NiTfm live

Livros

Matt Preston: “Sentimo-nos como o João Félix quando saímos do ‘MasterChef’”

O crítico gastronómico e ex-jurado do programa australiano está em Portugal para apresentar o novo livro de receitas.
O crítico tem um novo livro de receitas.

Matt Preston chegou a Portugal há nove dias — é a sua primeira vez no País — e o seu Instagram tem sido preenchido por pratos típicos de restaurantes portugueses. Ao longo dos últimos anos, temo-nos habituado a ver este crítico gastronómico como jurado de “MasterChef Australia”, um dos formatos televisivos de culinária mais populares em todo o mundo.

Foi no final de julho que a estação de televisão Network 10 anunciou que Preston e os seus colegas, Gary Mehigan e George Calombaris, iam abandonar o programa. “Depois de vários meses de negociações, a Network 10 não conseguiu chegar a um acordo comercial que fosse satisfatório para o Matt, Gary e George”, disse em comunicado um executivo do canal, Paul Anderson.

Agora, Matt Preston está à nossa frente, no hotel em que tem estado hospedado em Lisboa, na zona de Belém — e veste um fato verde azulado (ou azul esverdeado, se preferir) com um lenço colorido. Acordou cedo para passar o dia a fazer entrevistas, mas apesar de já estarmos no final da tarde parece continuar com a mesma energia e boa disposição. 

O pretexto para esta conversa é o seu mais recente livro, que foi publicado em Portugal em junho. “Delicioso, Fácil, Rápido” reúne 127 receitas — sejam pratos principais, refeições leves ou sopas — que demoram no máximo meia hora a preparar. Entre elas, 46 são vegetarianas — e 40 podem ser feitas com sobras de outros pratos comuns.

A ideia é mesmo ser um livro útil para todas as pessoas no dia a dia, sem serem necessários ingredientes muito difíceis de encontrar. A edição da Casa das Letras está à venda por 26,91€. Conheça cinco receitas que a NiT publicou na altura do lançamento e leia a entrevista.

O Matt tem vários livros publicados. Qual foi a ideia ou o objetivo principal deste?
Quero livros com que as pessoas cozinhem, que não sejam apenas vistos. Quero livros que vivam na cozinha, não numa mesa de sala. Com este foi uma ideia simples. Apercebi-me de que muitas das receitas que gosto de fazer não demoravam muito tempo a preparar. E a essência de cozinhar não é o tempo que se demora a fazer, é quanto tempo tens de estar na cozinha a preparar coisas. Por exemplo, num guisado podes cozinhar a carne, as cebolas e depois vai tudo junto para o forno — por isso a preparação são apenas uns dez minutos. A ideia era encontrar pratos para jantar que demorassem menos de meia hora a preparar.

Para um livro destes, é preciso testar muitas receitas, certo?
Sim, são muitas. Tenho imensas ideias e trabalho com uma equipa de três pessoas. Sentamo-nos e discutimos: o que fazemos a seguir, como é que vamos fazer isto funcionar? Se tivermos ideias que não estão a funcionar, guardamos para o próximo livro. Mas preciso sempre de outro par de olhos. Por exemplo, duas das pessoas com quem trabalho têm miúdos: são mães solteiras. E se é preciso muita loiça para um prato, dizem “são cinco peças de loiça, para um jantar. Eu não vou lavar isso!” E então minimizamos a coisa. E temos a opinião dos miúdos: “sim, não é tão bom como aquele outro prato”. Como em todos os livros de receitas, há algumas que toda a gente faz — 20 por cento das receitas são o que 80 por cento das pessoas faz. E depois há algumas tendências com as quais me entusiasmo, aquelas que a editora diz: “a sério?”

Matt Preston adora pastéis de nata e prefere os da Manteigaria.

Já alguma vez teve uma receita censurada?
Não, não [risos]. Bem, houve um livro, que não foi publicado em Portugal, que tinha uma receita com lagosta e manteiga de camomila. A pessoa da editora disse que não, mas eu consegui persuadi-la. E ela queria uma salada com massa. E eu disse: “não. Salada de massa é o diabo. Não gosto disso”. E ganhei essa. Mas funciona sempre assim: há uma lista de 200 receitas, e eu argumento para tentar tornar o livro um pouco maior. A maior parte dos bons livros têm umas 100 receitas. Os meus costumam ter 150 ou 207, porque tento enfiar mais lá para dentro. Só que fica mais caro e são necessárias mais fotografias. Eu provavelmente devia fazer 100 e parar, mas entrego sempre a mais.

E qual é o próximo livro?
Acabei recentemente o meu próximo livro, que será apenas de receitas vegetarianas e vegan. Temos estado a reunir e escrever estas receitas nos últimos três anos e meio, o que é muito entusiasmante. E agora no próximo livro quero pôr cachaço de porco cortado de forma fina e frito num churrasco com sal; quero incluir migas; quero uma salada de figos, nectarina e queijo de cabra; e quero brincar com a açorda, com o caril, ovos escalfados e o pão. Venho aqui e a minha mente está [imita barulhos elétricos intensos]. E para mim viajar é isso, experimentar novas coisas, ter perspetivas diferentes e também voltar com receitas novas.

Também faz muitos testes em casa ou gosta de manter as coisas separadas?
Não, muitas coisas vêm diretamente de casa. Algumas das receitas era o que comíamos todas as semanas em casa. Porque são mesmo rápidas e comida boa não tem de ser difícil de fazer. 

Numa semana normal, quantas horas é que passa a cozinhar?
Se estiver numa altura em que estou a escrever um livro, estou na cozinha uns dois ou três dias inteiros por semana. Noutra altura, cozinho umas três noites por semana — e ao fim de semana costumo fazer um grande cozinhado. Os meus filhos cozinham ao domingo — e é o dia de sobras. Tens de fazer algo a partir do frigorífico. 

