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Josh Malerman: “Escrevi o manuscrito de Bird Box umas seis ou sete vezes”

O autor falou com a NiT a propósito do seu novo livro, "Inspeção", que chegou às livrarias portuguesas em agosto.
O autor.

Josh Malerman é o cérebro por detrás do estrondoso sucesso “Bird Box” (em Portugal, “Caixa de Pássaros”), o livro que inspirou o filme mais visto de sempre na semana de estreia na Netflix, com mais de 45 milhões de espectadores por todo o mundo. Esta quinta-feira, 26 de setembro, a NiT falou com o autor a propósito do seu mais recente trabalho “Inspeção”, que chegou às livrarias portuguesas no mês passado. 

Numa conversa por Skype com a NiT, Josh revelou “nunca se cansar” de dar entrevistas. “Acho que faz parte da beleza de isto acontecer um pouco mais tarde, estou mesmo agradecido por cada oportunidade que aparece”, revelou o autor de 44 anos. É que a sua história de sucesso não foi nada linear.

Josh contou-nos que já gostava de escrever quando estava no quinto ano. Primeiro foram as bandas desenhadas, depois poemas e contos, até que começou a tentar escrever livros aos 19 anos, mas nunca os terminava. Ao mesmo tempo, quase sem querer, deu por si a cantar e a escrever músicas para a banda que os amigos formaram em Detroit, EUA, com quem acabou por fazer digressões por todo o país durante vários anos — e com quem escreveu, em 2005, “The Luck You Got“, o tema de abertura da série de televisão norte-americana “Shameless“.

Josh não sabia tocar nenhum instrumento quando foi parar aos The High Strung, mas foi arrastado para o grupo pelos amigos, que queriam passar mais tempo com ele. Compraram-lhe o primeiro orgão e ensinaram-lhe os acordes. “Apaixonei-me por escrever músicas. De repente aqueles poemas horríveis soavam muito melhor com instrumentos a acompanhar”, recorda. 

Eventualmente tornou-se guitarrista e vocalista da banda, com quem chegou a apresentar 250 concertos num ano. Pelo caminho, seguia no lugar do passageiro a escrever as suas coisas, até que aos 29 conseguiu terminar o primeiro livro. “Aí tudo explodiu, porque percebi que afinal conseguia fazer isto de escrever”. Depois do primeiro, Josh Malerman conta que passou os 15 anos seguintes a escrever um livros inteiro a cada seis meses. Algures pelo meio, surgiu “Bird Box”, que finalmente publicou em 2014, já com 39 anos. 

Alguma vez imaginou que “Bird Box” iria ter tanto sucesso?

Quando estamos a escrever, é inevitável pensar que pode vir a ser um bestseller. Estive muitos anos a escrever livros até Birdbox ser publicado. Vivia numa ilusão maravilhosa: entrevistava-me a mim próprio, falava com editores imaginários, era como se tivesse mesmo acontecido. Quando o livro saiu, foi muito emocionante, mas ao mesmo tempo era tudo o que eu sempre imaginei, vê-lo na prateleira.

E o que sentiu quando soube que se ia tornar num filme?

Eu não estava mesmo preparado para aquilo. Estava preparado para que pudesse correr mal, para que passasse simplesmente despercebido, mesmo tendo a Sandra Bullock no papel principal. Quando comecei a ver o filme não queria acreditar no que estava a ver. Era apenas uma coisa que eu escrevi e de repente estava num ecrã gigante com a Sandra Bullock. Acordei no dia a seguir à estreia na Netflix e o meu telefone não parava de receber mensagens e tocava sem parar. Foi aí que pensei “isto é estranho”. Acho que se isto se tivesse passado aos 24, não teria dado o mesmo valor, pareceu-me mesmo inacreditável.

Em que aspetos é que o filme se afastou do livro?

Acho que o livro mete mais medo, é mais frio. Há uma cena no filme em que a Malorie vai fazer um dos miúdos olhar e isso não estava no livro. Eu pensei “uau, que bela ideia”. Até liguei ao guionista para lhe perguntar se podia usar aquilo no livro (risos).

O que achou da escolha de Sandra Bullock como Malorie?

Adorei a Sandra Bullock como Malorie, demorei 5 segundos a aceitar a escolha.

Como é que consegue escrever histórias tão asustadoras, que despertam o medo?

Acho que temos de manter uma espécie de inocência infantil. Temos de nos assustar e achar que as coisas são assustadoras. Eu tenho medo de tudo (risos). Consegui traduzir esses medos para a minha idade adulta. Se tenho de ir à casa de banho à noite continuo a olhar para os corredores para ver se está lá uma bruxa. O horror que me fascina não é o realista — como ladrões ou torturas — é o que vem da imaginação. Há algo de infantil nisso.

De onde vem a inspiração?

Há pessoas que estão sempre abertas a ideias. No outro dia uma mulher obrigou-me a responder à pergunta “se não fosse escritor, o que seria?”. Eu não faço ideia, mas ela insistiu tanto que mandei “estatístico” para o ar. E de repente estava a criar uma história na minha cabeça sobre um homem louco, obcecado por estatística, que estava a ouvir esta conversa e a registar dados aleatórios, como a quantidade de palavras que estamos a dizer. De repente já estava a escrever uma história na minha cabeça. Para mim, tudo o que vemos é uma ideia, temos de estar sempre abertos.

Costuma basear as personagens em pessoas que conhece?

A minha noiva, Allison, sem dúvida que inspirou uma ou outra, ela tem uma das personalidades mais extremas e únicas que conheço. Mas a Malorie (personagem principal de “Bird Box”, interpretada por Sandra Bullock) é talvez a personagem mais parecida comigo, é uma espécie de gémea minha no papel.

Fale-nos um  pouco sobre “Inspeção”.

É como uma história de cientista maluco. Há um homem que acredita que pode criar génios se os isolar numa torre sem distrações. Ele quer compensar os seus próprios erros, acha que passou muito tempo a andar atrás de raparigas, então cria um ambiente onde não existem mulheres. É um livro sobre alguém que está frustrado e decide fazer uma experiência maluca.

O sucesso de Birdbox influenciou o seu trabalho de alguma maneira?

Não. Sinto alguma pressão, sem dúvida. Mas acho que é outra vantagem de só ter tido sucesso aos 40 anos. Já me conheço como artista e tenho orgulho em ter um trabalho tão diverso. Quero manter a minha voz narrativa, mas contar sempre histórias diferentes. O que resultou em “Bird Box” foi escrever livremente, com paixão e sem expetativas. Há um lado libertador em já ter tido um grande sucesso, já recebi o selo de aprovação.

Antes terminar a entrevista, Josh Malerman pegou num manuscrito, que mostrou pela webcam. Na capa estava escrito “Malorie”, o título do seu próximo livro, que será publicado em maio de 2020.

Apesar de já estar terminado, Josh ainda o quer rever e, quem sabe, escrever todo do início — “escrevi o manuscrito de Bird Box umas seis ou sete vezes”. “Malorie” vai seguir a personagem principal de “Bird Box”, mas a ação desenrola-se 12 anos depois da primeira parte. Apesar de não poder revelar detalhes, o autor deixou-nos uma pista: “neste livro vamos ficar a conhecer a Malorie muito melhor”.

Desde 2014, Josh Malerman já publicou oito livros. “Inspeção” é o seu mais recente suspense. Está à venda nas livrarias portuguesas desde agosto deste ano, por 16,91€.