NiTfm live

Livros

“Não queria fazer ‘La Casa de Papel’. Que merda de nome”

A NiT entrevistou o ator Enrique Arce, que se estreia na literatura com “A Grandeza das Coisas sem Nome”.
O ator Enrique Arce estreia-se na literatura.

Antes de se tornar uma estrela ao interpretar Arturito na série fenómeno “La Casa de Papel”, o ator Enrique Arce passava uma fase difícil na sua vida. Estava em Londres, a capital do Reino Unido, para tentar furar naquele mercado — mas nada estava a correr bem.

Foi então que, a partir das próprias frustações, começou a escrever uma história sobre um ator da Broadway que atravessa uma série de dificuldades. Inicialmente, a história foi pensada como um guião para o cinema — Enrique Arce já escreveu vários — mas acabou por sair um livro.

“A Grandeza das Coisas sem Nome”, que tem recebido boas críticas, chegou às livrarias portuguesas a 19 de fevereiro. A edição da Esfera dos Livros tem 304 páginas e está à venda por 20€.

A NiT falou com Enrique Arce sobre o seu primeiro livro e a terceira temporada de “La Casa de Papel”. E, claro, sobre a sua participação no próximo “Exterminador Implacável”.

Enrique, há quanto tempo queria escrever um livro?
Olhe, foi uma surpresa para mim também. Nunca na minha vida pensei que o ia fazer. Eu escrevo guiões para filmes, mas esse é o meu meio, porque estou sempre a ler guiões. Não foi mesmo aquela coisa de “um dia vou escrever um livro” que muitas pessoas têm. A história é que veio até mim, eu não estive à procurar.

De que forma é que isso aconteceu?
Eu senti a necessidade de partilhar um momento pessoal de transformação e não queria que fosse um livro de auto-ajuda. Foi uma época não muito bonita a nível pessoal e económico para mim. Não gosto muito deste termo, mas estava com uma pequena depressão. Tinha saído de Espanha e estava em Londres. Passava muito tempo sozinho, não conhecia ninguém. E tinha tanto tempo para pensar — que em Madrid não tenho — e para escrever preciso de solidão, silêncio, reflexão. E tive isso tudo em Londres. Como não tinha trabalho como ator nem nada para fazer, comecei a escrever. O tempo é uma merda em Londres. Quase não podes sair de casa. Tudo se alinhou para eu contar esta história, que inicialmente era para ser um filme. Depois a própria história é que me pediu que fosse um livro.

Quando é que percebeu que esta história deveria ser um livro e não apenas um guião para um possível filme?
Foi literalmente meia hora. Sentei-me em frente do computador, comecei a escrever, como se faz num guião, mas não estava a funcionar. E de repente comecei a escrever como se fosse um livro e nunca voltei atrás. As personagens ganharam vida própria. Quando os grandes escritores falavam destas coisas, eu não percebia como é que a história tomava posse do processo. As personagens a falar… mas estão malucos? Agora percebo.

Foi fácil conciliar a escrita com o trabalho de ator?
Não… até hoje não consigo fazer as duas coisas ao mesmo tempo. Se estou a fazer um filme ou uma série de televisão, ponho esse chapéu, não ponho o de escritor. Não consigo acabar as gravações num dia e chegar a casa e começar um capítulo novo. São duas formas diferentes de estar no mundo, são duas partes cerebrais diferentes, é difícil de explicar. Mas antigamente quando tinha aquelas pausas do trabalho como ator, durante alguns meses, aborrecia-me imenso, não sabia o que fazer. Agora sei que posso sempre começar uma nova história ou um guião ou um blogue.

Depois de Londres voltou para Espanha precisamente para tentar publicar o livro, ou foi para trabalhar como ator?
Não, não. Saí de Londres e fui para a República Checa fazer uma série americana da HBO e do canal História que se chama “Knightfall”, sobre os cavaleiros templários. E deixei o meu apartamento em Londres no dia do Brexit. Foi uma coincidência. A minha festa de despedida foi no dia do Brexit.

Só depois é que voltou para Espanha?
Sim, eu tinha a ideia de, depois de fazer esta série em Praga, ir para Los Angeles e viver lá uns tempos — de forma a aproveitar esta série e tentar a minha sorte. Mas o meu agente ligou-me a dizer que havia um casting para uma série espanhola. “Não, não”, disse eu: “Como é que se chama?” “La Casa de Papel”. “La Casa de Papel?! Que merda de nome.” E disse que não queria fazer. Não queria fazer “La Casa de Papel”.

A sério?
Sim, e o meu agente disse para eu ir, que me queriam ver em duas personagens, o Coronel Prieto e o Artur. Normalmente nos castings fico muito nervoso, mas como não tinha interesse fui mesmo tranquilo. Só queria ir para que os diretores de casting se lembrassem de mim no futuro. O meu agente disse: “Bem, esta personagem só vai entrar em dois ou três episódios, porque não vais, ganhas algum dinheiro e depois vais embora? São só dois ou três meses.” “Está bem, está bem”, disse eu. E depois aconteceu isto tudo e foi maravilhoso. A personagem cresceu, funcionava muito bem para os criadores da série. Fizeram-me a proposta de tornar a personagem maior e ficar em toda a série. E aceitei, pronto, ia a Hollywood mais tarde. Depois, realmente fui. Pensei que o que me iria abrir as portas lá era “Knightfall”, mas nada disso. Foi mesmo “La Casa de Papel”. É incrível.

O livro já chegou a Portugal.

Quando é que percebeu que, afinal, gostava de interpretar Arturito?
Era muito engraçado e sempre que fazia alguma coisa — mesmo que não fosse comédia — sempre que se cortava a cena toda a gente se partia a rir. “Foda-se, estou a fazer comédia”, percebi. Os criadores disseram que o Arturito dava muito espaço de manobra à série e que iam escrever mais. Mas deram-me luz verde para inventar, sem limites.