NiTfm live

Livros

Aqui estão as primeiras páginas da biografia de Zé Pedro, dos Xutos & Pontapés

Chega às lojas esta terça-feira e foi escrita pelo jornalista André Rito, além de incluir ilustrações de Pedro Lourenço.
O guitarrista fundou os Xutos & Pontapés.

Foi a 30 de novembro de 2017 que Portugal recebeu a notícia triste da morte de Zé Pedro, mítico guitarrista e fundador dos Xutos & Pontapés, que tinha apenas 61 anos. Quase dois anos depois, chega a primeira biografia ilustrada sobre o músico português.

O jornalista André Rito escreveu a história de Zé Pedro — com recurso a vários depoimentos de amigos e colegas —, sendo que as ilustrações são da autoria de Pedro Lourenço. Esta edição da Suma de Letras, do grupo Penguin Random House, está à venda por 18,80€ e tem 110 páginas.

A apresentação oficial está marcada para 29 de novembro, uma sexta-feira, pelas 19 horas, na Livraria Ler Devagar, na Lx Factory, em Lisboa — o radialista Henrique Amaro será o responsável pelo evento. Antes disso, pode ler as primeiras páginas de “Zé Pedro, uma biografia” em exclusivo na NiT (o prefácio, que não incluímos aqui, foi escrito por Tó Trips).

“A família

O  Zé Pedro nasceu pela meia-noite de 13 para 14 de Setembro de 1956, no quarto número três da Maternidade do Pavilhão da Família do Hospital Militar da Estrela. Por superstição, a mãe escolheu registar o filho no dia seguinte: o Zé Pedro era um bebé de cabelo castanho-claro, olhos azuis e três quilos e oitocentos.

Foi um miúdo precoce: com nove meses já andava e tinha pouco mais de um ano quando a mãe o apanhou a dançar sozinho na cozinha. O episódio seria recordado em várias conversas da família: mal andava mas já dançava, muito convencido.

Viveu com a família na zona norte dos Olivais, em Lisboa, durante muitos anos, num dos edifícios atribuídos às famílias dos militares, já que o pai era capitão do Exército. Quando começaram a ouvir falar na casa nova dos Olivais, os seis irmãos já se tinham habituado a uma vida de constantes mudanças, sempre motivadas pelas comissões de serviço do pai: a Paula e a Leny, as mais velhas, tinham nascido em Lourenço Marques; o Zé Pedro, a Ana Isabel e a Maria João, em Lisboa; e o Nuno nascera em Timor. Mais tarde, em 1965, nasceria a Patrícia, a mais nova. Mas, ao contrário do que esperavam, aquele sétimo direito, com quatro quartos e uma garagem que ficaria para a história da música portuguesa, acabaria por se tornar na casa de família, onde os irmãos passariam toda a adolescência e juventude.

Durante as mudanças, as irmãs mais velhas encontraram um gravador de bobines. Uma das gravações continha a voz do irmão a entoar uma marcha: toca a bandeirinha, toca a bandeirola. Além do gravador de bobines, outras surpresas surgiram no meio dos caixotes: vários desenhos infantis do Zé Pedro, quase todos de barcos e bandeiras portuguesas, fruto dos tempos passados nas messes de oficiais e quartéis do Exército e das memórias da primeira grande viagem de barco, numa altura em que o pai fora colocado em Timor.

Em casa sempre houve transístores, rádios, gira-discos. Tinha o Zé Pedro um ano e já trepava para cima da mesa da sala onde havia um pequeno rádio, atraído pelo som. Às vezes, puxava o naperon e atirava uma jarra ao chão. Mas, quando conseguia subir sem fazer estragos, encostava o ouvido ao altifalante e acabava por adormecer em cima da mesa. 

De barco até Timor

Partiram de Lisboa no dia 28 de Dezembro de 1960. A bordo do Timor seguiam os pais e os quatro irmãos mais velhos: a Paula, a Leny, a Anabé e o Zé Pedro. A Maria João, na altura com apenas quatro meses, ficaria com os avós maternos em Portugal. A família haveria de se reencontrar em Lisboa após uma temporada de quatro anos. No regresso, trouxeram um novo elemento: o Nuno, nascido em Dili.

A viagem durou mais de um mês, e o Zé Pedro, com quatro anos, fez vários amigos no navio, entre jogos e exercícios de segurança em caso de naufrágio. Atravessaram o Mediterrâneo, o canal do Suez, desembarcaram em Port-Said, aportaram a Goa, Ceilão, Singapura, Hong-Kong e Macau, até, finalmente, chegarem a Dili. Seguiram para Viqueque, na costa Sul da ilha, um dos locais mais distantes do Portugal-Metrópole.

