Livros

Filipa Martins: “Tenho uma certa desconfiança com os escritores que só escrevem”

A escritora publicou o seu quarto romance, “Na Memória dos Rouxinóis”, e falou com a NiT.

Filipa Martins publicou o primeiro livro há dez anos.

O relógio marca 10h30. Filipa Martins chega pontualmente ao local marcado, o Botequim, em Lisboa, bar que foi aberto no final dos anos 60 por outra escritora, a célebre Natália Correia. “Até é estranho estar aqui durante o dia”, comenta com a NiT.

Se normalmente são os copos, os petiscos e os amigos que a levam a visitar aquele que é um dos espaços mais icónicos da Graça; desta vez o motivo é outro, uma conversa com a NiT a propósito do seu quarto romance.

Apesar de o lançamento oficial só acontecer no final do mês, no festival literário Correntes d’Escritas, na Póvoa de Varzim, “Na Memória dos Rouxinóis” chegou às prateleiras das livrarias naquele dia, a sexta-feira de 9 de fevereiro. Custa 16,60€ e é uma edição da Quetzal com 216 páginas.

Costuma vir ao Botequim?
Sim, à noite. E vim cá mais [nos últimos tempos] porque estive a terminar o argumento para uma série para a RTP, que vai estrear no segundo semestre deste ano e se chama “Três Mulheres”. Remete-nos para o universo boémio literário dos anos 60. São três protagonistas femininas, uma delas é a Natália [Correia], a outra é a Maria Armanda Falcão, e a terceira é a Snu Abecassis. São 13 episódios e termina com a inauguração do Botequim — sendo que não foi filmado aqui, foi num décor que encontrámos no Poço do Bispo. É um período um bocadinho agridoce: a altura em que a Primavera marcelista já começou a semear as suas desilusões.

Ajuda estar neste ambiente para escrever sobre ele?
Acho que há alturas em que a envolvente importa, não acontece sempre. Quando tens de escrever um argumento tens de preocupar-te em pintares de alguma forma aqueles diálogos, perceberes como é que a personagem se sentava, em que tipo de cadeira, e isso às vezes só consegues chegar lá se tu próprio mimetizares aqueles gestos. Nesse aspeto é bastante diferente de escrever ficção.

E sobre o seu novo romance, a ideia surgiu numa viagem em Itália, não foi?
Tenho pensado sobre onde é que o escritor vai buscar referências, e a questão biográfica é inevitável. No Correntes d’Escritas eles costumam enviar uma frase para ser objeto de tertúlia e havia uma que era algo como: “Eu escrevo sobre o que não sei”. E pensei que iria bastante ao encontro da reflexão que já tinha vindo a fazer. As cidades influenciam-me muito no gatilho para a escrita.

Porque está fora do quotidiano?
Sim, tenho um parênteses na realidade. Cria-te mais disponibilidade mental: é uma zona protegida para encetares um pensamento sobre uma nova proposta literária, ganhares coragem para voltares a escrever. Já não sei quem é que dizia que o escritor é aquela pessoa que escreve com mais dificuldade. Deve ter sido uma pessoa inteligente qualquer: Mark Twain, se calhar. E quando queres ser válido nalguma coisa — já nem digo perfeccionista —, és assombrado. Escrever é sempre um ato de coragem. Independentemente de ser uma escrita panfletária ou revolucionária. Primeiro porque é um ato de exposição, e depois porque também é assumires que vais criar zonas necessárias de solidão. Quando tens de escrever é mais ou menos como estares no fundo de uma piscina. Porque muitas vezes estás em apneia.

Tem de se fechar para deixar libertar as palavras?
E às vezes deixar de respirar [risos]. As viagens criam esse espaço. Sou apaixonada por Florença e lá conheci um casal homossexual, que estava a atravessar uma crise óbvia de meia idade. Aquelas pessoas que, quando vais jantar à noite com os teus amigos, e tens um casal e eles estão constantemente a criar situações constrangedoras. E tu que és o terceiro elemento sentes ali um mal-estar, e há muitas memórias — eu chamo-lhes “foda-ses calados”. Há uma frase no livro que diz: “Não há pior úlcera do que a úlcera do tipo foda-se”. Que é aquela que se aloja cá dentro e nunca é verbalizada. E quando chegamos a uma fase da vida de casal acumulamos muitas dessas, porque inevitavelmente sabemos que, se as verbalizarmos, aquilo vai tender para o fim. E nesse casal, um era mais das matemáticas, e o outro das letras, e gostei muito dos dois. Gostei da racionalidade do intelecto de um, e do sentimentalismo romântico do outro. Achei que era um casal extremamente bonito.