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Eu, mulher, só pude dizer 100 palavras num dia — como no livro “Vox”

A história de Cristine Dalcher é uma distopia semelhante a “The Handmaid’s Tale”. As mulheres são oprimidas e mal podem falar.
"Vox" é o novo "The Handmaid's Tale".

100 palavras por dia. Nem mais uma. É assim a vida das protagonistas de “Vox”, o novo livro de Christina Dalcher, que já foi descrito como “uma versão aterrorizadora de ‘The Handmaid’s Tale’”, segundo a revista “Elle UK”, e “perfeito para fãs de distopias”, escreve o “Library Journal”.

Tudo começa numa eleição para o presidente dos Estados Unidos. A maioria escolhe um homem que impõe uma nova regra: as mulheres, incluindo crianças, não podem dizer mais do que 100 palavras por dia. Cada palavra a mais dá direito a um choque elétrico através de uma pulseira que é obrigatória para todas.

Sendo impossível imaginar sequer viver numa realidade assim, tentei gastar apenas esse número durante 24 horas e foi tudo bem pior do que previa. Um estudo da Universidade do Texas revelou que, em média, as mulheres usam um pouco mais de 16 mil palavras num dia (os homens quase atingem essa marca). Tendo isto em conta, 100 é um número minúsculo.

Sabia que tinha de eliminar todas as conversas do meu quotidiano e limitar-me apenas ao essencial do essencial. Saí de casa sem os miúdos (num percurso até à escola estoirava, de certeza, o plafond). Assim que cheguei ao trabalho, encontrei uma colega. Não reagi a nada do que ela disse, limitei-me a acenar. Perante a incompreensão, tive de explicar:

“Não posso falar. É trabalho. Depois explico.”

Com sete palavras desperdiçadas logo ali, tive de entrar no edifício sem agradecer ao senhor que me segurou a porta, sem dizer bom dia ao segurança e muito menos às pessoas que dividiram comigo o elevador — claro que, nesse momento, tinham de estar cinco pessoas à espera para subir e todas foram saindo em andares diferentes desejando igualmente bom dia.

Na NiT houve dois tipos de pessoas: o colega solidário, que viu o desespero crescer nas minhas expressões faciais ao longo da manhã, e me deixou no meu canto; e o colega pica-miolos, que de cinco em cinco minutos repetia o meu nome, vinha ao meu ouvido provocar-me e me enviava mensagens pelo messenger para ver se eu me esquecia e respondia (por escrito também não valia falar).

Até às 10h30 gastei 50 palavras apenas em três frases sobre artigos que estávamos a preparar. Comecei a perceber que esta missão seria impossível. Em “Vox” — editado pela Topseller e nas livrarias desde segunda-feira, 4 de fevereiro, por 15,92€ —, as mulheres são oprimidas. 100 palavras por dia é o equivalente a quatro palavras (ou, mais precisamente, 4,16) por hora. Isso significa que é basicamente uma sentença para silenciar as mulheres e lhes retirar qualquer poder, até o direito a terem uma opinião.

Durante a manhã inteira não consegui concentrar-me no que estava a fazer. Sempre que dizia alguma coisa, ia tomando nota de tudo num bloco de notas e fazendo a contagem. 66 palavras às 11h57, 82 às 12h41.

Comecei a ter sintomas físicos, ri-me, achei que era parvoíce. Mas não era. A boca estava seca, batia com o pé insistentemente, roía as unhas, tinha comichão no pescoço. Às 12h54, tive de resolver mais uma coisa de trabalho. Pronto, acabou. Dei por terminada esta experiência gastando o meu último crédito com uma asneira que gritei (com a frustração, claro) e que não posso reproduzir aqui.

A versão portuguesa é da Topseller.