e tu termos deixado este mundo. O futuro não é a exploração de areias betuminosas. Já um investimento maciço em energias renováveis, por outro lado…

– Bem, mas as energias renováveis não são exatamente o nosso campo – retorquiu Bjørn.

– Exato.

Não valia a pena discutir com Wilhelm quando ele já tomara uma decisão. Bjørn receara que ele lhe apresentasse tal argumento. Era sabido por todos que a exploração de areias betuminosas era altamente poluente, que era prejudicial para o meio ambiente e que danificava a natureza em grandes áreas em redor dos campos explorados. No início do projeto, quando estava entusiasmado, Wilhelm falava com toda a certeza, e afirmava que a Mardan iria, com a sua tecnologia inovadora, deixar de ser uma pequena empresa petrolífera norueguesa e transformar­‑se numa companhia internacional. O dinheiro entraria a rodos e os donos da empresa seriam verdadeiros reis. Depois, ela aparecera. A mulher com quem Wilhelm começara a namorar. Nora Røed Karlsen, vinte e um anos mais nova do que ele. A ativista ambiental ruiva levara­‑o a crer que a vida não se reduzia a reuniões e contratos. Quase todos acreditavam que ela se interessara pelo empresário de sessenta anos devido ao seu dinheiro. Contudo, Wilhelm sabia que isso não era verdade.

Fora de Fredrikstad poucos sabiam quem era Wilhelm Martiniussen. Bjørn Danielsen era, conforme a vontade de Wilhelm, o rosto da empresa. «Ficas melhor na imprensa do que eu», tinham sido as suas palavras, e de facto não se pode dizer que ele fosse um homem bonito. Por seu lado, Danielsen adequava­‑se, era como se tivesse sido feito para aparecer. Assim, Nora Røed Karlsen não sabia quem era Wilhelm Martiniussen quando o conheceu num bar em Stavanger. Ele encontrava­‑se lá para visitar a sua prima, ela para participar num protesto organizado pela ONG Bellona. Nora só juntou as peças quando, quatro semanas depois, ele a apresentou a Bjørn Danielsen. Nessa altura, Nora – ou Bellonora, como Bjørn lhe chamava em tom provocatório – estava já tão apaixonada que a revelação não teve qualquer efeito.

A empresa, que estivera sempre em primeiro lugar, e que servira sempre de desculpa para ele nunca ter formado uma família, foi relegada para segundo plano. Danielsen não reconhecia este jovem no corpo envelhecido. Gostava de ver o amigo experienciar aquele amor. Afinal, fora ele que o tornara um homem abastado. Não tão abastado quanto o próprio Wilhelm, mas ainda assim o suficiente para viver confortavelmente com a sua mulher – cuja manutenção era muito dispendiosa.

– Quando é que o vais oficializar? – perguntou Bjørn.

– Que vamos abandonar o projeto?

– Sim.

– No fim da próxima semana. Vou enviar uma circular aos funcionários no início da semana. 

Bjørn Danielsen comprimiu os lábios e anuiu. Embora entendesse a decisão, não concordava com ela.