Esperava-os uma casa com chão em terra batida, sem electricidade mas com muitos bichos. Seria esse o maior divertimento das crianças: correr atrás da bicharada, apanhar cobras e lagartos. Viajavam regularmente dentro da ilha para acompanhar o pai. O Zé Pedro era o protegido e foi assim que apanhou a primeira bebedeira, aos sete anos, num dia em que decidiu beber o que restava no fundo dos copos dos militares.

Tal como em Portugal, durante a temporada passada em Timor, a família viveu em diferentes locais da ilha. Em Maubisse, ficaram presos em casa durante um mês porque a temporada das chuvas se arrastou para lá do habitual, deixando os miúdos colados ao vidro da casa no cimo da montanha, a observar as gotas pesadas que caíam do céu. Deslocavam-se de jipe onde era possível, porque, quando a estrada acabava, era um burro que os levava pelo meio do mato.

Os pais costumavam fazer vídeos e slides que durante décadas ocupavam regularmente os serões da família, para recordar os tempos de Timor. O próprio Zé Pedro haveria de evocar esses tempos em diferentes entrevistas. Um dos momentos marcantes aconteceu quando, no regresso, o barco aportou a Hong-Kong. Com sete anos, o rapaz teve a primeira noção do que era a electricidade. Ao ver as luzes da cidade, os néons coloridos, ficou tão excitado que fez uma directa à janela do camarote. Afinal, só conhecia as lamparinas que iluminavam as aldeias timorenses.

A viagem de Dili a Lisboa foi longa e atribulada: o navio apanhou uma monção na Índia, o que obrigou os passageiros a recolherem-se nos seus aposentos, e todos sofreram com o calor insuportável à passagem pelo Equador. Quando o navio atracou no último porto, o Zé Pedro estava ansioso por encontrar a irmã que tinha ficado com os avós. A Maria João tinha agora quatro anos, e os seis irmãos iam finalmente ficar juntos. Para quem chegava de uma terra tão despojada e paradisíaca, o choque foi mesmo com a cidade de Lisboa, que lhe pareceu enorme e exuberante: “É aqui que vamos viver?”

Liceu

Dentro do bairro dos Olivais havia pequenas ilhas: os oficiais davam-se com oficiais, os sargentos com sargentos. Para os filhos, o destino estava mais ou menos traçado: os rapazes iam para o Colégio Militar, as raparigas para o Colégio de Odivelas. Terminado o segundo ano na tele-escola, o Zé Pedro foi fazer os testes de admissão ao Largo da Luz, mas acabou por chumbar: era um trinca-espinhas, sem peso suficiente para andar no meio dos militares. Entrou no Liceu Padre António Vieira, do qual guardaria na memória mais as asneiras e baldas do que as aulas e os professores.

No 4.º ano, mudou-se para o Liceu Camões e foi suspenso por andar a espreitar o recreio das raparigas. Dizia que a escola “era suposto ser mista”, quis armar-se em corajoso, mas não correu bem: foi para casa dois dias. Também não lhe eram conhecidos grandes talentos musicais: o professor do coro chegou a dispensá-lo porque achava que ele não tinha jeito nenhum para a música.

Com 13 anos, ainda estava longe de descobrir os primeiros acordes de guitarra. Ou, como dizia, de «tocar nos pontinhos». O pai estava novamente de partida para uma comissão no ultramar e a família lá teve de fazer as malas outra vez: os quatro filhos mais novos acompanhavam a mãe, as mais velhas ficavam no Colégio de Odivelas e o Zé Pedro na casa dos avós paternos. Mas no Verão, depois dos exames, foi ter com os pais à Guiné. 

O avô levou-o ao aeroporto e ele encontrou logo um amigo, filho de um sargento. Sentados nos bancos de um avião militar, os dois rapazes ficaram brancos quando viram o piloto aproximar-se para lhes dizer onde estavam guardados os pára-quedas e os botes salva-vidas. 

Chegaram ao fim do dia à ilha do Sal, em Cabo Verde, mas o avião para a Guiné só partia às cinco da manhã. Os magalas desapareceram todos e eles ficaram os dois, cada um com a sua maleta, a olhar para o aeroporto, quando aparece alguém e diz: «O aeroporto vai fechar, desandem daqui.» Com fome e sem dinheiro, decidiram avançar por uma estrada até chegarem a uma zona de palhotas cheias de soldados e mulheres. Foram salvos por uma patrulha portuguesa que os levou de volta ao quartel para lhes matar a fome e a sede. Como não havia água, beberam o vinho dos militares. “E um gajo de tão agradecido que estava… apanhei uma bezana!”

Tem 110 páginas.