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Livros

A hilariante história do livro português que ficou famoso por ser tão ridículo

Mark Twain até escreveu o prefácio de uma das edições deste dicionário de português para inglês escrito por Pedro Carolino.
Ainda hoje está à venda.

No meio do século XIX, um autor português pouco conhecido conquistou uma grande popularidade de repente. O seu livro “O Novo Guia da Conversação em Português e Inglês”, publicado originalmente em 1855, começou a ser famoso no Reino Unido. Mas não pelos melhores motivos.

O objetivo era que esta obra de Pedro Carolino ajudasse os portugueses a falar melhor inglês — era um guia de traduções. Só que Carolino praticamente não sabia falar inglês. Em vez de ajudar os portugueses a dominarem a língua inglesa, este livro tornou-se um clássico do humor involuntário — era tão mau que se tornava hilariante.

Na verdade, este trabalho era uma adaptação de outros dois guias de línguas — um de português para francês e outro de francês para inglês. Daí as enormes confusões nas traduções à letra de Pedro Carolino.

Esses dois guias tinham sido escritos por José da Fonseca, linguista da época, que Carolino quis creditar na sua obra como co-autor — presume-se como forma de ganhar alguma credibilidade, ou até mesmo por se ter baseado nos seus guias para construir esta obra.

“Quem é aquele sujeito que lhe falava há pouco? (How is that gentilman who you did speak by and by?) É um alemão (Is a german). Parecia-me inglês (I did think him englishman). Ele é da parte da saxónia (He is of the saxony side).”

É este um dos muitos diálogos errados que fazem parte de “O Novo Guia da Conversação em Português e Inglês”. Além disso, vários provérbios ou expressões idiomáticas foram traduzidos à letra, o que, claro, resultou em muitos erros — sobretudo porque a tradução de Carolino era feita a partir do francês.

Foi publicado em 1855.

Por exemplo, José da Fonseca traduz num dos seus guias “dar pérolas a porcos” como a expressão semelhante “faire de la bouillie pour les chats”. Carolino transcreve como “to make paps for the cats” em vez de “give pearls to the pigs”, como poderíamos esperar.

Terá sido um leitor que em 1869 escreveu para o jornal britânico “Notes and Queries”, a falar sobre o livro e a comentar os seus erros, que tornou o guia de Pedro Carolino tão popular no Reino Unido. Esse leitor tinha encontrado o livro em Macau e tinha-o achado hilariante por ser tão mau.

Nesse ano, foi editada pela primeira vez uma versão intencionalmente cómica do livro — e as restantes edições começaram a esgotar em Portugal, encomendadas misteriosamente para Inglaterra e para os EUA. 

Depois, saiu uma edição americana, com um prefácio escrito pelo famoso Mark Twain. “Este celebrado livro não morrerá enquanto a língua inglesa durar”, escreveu Twain, que o considerou de “imortalidade certa” e “perfeito” — de forma completamente irónica, claro.

Mark Twain é que lhe deu o título “English as She is Spoke”, com que ficou conhecida para sempre esta obra. Desde então, tornou-se um livro icónico que foi reeditado inúmeras vezes. 

Também há uma edição de sucesso com um sentido propositadamente humorístico no Brasil. E há quem diga que até serviu de inspiração para o célebre sketch dos Monty Python “Dirty Hungarian Phrasebook”. 

Se o quiser comprar atualmente, ele está à venda por 11,40€ numa edição das Publicações Serrote de 2016. Tem 192 páginas.