Tem algum ritual quando cozinha? Gosta de ouvir música, beber vinho?
Sim, oiço música e gosto de uma boa garrafa de água mineral. Até fiz um álbum — no meu primeiro ano no “MasterChef Australia”, fizemos um álbum com canções para cozinhar e comer [risos]. E isso foi divertido. Mas quando estou a cozinhar gosto de música alta e rápida. Provavelmente punk rock antigo, como os Sonics ou os MC5.

Matt Preston nunca tinha vindo a Portugal.

A música influencia a comida?
Não, de modo algum [risos]. Faz-me só ser mais rápido e é bom para lavar a loiça também. Aprendi que tenho de ir lavando porque se não torna-se caótico. Especialmente quando estou a testar coisas e faço umas seis receitas por dia. Pode ficar maluco. E fiquei muito melhor em manter a cozinha limpa — apesar de não ser tanto como os meus filhos. É ridículo. Se vamos a algum lado e ficamos na mesma casa, fazes uma tosta e se não usares um prato, um deles aparece. “Não precisas de um prato para a tua tosta? Mete um prato. Não quero migalhas por aí”. Clássico.

Qual foi a receita mais estranha que já tentou fazer?
Bem, quando estava na universidade fiz um puré de batatas azul. E pintei feijões cozidos de vermelho, tinha salsichas, e ficou horrível. Também tentei fazer uma lasanha aberta, uma vez. Era horrível. A minha filha assim: “Não nos alimentes mais com isto”. E cozinhar para os miúdos é ótimo. Quando és incrível, eles dizem “isso é delicioso”, e quando erro eles dizem “isto é terrível”. 

Eles são os seus críticos de gastronomia pessoais?
Sim, todos os miúdos são os críticos dos seus pais. São os piores — muito piores do que os críticos de comida. Vão dizer-te exatamente o que pensam — e com uma brutalidade. E isso para mim tem valor.

E qual foi a coisa mais estranha que já comeu?
Provavelmente foi uma sobremesa. Era uma sopa doce de leite de amêndoa, e tinha pedaços de um bolo tipo pão de ló, era delicioso. E lá no meio havia ovários de um sapo chinês. Mas eu gostei mesmo deles [risos], eram bastante bons. O que mais me desapontou foi possivelmente quando estava no Japão. Pedi sashimi e recebi uma travessa enorme, delicioso. Mas havia uma coisa que não reconheci, e era baleia. Pensei: bem, já encomendei, já paguei, mais vale experimentar, preciso da experiência. Provei e não era muito bom. E pensei: porquê? Eu percebo as vieiras e os carabineiros, são deliciosos, não admira que sejam caçados mesmo que possam estar em extinção [risos]. Mas a baleia, porquê? Ou os tubarões, para quê caçar tubarões para fazer sopa? 

A ideia é começar um novo programa com os antigos colegas.

Existe alguma coisa que não coma de todo?
Tenho uma regra muito simples: é tudo o que cheire a cocó ou urina… rins que tenham sido mal limpos. Em França provei uma tripa guisada, mas não era o intestino delgado, era o grosso, aquela parte perto do fim, sabes? E é um grande snack de noitada, depois de uma saída na discoteca. Pegas naquilo, aproxima-se de ti, cheiras… e parece quando estás num campo e pisas bosta de vaca. Não quero comer isso. Mas tirando isso, é basicamente tudo. Tens de experimentar tudo uma vez. Porque nunca sabes. Até insetos — alguns deles são deliciosos.

Sobre o “MasterChef Austrália”, o Matt queria continuar no programa? O que aconteceu para terem saído?
Nós estávamos dispostos a fazer mais uma temporada e tínhamos chegado a acordo quanto ao dinheiro. Mas não queríamos ficar à espera. Queríamos fazer o programa, dois meses de promoção, deixar o programa respirar e depois partir para outras coisas. Mas a estação de televisão queria que esperássemos até ao Natal para começar a fazer o programa. Foi essa a razão. O que é triste, porque gostaríamos de nos ter despedido e talvez pudéssemos estar envolvidos na escolha do próximo júri, mas percebo.

O Matt também precisava de uma pausa do programa?
Estávamos a fazê-lo há 11 anos, mas acho que podíamos ter feito mais uma temporada. A ideia é que a 12.ª temporada tivesse antigos concorrentes. Seria uma forma ótima de nos despedirmos. Era trazer alguns dos nossos favoritos das temporadas anteriores. Porque muitos deles fizeram coisas incríveis e seria uma celebração disso — da pessoa que agora cozinha num dos melhores restaurantes dos EUA, ou daquele que é dono de três espaços em Adelaide [Austrália]. Era sobre o impacto que o programa teve. Seria ótimo, mas não era para acontecer. Eu, o George e o Gary temos uma grande relação e queremos fazer mais televisão. Sentimo-nos um pouco como o João Félix. Adoramos o Benfica, mas, bem, Atlético [de Madrid], vamos lá. 

E que clube novo seria esse?
Tirámos algum tempo agora. É incrível estar aqui em Portugal, e noutros sítios do mundo, e ver como o programa foi tão importante. Mas provavelmente teremos outro grande programa para fazer. Seria bom ter um formato em que pudéssemos viajar, que pudéssemos filmar no Algarve, ou num castelo ao pôr do sol. Temos cinco ideias, e agora temos de persuadir a Netflix ou a Amazon ou um desses tipos — ou fazer na Austrália e depois vender o formato. Mas não vamos desaparecer silenciosamente. E o “MasterChef” vai continuar com novos jurados.