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Martha Medeiros: “As minhas crónicas falam sobre solidão, maturidade e ciúme”

A escritora brasileira Martha Medeiros está em Lisboa para lançar um livro que reúne o melhor do seu trabalho nos últimos 25 anos.
O lançamento foi esta quarta-feira, 2 de outubro.

Amor, carência, família, solidão, sexo, coragem, fracasso, maturidade e ciúme são apenas alguns dos temas retratados nas crónicas de Martha Medeiros. Publicitária de formação, tornou-se uma das mais importantes escritoras brasileiras da atualidade, com mais de um milhão de exemplares vendidos e obras adaptadas para a música, a televisão, o cinema e o teatro.

Entre as peças de teatro baseadas nos textos da escritora que já passaram por Portugal estão “Doidas e Santas”, com a atriz Cissa Guimarães, e “Divã”, com Lilia Cabral. Esta quarta-feira, 2 de outubro, foi a vez do livro “O Melhor de Martha Medeiros” chegar ao País com uma seleção de 100 das suas crónicas de maior sucesso, publicadas em jornais como “O Globo” (do Rio de Janeiro) e “Zero Hora” (do Rio Grande do Sul).

“Morre lentamente” é uma das suas crónicas que se tornou viral na Internet, mas com autoria trocada, e ficou conhecida como sendo um famoso texto do escritor chileno Pablo Neruda. Confusão desfeita, as palavras escritas por Martha Medeiros, em novembro de 2000, ainda hoje são citadas em palestras de motivação pelo mundo.

“Morre lentamente quem evita uma paixão, quem prefere o preto no branco e os pontos nos is a um turbilhão de emoções indomáveis, justamente as que resgatam o brilho nos olhos, sorrisos e soluços, coração aos tropeções, sentimentos. (…)”, diz um trecho da crónica que faz parte do livro, que já está à venda em Portugal.

Martha Medeiros conversou com a NiT, momentos antes do lançamento na Livraria da Travessa, em Lisboa.

São 25 anos de crónicas em dois dos principais jornais do Brasil com milhões de leitores. Durante este tempo, o que mudou em relação aos temas ou ao modo como um escritor pode se manifestar em seus textos?

Acho que a principal mudança é em mim. São 25 anos na vida de uma mulher e muitas coisas acontecem. Lembro quando comecei a escrever, estava no início dos meus 30 anos, casada, com duas filhas pequenas, a construir uma família e com uma nova profissão, porque eu era publicitária e deixei a publicidade para fazer crónicas para um jornal. Hoje, quem sou eu? Eu sou uma mulher que não é mais mãe de duas miúdas. Agora, sou mãe de duas mulheres, sou divorciada, já passei por vários relacionamentos e neste momento estou numa outra relação mais estável e o mundo também mudou. Quando comecei, escrevia numa máquina de escrever elétrica. Imagina? Isso deve soar como Idade da Pedra. A tecnologia mudou tudo até a maneira da gente se relacionar. Precisamos revisitar as nossas questões e revisito as minhas também. Olho para trás e vejo como a minha maneira de pensar mudou. Hoje, temos uma patrulha muito maior contra o machismo, por exemplo. Tenho colegas que estão a reescrever seus trabalhos, porque acreditam que antes eles tinham posições muito fortes e não dá mais para ser assim. Então, olho para o passado e vejo que já fui machista, porque as mulheres também podem ser machistas, ou que as minhas ideias mudaram em relação ao que já escrevi, mas acredito que isso é uma prova de que amadurecemos. A gente revê o que pensa, porque viver é isso. Vida é movimento.

E como a Martha lida com estes temas mais sensíveis?

Tudo é muito maior, imediato e mais virulento, porque nas redes sociais muitas vezes as agressões ficam anónimas e é muito mais fácil as pessoas se soltarem. Tenho muita sorte, porque recebo muito mais carinho do que agressões. Meu público é muito educado. Então, não me preocupo muito se os temas são mais delicados ou não. O que me faz escrever é o quanto estou envolvida com aquele tema. Por exemplo, a política é uma questão que não entrou muito nas minhas crónicas, nunca foi uma questão para mim. Entretanto, hoje vivemos num momento peculiar no Brasil, o que faz com que eu escreva mais sobre isso em resposta a uma inquietação interna, um problema sobre o qual eu reflito a respeito e compartilho com meus leitores. Meus temas continuam a ser basicamente os mesmos: as relações humanas; a nossa complexidade; essa coisa aparentemente simples que é ser gente; o nosso relacionamento com a gente mesmo, não só com os nossos pais, namorados ou amigos, mas o nosso relacionamento com a gente, que muitas vezes deixamos de lado. Está tudo bem no casamento, na maternidade, sou uma boa mãe, mas e comigo? Estou a atender os meus desejos? Estou a ser íntegra e generosa comigo também? Às vezes, consideramos uma coisa meio egoísta, mas é fundamental para podermos nos relacionar bem com os outros.

E como é que a transição para um novo governo no Brasil afetou o seu trabalho? 

No meu caso, não entro muito nas questões económicas e políticas, mas me interessa muito os costumes. Quando escrevo sobre as relações humanas, trato de relacionamentos sexuais, de diversidade e de família — que também pode ser formada por dois homens ou duas mulheres. Então, quando vejo a pessoa mais importante da nação, o nosso representante, o pai da pátria, o presidente, a tratar deste tema com deboche, a defender o uso de armas, a ser preconceituoso e tratar a mulher de forma desrespeitosa, naturalmente eu preciso me posicionar. As mulheres conquistaram seu espaço de forma tão difícil, levou tanto tempo para termos uma sociedade mais igualitária e tolerante, com mais respeito pelas escolhas do outro. Então, quando vejo um governo de intolerância e que julga que só existe um tipo de família, um tipo de verdade, e que todo o resto é imperfeito, isso me deixa muito aborrecida. É tão custoso avançar e, de repente, em 9 meses a gente retrocedeu 50 anos. Começo a pensar se o país vai se recuperar e voltar a se alinhar com os países desenvolvidos. Pior é que tudo isso acontece por causa de religião, quando o Estado deveria ser laico e não é. Nosso governo está completamente vinculado aos evangélicos, mas, com todo respeito aos evangélicos, isso não é governar. Isto é governar para poucos e não para todos. Então, como escrevo sobre as relações humanas e vejo as relações humanas serem afetadas por este tipo de pensamento arcaico, preciso me manifestar nos meus textos.

Qual foi o critério para escolher as 100 crónicas do livro “O Melhor de Martha Medeiros”?

Foi difícil porque são mais de 2 mil textos escritos até aqui. Escolhi as que são mais conhecidas do público, como por exemplo “O Mulherão” ou um texto meu que tornou-se viral no mundo todo que se chama “Morre Lentamente”. O nome dele já foi “Morre Devagar”, mas houve uma confusão e muitas pessoas acharam que era do escritor Pablo Neruda e deram o título de “Morre Lentamente”. Agora, eu até já falo este nome para que os leitores identifiquem de qual texto estou a falar. Também escolhi alguns textos que gosto muito e representam meu pensamento. O livro é como uma trajetória evolutiva. Há textos que escrevi quando era mãe de duas crianças, há outros mais atuais que escrevi como uma mãe já liberada das crianças e que está a viver o que chamo de juventude parte II, que é uma maternidade mais livre. Se há como coisa que identifico no meu livro é a mensagem de que ainda dá tempo. Adoro esta ideia de que ainda temos tempo para realizar os nossos sonhos. Não importa se tem 38, 44, 57 ou 62 anos. Se estamos vivos, temos saúde e a mente boa, dá tempo para tudo.

Já nas livrarias.

Fez alguma adaptação para lançar o livro em Portugal?

Não, porque acredito que temos uma humanidade universal. As nossas questões são as mesmas seja no Brasil ou em Portugal. Só fizemos uma adaptação para o português de Portugal, mas é o mesmo livro que foi lançado pela Editora Planeta no Brasil. As crónicas são exatamente as mesmas, porque questões como solidão, maturidade e ciúme, tudo isso é universal.

Algumas peças adaptadas a partir de textos seus foram apresentadas em Portugal. Acredita que tem algum motivo especial para os portugueses se identificarem também com eles?

Existe um carinho muito grande dos portugueses com os artistas brasileiros, porque as novelas brasileiras também estão muito presentes em Portugal. É uma maneira deles verem aquele ator ou atriz que conhecem da televisão. No caso de “Doidas e Santas”, as minhas crónicas foram usadas como o pontapé inicial para criar uma história cheia de humor. É uma dádiva isso. Acho que meus textos têm uma comunicabilidade muito boa e, se calhar, devo isso ao facto de ter sido publicitária, porque fazer propaganda tem a ver com seduzir. Antes, eu seduzia um consumidor e agora estou a seduzir um leitor, mas continua sendo um processo de sedução. Meus textos falam de coisas que nos são caras entre quatro paredes. A gente está a viver na Era do espetáculo. Então, quando alguém consegue conectar as pessoas com as coisas que sentem por dentro, isso acaba por criar aquela magia da identificação.

Na Era da Fake News, o que mais incomoda um escritor que tem seus textos na Internet?

O que me chateia é ter a autoria trocada, mas há outra coisa mais chata ainda: quando não trocam a autoria, mas trocam um parágrafo. Às vezes, pode acontecer um caso de má fé. Na época da eleição, fizeram isto com um texto meu. Acrescentaram uma frase com um elogio a um candidato, coisa que eu não faço, e publicaram na Internet. O leitor vê aquilo tudo, vê que é meu estilo de texto, pensa que é mesmo meu e não consegue identificar uma alteração. Isso é muito grave e é uma coisa que pode acontecer. Já havia fake news quando ainda nem se falava disso. Outras vezes, fazem um outro final. Escrevem algo como “vamos ser feliz”. Como prezo muito por finais mais conclusivos, isto me incomoda. Isso o leitor não tem como identificar e é muito difícil descobrir a fonte desse equívoco. 

O que espera deste lançamento do livro em Lisboa?

Estou muito feliz, porque adoro abrir janelas na minha vida. Acho que a vida da gente é como um edifício e, quando inaugura um novo piso, também se abre uma nova porta e a vida toma um pouco de ar. Estou a mostrar o meu trabalho num novo mercado e não é qualquer um. Portugal é um país irmão e esta também é a minha primeira sessão de autógrafos na Europa. Cheguei mais cedo na Livraria da Travessa e tinha uma menina sentada com o meu livro na mão, a aguardar, e ela me olhou e começou a chorar. Às vezes, as pessoas te consideram um mito, um oráculo, uma entidade que escreve sobre nós, e acho muito bom quando posso estar junto e mostrar que somos todos iguais. Eu também fico nervosa e tenho vontade de chorar. Acho muito fixe estar olho no olho com as pessoas que estão a um oceano de distância de mim e fazê-los perceber que no fim das contas somos todos iguais. Tenho o privilégio de escrever um livro, mas acho que o grande privilégio é ser leitor e este é o privilégio da minha vida também.